1980 revive neste 2010, 30 anos se passaram, nenhuma novidade, programa, compromisso

Em plena campanha eleitoral que ainda não começou, todos são candidatos de convenções que não existiram, mas se recusam a definir qualquer coisa. Numa análise isenta e profissional, é realidade irrefutável. Mas pode ser também um acúmulo de contradições, que se revelam e se identificam a cada momento.

Decodificando cada palavra dessas 23 que formam a frase e constatam o momento insensato em que vivem os partidos, vamos encontrando crateras e mais crateras, que não podem ser preenchidas de forma alguma.

Ou lembrando Tancredo Neves, (que faria 100 anos amanhã, comemorados ontem) que me disse, quando fez a saudação pelo fato de eu estar entrando no seu partido, o PP, já como candidato a senador: “Helio, quero você no meu partido, por causa de duas coisas que se completam: é o maior oposicionista que já conheci, e ao mesmo tempo participou de duas campanhas eleitorais, de JK e Jânio. Por isso conhece o Brasil todo, seus grotões e igarapés”.

Esse PP tinha Magalhães Pinto como presidente de honra, Tancredo como presidente de fato, e Thales Ramalho, secretário geral. Mas era voz corrente que o partido não era de oposição, se “equilibrava entre o ser e o não ser”.

Isso foi em 1980, quando acabavam a Arena e o MDB, (pelo qual fui cassado em 1966 como candidato a deputado federal, possivelmente o mais votado) e surgia o pluripartidarismo ainda dominado pelo Planalto-Alvorada da ditadura agonizante.

Então, quando Tancredo, com aquela voz retumbante, afirmou, “agora quero ver quem é que vai dizer que não somos oposição, se temos o jornalista mais oposicionista”, não pude deixar de meditar e refletir: “Então era para isso que insistiram em que entrasse para o partido”.

Eu era amigo de Tancredo, nenhum disparate ou contradição me filiar ao PP. Durante anos, antes e depois da candidatura, pertenci a um partido que tinha um único “governador”, Chagas Freitas. E o seu “homem forte e porta-voz”, Miro Teixeira, que ficava na ante-sala, de avental branco, faturando as decisões que Chagas ainda nem assinara.

Tancredo era candidatíssimo a presidente da República, mas como os que têm o mesmo objetivo hoje, nem podia se declarar. Lógico que as razões eram diferentes. Nos bastidores, o que se dizia e todos entendiam: “Se a eleição for DIRETA, o candidato será o doutor Ulysses. INDIRETA, Tancredo Neves”.

Na Câmara a tremenda batalha das “Diretas ”. Ulysses e Tancredo, com pleno conhecimento da opção que se formara naturalmente, lutaram bravamente pela aprovação da EMENDA Dante de Oliveira. Não esmoreceram um momento, suas posições pessoais só depois se lançariam e se revelariam.

O PT de hoje, já surgia ou surgiria em 1985, sua primeira eleição presidencial e a última sem Luis Inácio da Silva, (muito mais tarde é que incorporaria o LULA, completando o nome que é marca registrada hoje).

A eleição ficou sendo indireta, os candidatos, Tancredo Neves e Paulo Maluf. Em quem votar, qual a dúvida? Essa ficou com o PT, que tinha uma certeza, que se transformou em imposição: “Não podem votar em Tancredo, o PT fechou questão contra ele”. E foram expulsos os parlamentares que votaram em Tancredo.

(Até hoje lembro de Airton Soares, líder dos 8 deputados do PT, expulso por ter votado em Tancredo Neves. Ontem, deputados e senadores do PT, se arrojaram diante da história do presidente que não se empossou, choraram emocionados. Dizem que o passado volta sempre).

2010 revive 1980 e por extensão, 1985. E iremos assim até 3 de abril, quando haverá a primeira parada para reabastecimento, apesar de alguns ficarem para sempre no estacionamento. Faltam 30 dias, nada desesperador.

Por favor, examinem as 23 palavras da frase inicial destas lembranças, constatem o que querem dizer, decidam se pode haver alguma novidade antes do 3 de abril. Esse 3 de abril de agora, se parece em corpo inteiro com o 6 de janeiro de 1963.

***

PS – Estas lembranças trazendo 1980 para bem perto de 2010, representam uma forma de lembrar o grande, ou melhor, o maior articulador político que já conheci. Em 1954, ficou com Vargas até à morte, arriscando a própria carreira política. Tinha então 44 anos, ministro da Justiça.

PS2 – Em 1960, o trauma de uma vida, que o acompanhou por muitos anos. Franco favorito como candidato a governador de Minas, perdeu para Magalhães Pinto, por causa da deserção de José Maria Alckmin. Que apesar de ser do seu PSD, deu a vitória ao candidato da UDN.

PS3 – Em 1961, tendo chegado aos 50 anos, mais uma vez se arriscava apesar de perto do Poder. Os militares não admitiam a posse de Jango. Mas depois da resistência vitoriosa de Brizola, aceitaram o “Parlamentarismo com Tancredo”. Brizola não queria, Jango decidiu: “Aceitamos, doutor Tancredo é nosso amigo, depois resolveremos”.

PS4 – Em 6 de janeiro de 1963, o Parlamentarismo era derrotado, num plebiscito financiado por banqueiros,seguradoras e multinacionais (como se chamavam na época). Jango teria que pagar em duas parcelas. A primeira: demitir Tancredo Neves, nenhum problema. A segunda, inacreditável, que acabou derrubando Jango: nomear Roberto Campos embaixador nos Estados Unidos. Como é que Jango cumpriu essa exigência? Campos lá, Lincoln Gordon aqui.

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