Um pato é um pato

Carlos Chagas

O que é, o que é? Tem bico de pato, pé de pato, pena de pato, anda e nada  feito pato?  Pela lógica, é um pato.

Com todo o respeito, mas um governo com Guido  Mantega, Antônio Palocci, Paulo Bernardo, Gilberto Carvalho, Maria Fernanda  Coelho, Aldemir Bendini e Henrique Meirelles não será um governo Lula? Pode ser chamado de governo Dilma, mas  será a mesma coisa.

Nenhuma restrição pode ser feita a esses e outros nomes que serviram e servem com lealdade ao presidente Lula. Ou a própria presidente eleita não integrou esse time, como coordenadora?

Antes mesmo da divulgação do ministério as engrenagens vão se compondo para a conclusão de que, por decisão própria, Dilma Rousseff quer uma administração igual à de seu antecessor. Claro que escolherá ministros que  não participaram da atual administração, assim como deverá imprimir sua marca e suas características ao conjunto. Mas assim como um pato é um pato, o governo Dilma é o governo Lula.

CONDIÇÕES PARA SER DE ESQUERDA

Muito tempo atrás, precisamente há 28 anos, tive oportunidade de participar de uma entrevista na televisão reunindo os candidatos ao governo de São Paulo, nas primeiras eleições diretas lá realizadas, ainda no regime militar. Coube-me questionar o Lula, então de barba preta  e mal aparada, disposto a enfrentar Franco Montoro, afinal eleito, Reinaldo de Barros e outros. Indaguei sobre sua ideologia: o que era, afinal? Socialista, comunista, direitista, centrista, esquerdista ou o quê?

A resposta veio simples e arrancou aplausos da pequena platéia comprimida no estúdio: “eu sou torneiro-mecânico…”

Ainda recentemente, com o Lula já no segundo mandato na presidência da República, no palácio da Alvorada, diante das câmeras, repeti a pergunta. Meditando e não mais  de bate-pronto, ele definiu-se como “de esquerda, voltado para o socialismo”.

Os jornais publicaram esta semana comentário do presidente anunciando que depois de deixar o poder irá dedicar-se a aglutinar as esquerdas. Claro que não aquelas  anacrônicas de dois séculos atrás.  Nada de socializar os meios de produção nem de decretar a ditadura do proletariado.  Muito menos de extinguir o capitalismo ou de garrotear os veículos de comunicação.

O problema é que para ser de esquerda, voltado para o socialismo, nos tempos modernos, determinados requisitos básicos continuam prevalecendo. Estará o já então ex-presidente Lula disposto a sustentar, por exemplo:

O fim da especulação financeira que faz fluir para os bancos lucros cada vez mais indecentes, e para o  investidor estrangeiro os juros mais altos do planeta, sem deixar um centavo de imposto entre nós, quando vai embora?

A participação dos empregados no lucro das empresas e a obrigatoriedade da co-gestão?

O imposto sobre grandes fortunas?

O reajuste do salário mínimo conforme dispositivo constitucional, capaz de garantir dignidade  ao trabalhador para alimentação, habitação, vestuário, saúde, educação e até lazer?

A reestatização, ou seja, o  controle pelo poder público de setores  intrinsecamente ligados à soberania nacional, como a exploração do subsolo e as telecomunicações?

A volta a direitos trabalhistas básicos suprimidos pelo neoliberalismo, como a estabilidade no emprego e o salário-família?

Tratamento igual, pelo Poder Judiciário, para  criminosos de colarinho branco e  para ladrões de galinha?

Extinção dos privilégios concedidos aos integrantes do Poder Legislativo?

Proibição de grupos econômicos possuírem diferentes e variados meios de comunicação, como televisão, rádio, jornais e revistas,  sem esquecer a parafernália eletrônica?

Outros requisitos seriam necessários para definir um esquerdista e abrir-lhe condições para recuperar a ideologia perdida.  Ousará quem se propõe a tanto?

TRÊS CONSELHOS

Dois conselhos que, se estivesse entre nós, Antônio Carlos Magalhães daria a Dilma Rousseff:  não nomear para o ministério quem não poderá demitir e, se precisar fazer maldades, fazê-las de uma só vez, deixando as bondades para anunciar em pílulas,  devagar e sempre…

O controvertido líder baiano, se pudesse,  também recomendaria a seus companheiros do DEM: “tomem vergonha!”

IMPUNIDADE

Agora que se anuncia a imediata nomeação do décimo-primeiro ministro do Supremo Tribunal Federal ainda pelo presidente Lula, seria bom que os meretíssimos se preocupassem com o julgamento dos 40 réus do mensalão. Em mãos do ministro Joaquim Barbosa, de saúde abalada, os processos arrastam-se sem perspectiva de solução. Logo se dará  a prescrição. Assim como o Executivo ficou devendo ações mais diretas e cirúrgicas quando da eclosão do escândalo do  mensalão,  estaria o Judiciário na mesma rota?

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