Preços no atacado sobem 13,8 e aceleram a inflação

Pedro do Coutto

Reportagem de Fernando Dantas, O Estado de São Paulo de quarta-feira, revela que, nos meios econômicos e financeiros, com o índice inflacionário de 0,83% registrado pelo IBGE de Janeiro, aumenta o temor de que o governo não consiga, este ano, cumprir a meta traçada de 4,5% de hoje a dezembro. Claro que não. Pois não só o resultado do mês passado significa que a inflação está ganhando velocidade, como também o índice  de preços no atacado, a IPA da Fundação Getúlio Vargas, não só confirma, mas acentua a tendência para cima.

De janeiro de 2010 a janeiro de 2011, o IPA assinala um avanço da ordem de 13,8%. Os piques do IPA geralmente são trimestrais, porém uma coisa é certa: os valores desse índice têm que ser normalmente repassados ao varejo. E do varejo são transferidos para nós, consumidores. Um processo em cadeia inevitável. Questão de tempo. Tanto assim que o IBGE aponta uma taxa inflacionária de praticamente 6% ao  longo dos últimos doze meses, enquanto no mesmo espaço de tempo o IPA avançou 13,8 pontos. Mais que o dobro da inflação.

Fernando Dantas em sua matéria ouviu os economistas Gino Olivares, da Brokfield Gestão de Ativo, e Felipe Tâmega, do Grupo Modal. Não acreditam, acentuaram colocando algodões entre os cristais, que a meta de 4,5% seja alcançada. E sim superada. Olivares, particularmente, destacou que pelo menos até o momento, o Banco Central não sinalizou no horizonte qualquer medida para conter o ritmo de subida. Talvez inclusive não seja possível, já que o PIB cresceu mais de 7% no ano passado e só em janeiro deste ano, enquanto o custo de vida elevou-se em 0,83%, o IPA aumentou 0,96. Os sintomas e os sinais não são favoráveis.

A política salarial que consagrou popularmente o governo Lula em relação ao período de FHC está mantida e o crédito segue com alta elasticidade. Exemplo definitivo a utilização em larga escala dos cartões de crédito até em pequenas compras nos supermercados., Os prazos de financiamento continuam longos e as montadoras de automóveis, por exemplo, mesmo cobrando os juros mais reduzidos do mercado, (0,9% ao mês) obtêm mais lucros com os créditos que concedem do que com a própria produção industrial que finalizaram.

Prova concreta do fenômeno é fato de os automóveis populares zero quilômetro serem vendidos por preços abaixo dos usados. Aliás vale apena reconhecer que o primeiro analista a erceber tal processo foi Stephan Kanitz, em artigo alguns anos atrás na revista Veja, focalizando a estratégia colocada em prática pela Fiat de forma pioneira. Mas esta é outra questão.

Em relação ao processo inflacionário, fica nítido que ele não cederá,muito menos retrocederá. Até porque a visão econômica da presidente Dilma Roussef é estruturalista, primeiro o desenvolvimento, depois o combate à inflação. Os monetaristas vêm ao contrário. Primeiro conter o surto inflacionário, depois o progresso econômico. Difícil este caminho.

No tempo da ditadura militar, governo Médici, o então ministro Delfim Neto afirmou cinicamente que era preciso primeiro fazer o bolo crescer. Depois dividí-lo. Que farsa. Quem cortaria e dividiria as fatias? Se isso fosse possível, qualquer um, menos o próprio Delfim Neto. Por falar em Delfim, semana passada, em sua coluna na Folha de São Paulo, chegou a dizer textualmente que o Bolsa Família é mais importante do que a discussão em torno do salário mínimo. Incrível. A inflação não será contida, todos sabem. E o salário mínimo é incomparavelmente mais essencial que o Bolsa Família. Delfim é um homem do passado. A inflação não.

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