Itamarati induz Lula a erro no caso Palestina-Israel

Pedro do Coutto

Há iniciativas que o presidente Lula assume, repentinamente, induzido pelo chanceler Celso Amorim, ou pelo assessor especial Marco Aurélio Garcia, paras as quais não se encontra explicação lógica nem aparente, tampouco coerente. Seja sob o ângulo político, seja pelo prisma econômico, seja até sob a ótica geográfica internacional. Foi exatamente o caso do reconhecimento, pelo governo brasileiro, do estado da Autoridade Nacional Palestina com base nas fronteiras anteriores a 67, mês de junho, quando da guerra dos seis dias com Israel. O governo de Brasília assumiu tal posicionamento atendendo pedido do presidente da ANP, Mahomoud Abas, enviado a 24 de novembro. No dia 1 de dezembro, sete dias depois, assumiu logo a tese e o tema. Equivocou-se.

Não se pode reconhecer áreas ocupadas até hoje por Israel. Trata-se, o que seria legítimo, de apoiar moção dirigida à ONU pleiteando aquela demarcação que desapareceu há 43 anos em meio a poeira do deserto e das batalhas. Inclusive o chanceler Celso Amorim deveria ter explicado ao presidente da República que a ocupação não envolveu terras  palestinas. Envolveu quase 30% do território do Egito, a partir da Faixa de Gaza, colinas de Golan, espaço da Síria e da administração de Jerusalém que, a partir daquele confronto, caiu sob domínio total de Israel.

A cidade santa era dividida em duas partes: a ocidental (israelense), a oriental palestina e jordaniana. Com a tomada de Jerusalém que, na crucificação de Cristo os romanos tentaram, mas não conseguiram, o governo de Israel assegurou apenas a passagem para o Muro das Lamentações. Porém dominou totalmente a cidade de mais de três mil anos de existência. Tanto assim que, também a partir de 67, Telavive deixou de ser a capital israelense, substituída por Jerusalém.

Aceitar, sem discussão a análise, o reconhecimento da totalidade palestina no Oriente Médio significa instalar embaixadas ou consulados nas cidades hoje sob o domínio dos judeus. Situação difícil. Sobretudo em face do precedente da questão. Em 67, mês de junho, o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser foi à televisão no Cairo e anunciou a invasão de Israel, prometendo recompensa em dobro no Céu aos que tombassem na batalha que considerou santa. O Egito estava em aliança com a ANP, naquele tempo Organização Nacional Palestina, com a Síria e a Jordânia do rei Hussein, pai. Nasser dirigiu-se especialmente aos jornalistas dizendo: ”Saiam de Telaviv, pois amanhã estaremos aí para cortar a cabeça dos judeus e será difícil saber quem é jornalista e quem não é.”

Ao ouvir o pronunciamento ameaçador, a primeira ministra Golda Meir ordenou imediatamente o ataque. Antecipou-se a Nasser e, com isso, Israel arrasou a aviação egípcia no solo. Em seguida, ocupou a faixa de Gaza, as Colinas de Golan, a Cisjordânia, toda Jerusalém. O general Moshe Dayan comandou a ofensiva. Golda Meir chancelou a ocupação militar que não avançou mais por ordem de Washington, governo Lyndon Johnson, auge da Guerra do Vietnam.

Abdel Nasser morreu em 70 (tinha menos de 60 anos) e em 1973 Anwar Sadat, seu sucessor, desencadeou a Guerra do Yom Kipur, retomando parte do Egito ocupado. A ONU vem tentando o cessar-fogo na Cisjordânia, porém não colocou em votação até hoje qualquer resolução restabelecendo a geografia de antes de 67. Estes os fatos. Com base neles, o Itamarati deveria ter sugerido a Lula formular um projeto de resolução para mudar o quadro atual. Nunca partir individualmente para reconhecer um Estado que não
existe.

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