Oposição, sem rumo, está à espera de um tema, de uma bandeira

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo, edição de 3 de Janeiro, publicou reportagem da Sucursal de Brasília que expõe um mapa dos governos estaduais, divididos por legenda partidária, acentuando que a oposição (PSDB-DEM-PPS) passou a adotar um tom diplomático em relação à presidente Dilma Roussef. É natural.

Em primeiro lugar, não é tarefa dos governadores, entre os quais Geraldo Alckmim, Antonio Anastasia e Beto Richa, fazer oposição ao governo federal. São integrantes do poder executivo todos eles, e, como tal dependem diretamente de Brasília para tocarem seus projetos. O pacto federativo, como é chamado, não pode pressupor fracionamento, muito menos no estilo daquele que, no início da década de 60, Carlos Lacerda desencadeou contra João Goulart, tornando revolto e tempestuoso o mar constitucional. O desfecho todos sabemos.

Jango, atacado ao mesmo tempo por Lacerda e Leonel Brizola, não soube se esquivar. Preferiu, sem perceber o foco central da  questão, o abismo sindical exponenciado pela quebra da disciplina e hierarquia militar. Não resistiu. Afundou. Mas isso, hoje, pertence ao passado, à memória do país.

O fato é que a principal figura do PSDB, senador Aécio Neves, não tem como estilo e impulso combater na oposição. Aécio deixa indiretamente tal tarefa inviável para José Serra, isolado no universo tucano por duas fracassadas tentativas de vôo rumo ao Planalto. Mas ainda que os quadros do PSDB, DEM e PPS desejassem fazer oposição, nesta altura dos acontecimentos não encontrariam rumo e tema, muito menos a perspectiva de empunhar uma bandeira definida.

Nas urnas de outubro, os oposicionistas perderam suas figuras mais importantes e este é um ângulo fundamental. Mas não é o único. Qual seria o  outro prisma? A questão salarial? O nível de emprego? Como abordá-los?

As bases da oposição a Lula, ao PT, a Dilma, seja como o que for, são conservadoras. O mapa político do país deixou esta realidade bastante nítida. Os conservadores, historicamente, não são correntes de pensamento que se mobilizam por salários. Ao contrário. Historicamente rejeitam até o salário mínimo. Parece que são personagens de outrora que ainda não assimilaram nem a revolução industrial dos séculos 17 e 18, muito menos a CLT de Vargas que, no Brasil, fez a passagem da semiescravidão para o Direito do Trabalho.

Tanto assim que conservadores, como o senador Francisco Dornelles, entre outros, defendem no século 21 o que chamam de flexibilização das leis trabalhistas. Que flexibilização será esta? Só pode ser a volta para reduzir conquistas alcançadas. Fosse para ampliar direitos, a iniciativa de alterar a legislação partiria dos trabalhistas, dos socialistas, dos petistas e até dos que se afirmam  comunistas.

Aliás, neste ponto vale esclarecer que não há comunismo no Brasil, tampouco portanto partido comunista algum. Pois para ser comunista, são indispensáveis três posicionamentos fundamentais: ser contra a propriedade privada, ser a favor da estatização dos meios fundamentais de produção, caso do petróleo, siderurgia, mineração e energia elétrica, ser favorável à igualdade de salários entre todos. São dogmas de uma espécie de religião política.

Assim, se alguém, como a deputada Jandira Feghali, se diz comunista, mas não adota estas teses, está cometendo um equivoco: no fundo não é comunista coisa alguma. Pode ser até personagem da antiga piada: deseja o comunismo para os outros e o capitalismo para si.

Humor à parte, voltando ao quadro em branco da oposição a Dilma, os futuros personagens estão como na peça de Pirandello, tradução de Millor Fernandes, à procura de um autor. À procura de um tema, que ainda não apareceu.

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