IBGE (habilmente) concentrou inflação nos supermercados

Pedro do Coutto

O IBGE  divulgou na sexta-feira o índice oficial da inflação que encontrou para 2010, na escala de 5,9%, e, com habilidade, conseguiu deslocar o ponto do impacto de preços para os supermercados. Estes, a meu ver, deveriam reclamar da cortina de fumaça lançada em torno dos alimentos. Como, claro, são o item de maior consumo, ficou fácil a tarefa. Mas é preciso ver o panorama geral com mais nitidez. Tanto pelo que o Instituto divulgou quanto pelo que deixou de tocar. Pelo menos com a mesma ênfase.

Não quero com isso defender os supermercados, mas apenas chamar atenção dos leitores para a complexidade de analisar números e estatísticas.
A matéria foi excelentemente divulgada pelo O Globo, reportagem de Henrique Batista e Marta Becha. Pela Folha de São Paulo, por Fernando Canzian. Pelo estado de São Paulo, Alessandra Saraiva e Flávio Leonel. Os textos otimamente completados por ilustrações gráficas.

No Globo foi feita até uma comparação, em quadro adicional, entre a inflação no governo FHC (100%) e a registrada no governo Lula (56%). Pois é. Aí uma armadilha. Pode-se pensar que o índice inflacionário de 95 a 2010 tenha sido de 156%. Nada disso. Foi de 212%. Uma taxa sobre outra. Quer dizer que um real de Janeiro de 95 representa  hoje 3,12 reais.

Os autores das reportagens não analisaram todos os aspectos do quadro numérico liberado pelo IBGE. Tarefa que deveria caber aos editores. Mas esta é outra questão. O fato concreto é que não aparece entre as parcelas que compõem o custo de vida o peso algébrico verdadeiro dos aluguéis que subiram 11,3%, em função do IGPM da Fundação Getúlio Vargas. Envolvem 15% da população brasileira. Das 60 milhões de residências existentes no país, 9 milhões são alugadas.

Atribuir como está na FSP, um aumento de somente 3,3% aos remédios é um absurdo total. O IBGE sabe que foi muito mais. É só fazer uma pesquisa de mercado. Fácil. Comparar as listas de preço de dezembro de 2009 com as de dezembro de 2010. Um escapismo. Outro, o de colocar em confronto o preço dos aparelhos de televisão apontando um recuo de 22%. As quedas de valor dos microondas, computadores. Não são itens de consumo permanente. Colocá-los na média tem o objetivo de diluir a velocidade da inflação, amortecendo-a com este artifício.

Dizer que as consultas médicas subiram 10,7%. Não vale apenas nem comentar. Incluir os motéis é procurar desviar a atenção do público conduzindo-o para o episódio em que esteve envolvido o ministro do Turismo, Pedro Novais.

Afirmar que o preço dos restaurantes subiu 10% é agredir a comprovação geral. O aumento médio está em torno, isso sim, de 35%. É simples verificar na hora de pagar a despesa. Saúde e cuidados pessoais, creio que o item se referia aos artigos de farmácia: acréscimo de 5% é uma brincadeira.

Qualquer um pode comprovar o irrealismo. Transportes: 2,4. Basta ver os aumentos de tarifas de ônibus, trens e metro. Habitação: 5 pontos? Como pode ser se os aluguéis e as prestações de casa própria aumentaram 11,3 pontos?

Uma ressalva quanto as prestações de casa própria. Estas, pelo IBGE, não são consideradas despesas e sim investimentos. Vá lá que seja.
Aceita esta ressalva setorial, na peça geral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística desceu sobre os números, para citar Eça de Queiroz, o manto diáfano da fantasia. Não é difícil ocultar a verdade. Basta incluir o preço de um BMW no cálculo do custo de vida. Como ele não aumentou, a média geral diminuiu. Cuidado com os números e com as estatísticas.

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