“Por que eles e não eu?”

Carlos Chagas

Dos 37 ministros do presidente Lula,  pelo menos onze vão continuar no governo Dilma Rousseff: Guido Mantega fica na Fazenda, Fernando  Haddad,  na Educação, Wagner Rossi, na Agricultura, Alexandre Padilha,  nas Relações Institucionais, Nelson Jobim, na Defesa, Carlos Lupi, no Trabalho e Orlando Silva, nos Esportes, somando-se a eles Paulo Bernardo, que passa do Planejamento para as Comunicações, Gilberto Carvalho, da Chefia de Gabinete para a  Secretaria Geral, além de Antônio Palocci, que foi da Fazenda e vai para a chefia da Casa Civil e Edison Lobão, que volta às Minas e Energia.

Caso outros não consigam atravessar o campo minado,  sobram 26  malas prontas para retornar à planície. Ministros  que, pela escolha dos onze companheiros,  fatalmente estarão remoendo a óbvia pergunta: “por que eles e não eu?”

Os governos de continuidade têm dessas coisas. Geram,  senão ciúmes, ao menos amuos. Muitos dos  que partem  podem não deixar saudades. Os que permanecem precisam  cuidar-se, evidência que nos leva a uma situação maior: vai-se o presidente Lula, chega a presidente Dilma. Sabe muito bem  a primeira mulher a galgar a chefia do governo que sem o primeiro-companheiro seria impossível sua ascensão. Deve tudo ao Lula e, por isso, o relacionamento entre eles será especial. Mas a presidente eleita  não pode imaginar-se um vídeotape ou papel carbono do antecessor. Precisará navegar com carta própria de marear,  mesmo  mantendo o rumo.

Exemplo dessa  situação está na entrevista que Dilma Rousseff concedeu  ao Washington Post, publicada no fim  de semana. Suas concepções sobre política externa diferem daquelas sugeridas pelo ainda chanceler Celso Amorim e endossadas pelo Lula. Maior aproximação com os Estados Unidos, maior distância de ditaduras como a do Irã. Multiplique-se esse quadro  por  outros setores da administração  e se terá a receita de como serão  delicados os próximos meses.

JUSTIÇA A UM PROFESSOR DE DEMOCRACIA

Proposto pelos três senadores de Minas, aprovado  na Comissão de Constituição e Justiça e no plenário do Senado, seguiu para a Câmara projeto que dá ao ex-vice-presidente Pedro Aleixo o status de ex-presidente da República. Faz-se justiça a um professor de democracia, garfado nos idos bicudos de 1969 por uma Junta Militar que usurpou o poder, impedindo o substituto e sucessor constitucional do enfermo presidente Costa e Silva de assumir. Pedro Aleixo será inscrito na galeria que começa com Deodoro da Fonseca e chegou ao Lula.

Há precedente. Tancredo Neves, eleito, não chegou a tomar posse, mas por ato do Congresso a memória nacional já  o tem como presidente da República. Nada mais correto do que a Câmara, ainda este ano, aprovar a reparação que se faz necessária a outro mineiro ilustre.

PREJUÍZO COISA NENHUMA

Não parece fácil a Dilma Rousseff escolher o novo ministro da Previdência Social. O PMDB refuga a indicação,  primeiro por não dispor de um técnico à altura, em sua bancada, depois por fugir de rabos de foguete. Porque a Previdência Social continua acusada de  a causa de todos os males, mesmo sem ser. Toda proposta de aumento salarial e de melhoria das condições dos  aposentados esbarra na mentira de que a Previdência  dá prejuízo e será responsável pela volta da inflação, a bancarrota da economia  e o naufrágio do país.  Mentira.

A Previdência Social equilibra-se porque milhões de cidadãos passam a vida contribuindo para  receber, depois, a justa retribuição pelo seu trabalho. Excessos podem registrar-se, aqui e ali, mas como exceção. Além do mais, o governo não é constituído de compartimentos estanques e independentes. Forma uma só unidade, ou seja, com caixa único. Se um setor não dá lucro,  eventualmente ou de forma permanente, existirão os que jamais deram prejuízo. É  o sistema de vasos comunicantes. Penalizar e até tentar substituir a Previdência pública pela privada  constitui  malandragem. As Forças Armadas  não dão lucro contábil, muito pelo contrário. Vamos extingui-las ou privatizá-las? E os bebês?

BOBAGEM ABANDONADA

Parece abandonada a idéia de alguns tontos do DEM de extinguir o partido, incorporando-o a outro. Nem PMDB nem PSDB, porque apesar de sucessivas derrotas, a legenda que já foi Arena, PDS, Frente Liberal e tem  seu lugar no cenário nacional. Não é preciso concordar com seus postulados, de resto muitas vezes reacionários e prejudiciais ao país. Mas seus integrantes têm o direito de existir, se vivemos um regime democrático. A fusão com outros partidos maiores só aumentaria a confusão. Graças ao seu ex-presidente, Jorge Bornhausen, o  DEM continuará. Quem quiser sair que saia.

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