Renuncie com grandeza!

Carlos Chagas

Hoje, incio do recesso parlamentar, o senador Pedro Simon estar no aeroporto de Braslia para pegar o avio. Para onde? Ele no sabe. Est com vergonha de descer em Porto Alegre. E em qualquer outro lugar. No tem para onde ir, como falou.

Na vspera, num de seus mais contundentes discursos de uma vida parlamentar de quarenta anos, o representante do Rio Grande do Sul emocionou os colegas ao afirmar que se sentia responsvel por tudo o que acontece no Senado. Pelos escndalos denunciados em cascata, verificados h anos na Cmara Alta. Como o mais velho dos senadores, j tendo completado oitenta anos de idade, pediu desculpas, apesar de ser um dos poucos sobre o qual nada pesa, em termos de irregularidades. Mas no fugiu culpa de ter assistido h dcadas, omitindo-se, o Senado transformar-se numa casa de horrores, onde todo o tipo de lambanas vem sendo praticadas. Disse que ningum reagiu, inclusive ele, quando de trs mil funcionrios, o Senado passou a abrigar dez mil, boa parte nomeados atravs do nepotismo e de facilidades de toda ordem. Calaram-se todos, tambm, quando os senadores passaram a utilizar dinheiro pblico para viagens por todo o mundo, sem objetivo poltico. Ou quando os contra-cheques se viram aumentados sob os mais variados pretextos, de auxlio-moradia a pagamentos de despesas extraordinrias, na capital federal e nos estados.

Foi longa a catilinria de Pedro Simon, detalhando o enriquecimento de senadores e de funcionrios atravs da aquisio de manses, propriedades diversas e da abertura de polpudas contas no exterior. Falou de negcios especiais e da conivncia dos senadores com uma situao por todos tida como normal.

Para Sarney, s a renncia

Chegamos ao limite, explodiu o senador Simon, centralizando as crticas em seu correligionrio e at grande amigo, do qual foi ministro da Agricultura, Jos Sarney. Exigiu que o presidente do Senado no mais se licenciasse, mas renunciasse em definitivo, como fizeram em oportunidades at menos agudas Antnio Carlos Magalhes, Jader Barbalho e Renan Calheiros.

Ainda que Sarney no estivesse presente para ouvi-lo, alinhou a maioria das acusaes pesadas sobre ele. A apropriao do antigo Convento das Mercs, em So Lus, para transform-lo em mausolu, propriedade privada dele e, aps sua morte, de sua mulher, dos filhos, dos netos e demais descendentes de geraes futuras. Verberou a atitude do ex-presidente da Repblica obtendo do Senado a revogao de lei estadual que devolvia o convento ao poder pblico, fato indito na histria do Brasil. Horrorizou-se pela confisso do prprio Sarney de haver viajado para a Itlia s expensas de um banqueiro inescrupuloso, que arcou com todas as despesas da viagem. Mais ainda, pelo fato de um dia antes de o Banco Santos quebrar e de seu proprietrio ir para a cadeia, haver sido retirado depsito de milhares de reais da conta de Sarney, enquanto os demais correntistas ficaram no prejuzo.

Simon no poupou o trs vezes presidente do Senado por haver permitido a um neto formado em Harvard e na Sorbonne locupletar-se num negcio de quinta categoria, envolvendo emprstimos bancrios para funcionrios do Senado. Lembrou o nmero de parentes e afilhados de Sarney nomeados nos ltimos anos e ainda recentemente para os quadros da casa. Citou a designao, pelo senador maranhense, de Agaciel Maia para a diretoria geral h quatorze anos, quando atos secretos comearam a esconder tramias de toda espcie. E mais a aquisio de manso em rea nobre de Braslia sem declarao Justia Eleitoral.

Dirigindo-se a um Jos Sarney ausente, exigiu dele um ato de grandeza, a renncia, capaz de deixar sua famlia em paz. Getlio Vargas saiu da vida para entrar na Histria, disse, mas Jos Sarney sai da Histria para cair na vida… No tem condies psicolgicas para continuar presidindo o Senado.

Sobrou para o Lula

Em seu discurso, Pedro Simon tambm atingiu o Lula, por estar emprestando todo o respaldo a Jos Sarney. Exortou o presidente da Repblica a ter mais respeito, porque de maneira ridcula estava imitando os generais da ditadura, usando o poder em causa prpria. Acusou o chefe do governo de haver cometido um pecado mortal ao determinar ministra Dilma Rousseff que fosse residncia do presidente do Senado hipotecar-lhe solidariedade.

No vai acontecer nada

O fecho do pronunciamento do senador gacho foi profundamente pessimista. Concluiu que no vai acontecer nada no Senado, que as coisas continuaro do mesmo jeito. Ficar tudo como est, ns estamos no cho. J vi de tudo em minha vida poltica, mas nossa transformao em casa de escndalos, jamais.

Referiu-se constituio do Conselho de tica, verificada pouco antes, acusando o lder do PMDB, Renan Calheiros, de conivente com a situao por haver indicado companheiros para comp-la no pela capacidade de cada um, mas pela fidelidade ao acobertamento de tantos escndalos, responsveis pela reduo do Senado a zero. Senado? Para que Senado?

Mesmo assim, suas ltimas palavras continuaram um apelo dirigido a Sarney: renuncie com grandeza, meu amigo!

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