O Globo, a Ambev e o marco regulatório

Pedro do Coutto

Na edição de 22 de novembro, O Estado de São Paulo publicou editorial sobre a questão do marco regulatório para a televisão e o rádio, a partir de artigo publicado em suas páginas, pouco, do professor Eugênio Bucci, ex-diretor da Radiobrás, responsável pela administração de uma rede de transmissoras estaduais, entre elas a histórica Rádio Nacional. O editorial faz uma distinção indispensável entre marco regulatório para os canais concedidos – rádio e TV – e o estabelecimento de inconstitucionalidade, e por isso impossível, censura aos jornais e revistas. Está muito bem descrito o tema e muito bem escrito, aliás como é tradição do jornal, o texto. Entretanto teor e tema dão margem a algumas considerações simultâneas convergindo para um teorema imprescindível.

O assunto possui vários ângulos de abordagem e aspectos essenciais. O marco regulatório o que seria? O exemplo de alguns países, como é o caso da Itália, no qual os proprietários de um canal não podem explorar outro? E também, outro caso, os donos de jornal não podem possuir canais de televisão? A matéria colocada em debate (não o editorial) parece, no fundo, conter alguma seta voltada contra a família Roberto Marinho, proprietária do maior canal de TV, um dos grandes jornais do país, emissoras radiofônicas de alta audiência. Mas não é  só ela. A família Julio Mesquita, grande vulto da história paulista, é dona de O Estado de São Paulo e da Rádio Eldorado. A família Otávio Frias edita a Folha de São Paulo, junto com a família Marinho administra o Valor, e, me parece, possui parte da titularidade do portal UOL, o mais acessado do país. Cito UOL porque, na proposição esboçada como regulamentadora, está incluída a mídia
eletrônica que atravessa o espaço moderno da Internet

Há ainda o exemplo do Condomínio dos Diários Associados que detém a posse do Correio Braziliense, do Estado de Minas, o Diário de Pernambuco, do Jornal do Comércio do RJ, além da Rádio Tupi que disputa com a Rádio Globo, cabeça a cabeça, a liderança da audiência. Lembrei em tempo o caso da família João Saad, do Grupo Band, e do Bispo Macedo que controla a TV Record e a Rádio Record de São Paulo.

Em alguns momentos entram em cena para acusar a rede Globo de monopólio na área de televisão. Absurdo. Esta investida inclusive, me faz pensar na intenção oculta que impulsiona o projeto do Ministério da Comunicação. Franklin Martins teria se contrariado com sua saída da Vênus Platinada no episódio iniciado com a polêmica pública travada entre ele e o colunista da Veja, Diogo Maynard. Não vejo muito sentido. Afinal, foi seu afastamento da Globo News que terminou levando-o a integrar o ministério do presidente Lula. Mas esta é outra questão.

O essencial é a acusação de um quase monopólio da Globo. Não é fato. A liderança de praticamente 60% que ela detém no mercado resulta de sua qualidade, sobretudo no que se refere à imagem. Primorosa. Talvez a melhor do mundo. Parece Hollywood. As outras emissoras empenham-se para igualá-la e a Record tem conseguido avanços. As demais ficam distantes. Só há uma maneira de quebrar a hegemonia da empresa dos herdeiros de Roberto Marinho: adquirir qualidade, ritmo e montar um elenco de novelas que possa se aproximar do jardim Botânico.

Mas deter 60% do mercado não significa monopólio. A Ambev detém 66% do setor de cervejas. A Souza Cruz, multinacional, que no passado teve como um de seus diretores o jornalista Herbert Moses, presidente da ABI, absorve dois terços do segmento de cigarros. A Perdigão, com a compra da Sadia, mais de dois terços dos embutidos e enlatados. Por que só a Globo é considerada monopólio. Não faz sentido? Os exemplos estão aí. Não vamos desfocá-los.

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