12 de outubro de 1977. O ministro da Guerra queria ser “presidente”, demitido. O “chefe da Casa Militar”, preterido, não promovido, se demitiu. O “chefe do SNI”, promovido e nomeado. 33 anos depois, diferente, as armas ou as aspas?

Helio Fernandes

Não é a história que se repete como farsa, são as sucessões que reaparecem sem autenticidade. Nas ditaduras assumidas, as escolhas são feitas nos quartéis. Nas democracias presumidas, longe do povo, que tem a obrigação de votar nos que foram referendados em “quartéis” civis.

Não existe nada diferente, mudam os personagens, claro, adorariam permanecer a vida inteira, como alguns que participaram de 30, 45 e 64. Mas tudo é resolvido na cúpula, civil ou militar, mas sempre entre eles.

Este 12 de outubro, que completa 33 anos do outro, reverencia a Padroeira do Brasil, mas devia reverenciar também os que estão sempre no Poder, exercendo-o, desejando-o, mantendo-o, conspirando para não deixá-lo ou então conquistá-lo. O episódio de 1977, importantíssimo, quase desconhecido. E com as naturais modificações, pode se repetir.

A posse de Ernesto Geisel foi tumultuada apesar de determinada pela Alto Comando. Isso, em 1974, sucessão de Médici, que terminava o mandato, assumira surpreendentemente, na primeira vez que Exército, Marinha e Aeronáutica (só oficiais generais votavam) escolhiam quem iria para o trono.

Orlando Geisel, vetado estrondosamente, compreendia que não era o líder de nada, embora se julgasse o dono de tudo. Mas ficou como Ministro da Guerra, encarregado da segurança, e em nome dela, criando o DOI-Codi, no Rio, e a Operação Bandeirantes, em São Paulo. Foi o apogeu da tortura e da vingança, embora já se torturasse desde o 9 de abril de 1964, posse de Castelo. (Que enganou Juscelino e outros, prometendo eleições DIRETAS e  livres para 1965, o que só aconteceria em 1989. Apesar dos esforços de Brizola para que ocorresse em 1985 ou 1986.).

Ernesto Geisel, o irmão, tomou posse, nomeou Ministro da Guerra um general digamos civil, não comprometido com a violência, que poderia ocupar o mesmo cargo com alguém vitorioso numa eleição. Mas morreu um ano depois, e Geisel cometeu o equívoco da sua vida, criou uma situação de fato, que levou tempos para deslindar. Devia ter nomeado imediatamente um Ministro efetivo de sua total confiança.

Apressado e atarefado, entregou o cargo ao chefe do EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), Silvio Frota, que mal conhecia. Como interino só podia ser ele. Depois, para colocar o efetivo, como preteri-lo? Não tinha a menor condição, Silvio Frota era militarmente forte, e queria mais repressão e tortura. E, lógico, o Poder total para ele e seu grupo dominador.

Ernesto Geisel custou a perceber que era praticamente prisioneiro do seu Ministro. Inacreditavelmente retomou o poder total, por causa de um gesto arbitrário e violento de um general ligadíssimo a Frota, mas também por ter resolvido enfrentar tudo de peito aberto.

Logo em 1975, assassinaram em São Paulo, Wladimir Herzog e o operário Fiel Filho. O comandante do II Exército, era o general (obrigatoriamente 4 estrelas) Ednardo D’Avila Mello, ligadíssimo ao Ministro Frota. Geisel, que já advertira duramente (pelo telefone) o general, resolveu agir.

Mandou preparar um avião, e sozinho foi para São Paulo. Antes se comunicou com o general Dilermando Gomes Monteiro, disse simplesmente: “Fique de sobreaviso, o senhor será comandante do II Exército”.

Recusou a companhia de generais destacados do seu governo, foi direto para o II Exército, chamou o comandante, disse como quem dá bom dia ou boa noite: “O senhor está DEMITIDO, vou ficar esperando seu substituto para empossá-lo. Eu já havia dito ao senhor que não admitiria mais violências”.

Assim que pôde, D’Avila Mello falou com Silvio Frota, perguntou: “O que fazemos?” E o Ministro: “Agora temos que esperar”. E esperaram, mas a partir daí, Frota, sem poder pedir demissão, e também sem ser demitido, (requinte de Geisel) conspirava e aglutinava forças. Frota era reacionaríssimo, mas importante dentro do Exército. E tinha ódio de Geisel, antes do episódio do assassinato de Herzog. E que só piorou a partir daí.

Considerando. dentro da sua capacidade de raciocínio, de análise e convicção, que o país caminhava para o domínio do COMUNISMO, (era essa sua percepção) Frota cercou-se dos que pensavam (?) igual a ele, que eram muitos. E continuou a conspiração, cujo final seria i-n-f-a-n-t-i-l-m-e-n-t-e determinado por ele, para esse 12 de outubro de 1977.

Chamou a Brasília os 4 comandantes de Exército, para esse dia, à mesma hora, esperava-os no Forte Apache (sede do Ministério da Guerra). Mas Geisel, que monitorava o Ministro pela vigilância ferrenha, soube de tudo. E enquanto Frota mandava coronéis para receber generais de 4 estrelas, Geisel enviava generais da mesma patente, com ordens de levá-los diretamente ao Planalto.

Ao mesmo tempo, seguro e garantido de que sairia vitorioso e retomaria todos os Poderes, se comunicou com o 4 estrelas Hugo Bethlem, ordenou simplesmente: “Venha para o Planalto, tenho missão importante para você”.

Saiu tudo como Geisel estabelecera. Os comandantes dos Exércitos chegaram, recebidos por patentes iguais e com as duas ordens, de irem para o Ministério da Guerra ou para o Palácio Presidencial, nem hesitaram.

No Planalto, Geisel apresentou Hugo Bethlem, (todos eram amigos) assim: “Este é o novo ministro do Exército”. Tripudiando, na frente de todos, telefonou para Silvio Frota, comunicou: “Nomeei o Hugo Bethlem Ministro da Guerra, se você quiser passar o cargo, esperamos”. Não quis.

Sóbrio, discreto, reservado, tendo recuperado todo o Poder, começou a movimentar as pedras da sucessão, o que embora pareça surpreendente, tem muito a ver com a sucessão de agora, de HOJE, 33 anos depois. Em 1977 e neste 2010, o povo está longe, obrigado mas desinteressado.

Geisel comandou tudo, sabia que a ditadura estava no fim, queria ser respeitado pelo país. Por isso, teve extremo cuidado na escolha. Afastado Frota, que continuava na ativa, mas inteiramente isolado ou “ilhado”, sobravam dois nomes, ambos generais de Divisão (3 estrelas). Contrariando a Bíblia da “revolução”, que determinava: “Presidentes (com aspas, lógico) só generais de 4 estrelas, da ATIVA“.

Mas como Geisel adorava desafios, indicou João Figueiredo como seu sucessor, mesmo sem promovê-lo. Havia uma vaga de general de 4 estrelas, o número 1 era Hugo Abreu, seu Chefe da Casa Militar, Geisel preteriu-o, promoveu o Chefe do SNI, que já escolhera como “presidente”. Pelas normas do Exército, o general “caroneado” (termo militar) tinha que passar para a reserva, o que aconteceu com Hugo Abreu, que morreria pouco depois.

Geisel e Figueiredo ficariam próximos, mas não íntimos, até o monstruoso atentado do Riocentro. Geisel queria a punição dos culpados, os participantes e os mandantes, Figueiredo nao tinha Poder, força ou prestígio para nada. Mas sabia que o atentado seria ou pretendia a RESSURREIÇÃO DA DITADURA.

***

PS – Se ainda faltasse algum dado para a compreensão de que nem Serra nem Dilma têm condições, prestígio, competência ou convicção para exercer a Presidência, basta lembrar o debate de anteontem, decrépito, desacreditado, os dois decepcionando o cidadão.

PS2 – Continuou tudo igual ao primeiro turno, em matéria de projeto, compromisso, determinação em relação ao que fazer. Foi baixaria ainda mais execrável. Dilma colocou o aborto como TEMA principal dos “debates”, como se isso fosse PLANEJAMENTO DE GOVERNO.

PS3 – E Serra, com toda a sua incongruência, (essa palavra define ou esconde o ex-governador) trouxe para as manchetes, como revelei, o combate a Lula, mas usando FHC como paralama para as PRIVATIZAÇÕES. que foi o segundo assunto desse encontro na Band.

PS4 – Ainda faltam 4 debates. Mas acho que a CNBB deve reivindicar a sede de um desses debates.

PS5 – Como os candidatos são altamente religiosos, que esse encontro seja numa igreja. De preferência na Candelária, onde se reuniram mais de 1 milhão de pessoas pelas DIRETAS, JÁ. Agora poderia se chamar de INDIRETAS, NUNCA.

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