2.500 anos depois, as dúvidas religiosas de Sócrates ainda não foram esclarecidas

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Nesta época do ano, em que se evoca a divina presença de Cristo, é sempre importante lembrar também a atuação dos outros enviados que criaram as principais religiões, com doutrinas muito semelhantes entre si e praticamente os mesmos ensinamentos, como Krishna, Lao Tsé, Moisés, Buda, Confúcio, Zoroastro, Sócrates e Maomé.

Entre esses doutrinadores, os registros mais precisos que existem são de Sócrates, embora ele tenha nascido muito antes de Jesus (400 anos) ou Maomé (1.100 anos). Seu importantíssimo legado nos foi transmitido por dois de seus discípulos em Atenas: Platão e Xenofonte.

Ministrados quatro séculos antes do nascimento de Jesus Cristo, os ensinamentos de Sócrates perduram até hoje e influenciaram não somente o Cristianismo, em suas diferentes segmentações, mas também outras religiões derivadas, notadamente o Espiritismo, que é baseado em pensamentos do mestre ateniense.

O QUE DISSE KARDEC – Em sua monumental obra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Allan Kardec destacou que a doutrina cristã “foi pressentida muitos séculos antes de Jesus e dos essênios, tendo por principais precursores Sócrates e Platão”.

Mas também é certo que, muito antes de Sócrates e Platão, grandes pensadores já haviam concluído haver uma nítida separação entre corpo e alma (espírito). Assim, há religiões que acreditam em reencarnação, outras até pregam a transmigração das almas ou metempsicose, segundo a qual o homem poderia reencarnar também em animais.

Kardec analisou em profundidade os ensinamentos de Sócrates em relação à espiritualidade, mostrando inclusive que o grande pensador tinha dúvidas e por isso se recolhia à modéstia, repetindo o célebre questionamento: “Só sei que nada sei”.

DÚVIDAS SOBRE A MORTE – Aos juízes que o condenaram à morte, em um dos maiores erros judiciais da História, disse Sócrates, segundo o relato de seu discípulo Platão:

“De duas uma: ou a morte é uma destruição absoluta, ou é passagem da alma para outro lugar. Se tudo tem de extinguir-se, a morte será como uma dessas raras noites que passamos sem sonho e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Todavia, se a morte é apenas uma mudança de morada, a passagem para o lugar onde os mortos têm de se reunir, que felicidade a de encontrarmos lá aqueles a quem conhecemos! O meu maior prazer seria examinar de perto os habitantes dessa outra morada e distinguir lá, como aqui, os que são dignos e os que se julgam tais e não o são. Mas é tempo de nos separarmos, eu para morrer, vós para viverdes”.

CORPO E ALMA – Na prisão, onde continuava a ser visitado por seus discípulos, afirmou Sócrates sobre a vida após a morte:

“O corpo conserva bem impressos os vestígios dos cuidados de que foi objeto e dos acidentes que sofreu. Dá-se o mesmo com a alma. Quando despida do corpo, ela guarda, evidentes, os traços do seu caráter, de suas afeições e as marcas que lhe deixaram todos os atos de sua vida. Assim, a maior desgraça que pode acontecer ao homem é ir para o outro mundo com a alma carregado de crimes. Vês, Cálicles, que nem tu, nem Pólux, nem Górgias podereis provar que devamos levar outra vida que nos seja útil quando estejamos do outro lado. De tantas opiniões diversas, a única que permanece inabalável é a de que mais vale receber do que cometer uma injustiça e que, acima de tudo, devemos cuidar, não de parecer, mas de ser homem de bem”.

A MORTE DE SÓCRATES – Naquela época, o homossexualismo era considerado uma prática normal. Por isso, uma das acusações que mais pesaram no julgamento foi de soberba. Um de seus alunos, Alcebíades, testemunhou haver dormido diversas vezes com o mestre e teria sido por ele humilhado, porque Sócratres sempre virava de lado e dormia, segundo o relato de Platão.

Ele conta também que Critão visitou Sócrates na prisão e ofereceu-lhe fuga, dizendo já ter subornado os guardas. Mas o mestre se recusou. O amigo argumentou que a sentença era iníqua, mas Sócrates respondeu que isso não interessava. Disse que o fato concreto é que o Tribunal fora criado por Atenas e suas decisões deviam ser cumpridas, não importava se fossem iníquas.   

AS MESMAS DÚVIDAS – Passados quase 2,5 mil anos, a humanidade continua com as mesmas dúvidas que atormentavam Sócrates e seus discípulos, a respeito da existência de Deus e da possibilidade de reencarnação.

Na verdade, só sabemos que nada sabemos, podemos dizer assim, parafraseando o mais famoso ensinamento do grande mestre ateniense.

Acreditar em Deus pode até ser um erro, mas é um grande alento para bilhões de pessoas que insistem em desejar paz na terra às pessoas de boa vontade.

15 thoughts on “2.500 anos depois, as dúvidas religiosas de Sócrates ainda não foram esclarecidas

    • Saudades de você, amigo Antonio Rocha e de sua cultura enciclopédica. Sinto falta também de seus artigos. Tudo de bom para essa bela família, aqui e em Portugal.
      Abs.

      CN

  1. Precisamos de muita reflexão, introspecção, de voltarmos para nós mesmos, e encontrar o sentido da vida.

    O artigo em tela, de Carlos Newton, nos oferece essa chance.

    Se nada sabemos com relação à existência de vida depois da morte, muito menos temos consciência dos porquês viver e depois desaparecer.
    Deve haver uma razão, caso contrário, o surgimento de um animal racional neste planeta onde a espécie humana é exclusiva no sentido de pensar e agir, terá sido uma das piores experiências que a Natureza concebeu, sendo uma aberração absoluta, indiscutivelmente, termos sido criados por um ente superior para que tivéssemos uma existência ilógica, sem sentido, sem qualquer utilidade para esse contexto universal, que dele fazemos parte, mesmo que de forma a mais ínfima possível.

    Sabe-se lá, se não seria o contrário?

    A morte é essa vida pois, pelo menos, pistas existem para pensarmos assim:
    As premonições;
    O sexto-sentido;
    Pessoas que preveem certos acontecimentos, que depois se tornam realidades;
    As angústias;
    Os anseios;
    Os receios, que não deveriam existir, se a vida é inédita, ou seja, sem ter vindo de vida anterior;
    A empatia;
    A simpatia;
    A antipatia;
    O medo do escuro;
    O amor;
    A rejeição;
    O destruidor;
    O construtor;
    Genocidas;
    Salvadores da espécie;
    O inábil;
    O artista, ator, cantor, compositor, poeta, humorista;
    Talento e vocação;
    A fé inabalável de uns, e a descrença arraigada de outros;
    Os bons, os maus, os que consolam e os que nos entristecem;
    A dor de perdermos entes queridos.

    Não seria, por acaso, a razão pela qual todos nós temos um papel a desempenhar?
    De modo que evoluamos lá, na vida de verdade, poderíamos estar mortos cumprindo o que foi determinado por que não?
    Alguém prova o contrário?
    Ora, da mesma maneira que alguns atestam existir a reencarnação, esta poderia acontecer ao contrário!
    A vida é a morte, e a morte é voltarmos à vida.

    Pensem comigo:
    Se esta é a vida verdadeira, quais seriam as explicações e justificativas para tanto sofrimento?
    Doenças;
    Fome;
    Injustiças;
    Escravidão;
    Assassinatos;
    Ódio;
    Preconceito;
    Desejos de matar ou ver o próximo padecer;
    Inveja;
    Ira;
    Luxúria;
    Intrigas;
    Desconsiderações;
    Desvalorizações;
    Mistura absoluta hoje do profano com o sagrado;
    Acreditar em Deus;
    Não acreditar em Deus;
    O sentimento de punição, que todos nós temos a respeito da sua inevitabilidade.

    Para que pensemos mais ainda, haja vista ser a imaginação permanentemente o nosso “inferno” – o ter ou o ser; ou o ter e não ter; o ser ou não ser -, na mente tudo podemos mas, a embalagem onde essa mente está alojada, o corpo físico, é exatamente o tamanho dos passos que damos para seguir em frente ou retroceder.

    Convenhamos, equilibrar a impossibilidade com a possibilidade e no mesmo invólucro é complicado.
    Então surgem as frustrações;
    Os desesperos;
    As paranoias;
    Os transtornos;
    Os problemas mentais;
    A bipolaridade;
    As múltiplas personalidades;
    Os desvios de comportamento.

    E, mais um detalhe, que nos leva irremediavelmente a questionar mesmo essa existência:
    As síndromes congênitas, a vida gerada e que surge doente, incapaz, que terá de ser acompanhada 24 horas por dia, até o seu fim.
    Por favor, evidentemente que a existência de um incapaz não pode e não deve ser punição pelas vidas anteriores, pois as divindades estariam agindo com vingança!
    O castigo, se existir – estou meramente supondo -, será para seus genitores.
    Se a morte pressupõe castigo ou felicidade, e neste planeta não existe quem não sofra, não padeça, a minha conclusão não é de todo descartável, por favor.

    Bom, a questão é uma só:
    Para termos uma vida melhor, somente se oferecermos ao próximo o nosso melhor.

    Feliz Natal!

  2. Agradeço ao Carlos Newton, nosso moderador e editor desta TI, a publicação do meu texto em formado de artigo.

    O jornalista Carlos Newton é conhecedor profundo de todos os assuntos, seus textos são sempre muito profundos.

    Mais uma vez , feliz Natal a todos.

  3. Muito bom dia a todos que partilham opiniões neste blog. Agradeço muitíssimo a todos vocês. Encontro neste espaço oportunidade para refletir nos mais variados aspectos. Muito amor no sentido maior da palavra.

  4. Prezados Tribunos da Internet,

    Que o Espirito Natalino possa inspirar em Todos o desejo de um Mundo mais justo e solidário.

    E para aqueles que se interessem por reflexões acerca da Filosofia Espirita, da História de Allan Kardec e das Questões das Relações Sociais da Humanidade, a seguir envio o Link de uma Aula Inaugural do ICEB – Instituto Cultural Espírita do Brasil, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 2013, pelo Jurista e Professor de Filosofia do Direito da USP:

    Filosofia Espírita – Alysson Mascaro

    https://www.youtube.com/watch?v=gBi52aggOOc

  5. Na frente de meus olhos, fixadas em alguns recortes, frases para pensar e fazer pensar. E a de Sócrates, aliás tres dele, se destacam a um olhar ao lado de meu computador. Uma delas é “ O segredo da mudança é focar toda a nossa energia não em lutar com o antigo, mas em construir o novo.”
    Um texto para encerrar este ano tão difícil! Tinha de sair da mente, do espírito e do teclado do amigo e irmão CN. Continue sendo uma luz, mesmo que a única, a oferecer através da nossa TI, um fio de esperança em dias melhores.
    Reitero um Natal Feliz e com saude a ti, a esposa, demais familiares e a todos os Tribunários!
    Fallavena e familia.

    • Gratíssimo por suas palavras, amigo Fallavena, um brasileiro que trabalha incansavelmente pelo bem do país, numa obra que se agiganta na internet.

      Tudo de bom para vocês aí no Sul Maravilha, meu irmão camarada.

      CN

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