“A Praça, a Praça é do povo, como o céu é do condor”. Mas como o salário mínimo foi aumentado (em 100 por cento), Golbery derrubou o ministro do Trabalho, João Goulart

Helio Fernandes

Todos que estão no Poder gostam de usar e abusar da palavra povo. Embora se sirvam dele, quase nunca servem a ele, se preocupem, tentem de várias ou de qualquer maneira disfarçar seus sentimentos. O genial poeta era sincero, e foi inebriante, empolgante e fascinante, localizando e englobando o povo e a praça, duas coisas naturais.

Ditadores, democratas, poderosos de todos os poderes, gostam muito de citar o salário mínimo como uma de suas grandes realizações ou concessões.

Isso começou em 1780, com a Revolução Industrial da Inglaterra, que praticamente acabou com a escravidão na Europa. Tendo multiplicado por três a capacidade de produção das máquinas, precisavam de mais e mais consumidores. Fizeram a “conta no lápis” (ainda não existiam as máquinas de calcular), constataram que era mais rendoso liberar os escravos para terem suas casas e seus negócios. Os que ficaram, recebiam mensalmente um total estipulado, era o SALÁRIO MÍNIMO.

Depois foi se tornando oficial. Com a Revolução mexicana, de Pancho Vila e Zapata. Os dois generais “analfabetos”, traídos, foram assassinados, mas conseguiram a bela Constituição de 1918. Mussolini, em 1922, na famosa “Marcha sobre Roma”, deu esse direito aos trabalhadores. Vargas também, ufanista, consagrou esse princípio, com o ministro do Trabalho, Lindolfo Collor. (Avô do próprio).

Esse salário é sempre mínimo, exigência dos empresários e excesso de burrice da legislação. Os patrões descontam 22 por cento mensalmente por cada empregado, estes são ROUBADOS em 9 por cento do que ganham. Se pudessem depositar esses 9 por cento durante a vida de trabalho, se aposentariam com o triplo do que recebem.

Agora, lutam no Congresso por causa desse salário que pretendem aumentar em 6

 por cento, no máximo. Ficam oscilando entre 540 e 560 reais, com alguns tentando chegar a 580. 600? Dizem logo: “O país não aguenta”.

Em 1952, esse salário mínimo derrubou o ministro do Trabalho. Era João Goulart, que no 1º de maio desse ano, aumentou o mínimo em 100 por cento.

O presidente era Getúlio Vargas, que sofria tremenda oposição. Lacerda e Golbery, então amicíssimos (inseparáveis) resolveram: Lacerda comandaria o desgaste político do presidente, ele, Golbery, veria a forma de ajudar.

Não foi difícil, sendo para derrubar, Golbery era invencível. Da ativa, coordenou com alguns militares, decidiram protestar publicamente contra esse “AUMENTO EXAGERADO”.

Surgiu então o famoso “Manifesto dos Coronéis”. Redigido por Golbery (ele também assinou), com 69 deles, exigiam a saída de João Goulart.

*** 

PS – Jango “sentiu” a força do movimento. Foi a Vargas, explicou: “Presidente, o momento não é de combate, não temos força, vou pedir demissão”. Saiu mesmo, foi uma desastre para Vargas, para João Goulart mais um episódio na carreira polêmica.

PS2 – A primeira assinatura era do coronel Amaury Kruel. Quando Jango chegou à Presidência, quase 9 anos depois, Kruel já era general, Jango nomeou-o Chefe da Casa Militar. Promoveu-o a 4 estrelas (general de Exército, indicou-o comandante do II Exército (São Paulo).

PS3 – Os “diálogos” de Kruel pela televisão, são conhecidos e as exigências do general “para manter Jango na Presidência”. A exigência inicial era esta: “O presidente João Goulart tem que demitir todos os comunistas do seu governo”.

PS4 – Jango que já estava irritado, achava que mesmo se aceitasse “exigências”, Kruel não tinha tanta força, foi embora. Se tivesse resistido em 1952, não teria fortalecido a ele mesmo e ao presidente?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *