E agora, José Dirceu? O tempo passou na janela.

Pedro do Coutto

Reúno trechos de dois belos poemas, um de Carlos Drummond de Andrade, outro de Chico Buarque, para tentar a síntese de um desastre chamado José Dirceu, demitido por Lula da chefia da Casa Civil e cassado pela Câmara, tudo isso no ano de 2005, no trágico episódio do mensalão.

Dirceu, que era o primeiro ministro do governo, o capitão do time como o chamava o próprio presidente da República, jogou tudo fora num projeto político dos mais rasteiros, incompatível até com sua capacidade intelectual. Capacidade inclusive destacada vê-se agora através do WikiLeaks, pelo então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, John Danilovich. Mas o diplomata, como acentua Tatiana Farah, O Globo de segunda-feira, acrescentou outros adjetivos a sua personalidade: ”camaleão cruel e brilhante”.

Como já escrevi algumas vezes, Dirceu, um deputado eleito por São Paulo com algo em torno de 800 mil votos, jogou tudo fora. O tempo passou na janela e só ele não viu. Seria hoje o presidente da República no lugar de Dilma Rousseff. Citei Chico Buarque. Agora focalizo Drummond: a festa acabou, a noite esfriou, o povo sumiu; e agora, José?

Não atino bem porque Dirceu entrou em contato com o embaixador norteamericano. Este registrou informações, opiniões, os seus escapismos, e mandou até um assessor visitá-lo. Por qual motivo, afinal? O que teria o governo de Washington, era Bush, com o mensalão e os falsos empréstimos em seu rastro? Aparentemente nada. Não se justificam assim, pelo menos logicamente, as revelações e as confissões. Dirceu – está no texto – eximiu-se de culpa, mas culpou o PT e o próprio Lula, que evidentemente não ficou satisfeito com a versão 2110 de um desfecho de 2005.

Muito menos com a parte em que o ex-ministro prevê que cairia em depressão e poderia até não disputar a reeleição. E se disputar, afirmou a Danilovich, perderá. Neste ponto, Dirceu caiu na tentação de prever o futuro. Esqueceu que até hoje ninguém acertou. Nem Malthus, que profetizou a fome no mundo, nem Marx, que previu a revolução do proletariado, tampouco Einstein, que considerou a hipótese de uma hecatombe atômica, acertaram nada.  Deu tudo ao contrário.

Mais um profeta que falhou: Rudolf Diesel, o descobridor do petróleo como fonte de energia, considerava que no ano de 2000 seria o fim do ciclo do ouro negro. Esqueceu as perfurações submarinas. Muitos outros pensadores poderiam ser colocados ao lado desses gênios. Mas para quê? Os exemplos já são suficientemente fortes e até emblemáticos.

Dirceu esqueceu o day after. O dia seguinte muda tudo. É sempre assim. Os fatos, ninguém pode com eles, sucedem-se velozmente. Juscelino esperava voltar eleito, ao Palácio do Planalto em 65. Não contou com a explosão da crise política brasileira em 64. Carlos Lacerda foi, na realidade (muito mais ele do que Magalhães Pinto), o líder civil da derrubada militar de João Goulart. Quatro anos depois teria os direitos políticos cassados e seria remetido à prisão no quartel da Polícia Militar da Rua Salvador de Sá. Foi inclusive preso junto com Hélio Fernandes, que escreveu recentemente sobre este acontecimento.

Enfim, o que desejo dizer é que a dinâmica da vida é muito forte e praticamente imprevisível. As situações mudam da noite para o dia ou do dia para a noite. Aliás, como no belo título de Hélio Silva, a história não espera o amanhecer. Este volume de sua vasta obra refere-se à proclamação da República.

José Dirceu, o homem que não foi capaz de analisar a sua própria posição, entra agora na história do país pela porta do WikiLeaks. O tempo passou na janela e, ao que parece, só ele não viu.

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