Exigência de Meirelles, politicamente, superpõe BC a Dilma

Pedro do Coutto

Miriam Leitão, em sua tradicional coluna de O Globo, João Domingos e Eugênia Lopes, O Estado de São Paulo, todos nas edições de sexta-feira, revelaram que Dilma Rousseff, depois de formalizar o convite a Guido Mantega para a Fazenda, estaria pretendendo convidar Henrique Meirelles a permanecer no Banco Central. Entretanto, os três jornalistas destacaram que Meirelles condicionou a aceitação a que seja mantida a autonomia total do BACEN, como ocorreu ao longo dos dois mandatos de Lula.

A meu ver, Meirelles, tão hábil e competente no campo financeiro, cometeu um erro no plano político. Tornar pública uma condicionante desse tipo representa, na realidade, superpor o Banco Central ao governo, sobrepor sua figura à imagem da presidente da República. Só aceito com autonomia total não é uma afirmação que se faça a quem vai assumir o Palácio do Planalto. Foi a de se incluir na categoria dos indispensáveis, esquecendo que a vida está cheia de insubstituíveis. Se Rousseff aceitar a equação colocada, terá abalado um dos pilares de seu poder. Porque, de fato, quem não pode ser substituído, em face do mandato recebido das urnas é a presidente. Não o dirigente do BACEN.

A menos que a história não seja bem essa. Seria outra: sentindo queo convite público a Mantega, em primeiro lugar, representaria um desconvite indireto a ele. Meireles antecipou-se aos fatos e abriu espaço para sua saída. Daria a impressão à opinião pública, mas principalmente ao mundo financeiro, (que é o seu universo) que não continuou porque não desejou. De qualquer forma, as matérias de Miriam Leitão, de João Domingos e Eugênia Lopes não deixam Meireles bem na fotografia. Ele poderia deixar o que afirmou e pensar para depois que Dilma encerrasse o processo das nomeações.

Cometeu um erro. Mas, afinal, quem não erra nesta vida? Ninguém. Esta regra inclui os banqueiros e superexecutivos que atuam ao som das moedas nacionais e internacionais, no palco do ballet das oscilações cambiais. Na mesma matéria a respeito de Mantega e Meireles, desta vez em bloco que assinou no contexto de O Estado de São Paulo, João Domingos cometeu um engano. Ao falar sobre qual será o cargo de Palocci, admitiu que poderia ocupar a Secretaria Geral da Presidência da República. Não dá pé. Palocci, eleito deputado federal em outubro, não pode assumir tal posto. Não possui status ministerial. Caso fosse nomeado, perderia o mandato. Pode ser, isso sim, chefe da Casa Civil, pois este cargo tem nível de ministro de estado. São pontos desfocados que sucedem no dia a dia. São coisas do futebol.

Voltando ao processo de escolha de seus auxiliares diretos, Rousseff parece fixar sua diretriz principal no estruturalismo e não no monetarismo. Mantega representa a primeira ideia de progresso, Meirelles a segunda. Chocam-se, colisão inevitável. O estruturalismo que marcou os anos dourados de JK, coloca a produção econômica como primeira prioridade, o combate à inflação na segunda escala. O monetarismo propõe o caminho inverso. Questões de tempo no fundo superiores a um mandato de quatro anos. Portanto antagônicas e inconciliáveis. Ou uma tese ou outra. As duas, em conjunto, é que não pode ser.

Pelo início da carruagem, parece que o estruturalismo está levando a melhor. Tanto assim que o presidente Lula está disposto a enviar projeto ao Congresso alterando a contabilidade do chamado superávit primário. O que é superávit primário? É o confronto entre as receitas e despesas menos o encargo com os juros da dívida interna. Algo apenas nominal, pois enquanto o superávit primário (3% do PIB) atinge 113 bilhões de reais, os juros de 10,75% ao ano sobre a dívida de 2,3 trilhões acarretam um desembolso de 240 bilhões.
Onde está o superávit?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *