20 anos da morte de Joo Saldanha, a inaugurao do monumento no Maracan. A morte, apressada, aos 73 anos, o monumento, justssimo, quase que no vinha. Ningum foi to importante quanto ele (fora de campo), a no ser Joo Havelange. Estiveram juntos, num tempo glorioso.

Nada mais justo do que aquele que j foi conhecido no Brasil e no mundo, como o maior estdio, o Maracan, tivesse um monumento dedicado a um personagem fora de srie. Tambm reconhecido como dos maiores, admirado at por quem no concordava com suas idias.

Saldanha mereceu pelo conjunto da obra. Polmico, o que no depreciativo, qual dos personagens da Histria que no polmico, contestado, contestador? Foi realmente incomparvel, embora no gostasse de depreciar ou desprezar ningum.

Se destacou logo, do princpio ao fim, assim que chegou ao Rio, em 1930. Veio com o pai, revolucionrio de leno no pescoo, grande amigo de Vargas, que quase imediatamente lhe deu um cartrio de imveis na Zona Sul. Imveis e Zona Sul que ainda no existiam.

Apaixonado por futebol, assistiu a Copa de 1930, a primeira, no prprio Estdio do Centenrio. Tinha 13 anos de idade. Nada muito estranho ou surpreendente. Desenvolvido, criado livremente, morava em Porto Alegre, praticamente bastava atravessar a rua.

Confessava que esse foi o espetculo que jamais esqueceu, embora tivesse vivido mais 60 anos, intensamente. Sua capacidade mental e memria, inacreditveis.

No foi Copa de 34 na Itlia, esteve na Frana em 1938, navegando por mares nunca dantes navegados, e j tumultuados pela Segunda Guerra Mundial, que praticamente comeava. (No assisti nenhuma dessas trs Copas, embora tivssemos nascido no mesmo ano, e acumulssemos paixes esportivas eclticas e movimentadas).

Meu primeiro contato com Joo Saldanha ocorreu em 1939, no Estdio do Vasco. A seleo brasileira jogava com a Argentina pela tradicional Copa Roca, disputada de 2 em 2 anos. O Brasil perdeu por 5 a 1. A Polcia Especial da ditadura (com aquele vergonhoso uniforme de quepe vermelho e a crueldade que exibira em 1937 e 1938, no julgamento de Prestes, defendido por Sobral Pinto, designado pela OAB) batia violentamente nos argentinos, jogadores e dirigentes.

Eu era da revista O Cruzeiro, a maior organizao jornalstica antes de surgir a Globo, no tenho a menor ideia de onde era Joo Saldanha. Mas ele j plantava a tica, esttica e ecltica personalidade que agora eternizada no Maracan, o estdio mais reformado do mundo.

Ficamos ligeiramente conhecidos, fomos nos reencontrar realmente muito bem a partir da Copa de 50. Pela esperana, pela certeza do primeiro ttulo, silenciados juntos com os mais de 200 mil que estavam assistindo o jogo. (No existiam borboletas, invadiram o estdio, derrubaram muros, um episdio pico, histrico, muito pouco contado ou analisado. Foi inesquecvel e insupervel at hoje, qualquer que seja o ngulo da apreciao).

Estivemos juntos em 1958, 62, 66 na Inglaterra, na primeira vez em que o Brasil no passou para o mata-mata da segunda fase. Muitos foram embora, ns para Londres, ficamos no Gosvenor House, no Hyde Park. Acordvamos cedo para ver cidados discursarem livremente em p num banquinho.

Um dia, a BBC convidou Saldanha para um debate com Bobby Charlton, capito da seleo inglesa que fora campe, com um gol que no entrou. A conversa ia bem, at que o jogador da Inglaterra, no conhecendo Joo, disse textualmente: O Brasil poderia ter mais repercusso se no fosse a violncia.

E Saldanha, olhando firme para Charlton, disparou como se perguntasse: Bobby, voc quer convencer a mim ou a qualquer telespectador, que a Scotland Yard fez fama mundial prendendo criancinhas? O ingls no abriu mais a boca, Saldanha no tripudiou, mas disse o que precisava ser dito. Como sempre.

Nessa poca, com 45 anos, Saldanha j era personalidade respeitada e temida, esportiva e politicamente. Embora tivesse pssimo relacionamento com o pai reacionrio, se fixou em Botafogo por causa do cartrio. Mas no morava com ele nem dependia de maneira alguma de qualquer ajuda.

Entrou no clube, fez histria, se transformou numa lenda, no sentido negativo ou positivo. S que, alm dos fatos, criaram sobre Saldanha um vasto folquelore, por causa de suas convices e do seu jeito de ser. S vou contar o que interessa, fatos e no rumores ou boatos, deixando de lado verses inventadas ou deturpadas.

Nunca se manifestou politicamente, mas fez intensa vida jornalstica e esportiva. Polmico e dando a ltima palavra em tudo, foi o nico jornalista a escrever diariamente para O Globo, fazer narrao para a Rdio Globo, comentar jogos para a TV Globo, que estava surgindo em 1965. E era atrao, simultnea e insubstituvel.

Veio da Copa da Inglaterra no auge, j na ditadura, embora esta s fosse se assumir totalmente a partir de 1966 (final) at 1968, (com o AI-5 monstruoso) e depois cruel e atrabiliria, at ser superada por dentro (como acontece sempre) e pela resistncia que ia crescendo.

Visado, vigiado, mas no atingido frontalmente, esses foram, esportivamente, os anos de ouro de Saldanha. Durante alguns desses anos, amos diariamente praia. (Quando eu no estava preso, raro). Ao meio-dia, saamos do Jardim de Alah at o Castelinho, quando nos encontrvamos como Carlinhos Niemeyer e Sandro Moreira, que personagens. (Marcvamos na esquina de Delfim Moreira com Epitcio Pessoa. O primeiro tendo sido presidente e substitudo pelo segundo).

Eu tinha paixo por corrida, o que me acompanhou a vida toda. Saldanha ficava furioso comigo, resmungava sempre: Helio, correr no bom, andar, at bem forte, que faz bem. Ele era profissional, sempre. No atendi nunca, uma das minhas admiraes era a maratona.

A mais curta, 100 metros, tambm muito endeusada, justamente. S que representa total contradio: o atleta treina 10 anos para vencer e se realizar em 10 segundos. (Agora, at menos).

Em 1936, o negro americano Jesse Owens, ganhou 5 medalhas de ouro, derrotando os arianos puros. Obrigou Hitler a abandonar o belo Estdio Olmpico de Berlim, mais enraivecido do que o habitual.

(Nessa Olimpada, a ltima antes da Segunda Guerra, dois brasileiros que ficariam famosos: Maria Lenk e Joo Havelange. Ela j concorrera em 1932).

Em 1969, o Brasil ia mal na eliminatria para a Copa de 1970. Joo Havelange, competente, conservador mas no intransigente, foi conversar com Saldanha, se acertaram, ele assumiu a seleo, classificou-a para a Copa de 1970. Isso os presidentes entre aspas no podiam admitir. Exigiram a convocao de Dada Maravilha, Saldanha ficou irredutvel. Havelange tentou contornar, disse a ele, convoca e escala quando voc quiser.

Saldanha respondeu com uma frase: Eu no nomeio ministros, eles no convocam jogadores para a seleo. Foi o fim. Havelange no pde segurar. Mas aquela seleo de 1970 era to fantstica e insupervel, que ganharia com qualquer tcnico.

Outro tcnico com a competncia de Saldanha, surgiria somente em 1978. Era o capito (mocssimo e da ativa) Cludio Coutinho. No ganhou a Copa da Argentina, porque a ditadura de l no deixou. Mas Coutinho inventou e ensinou muita coisa. Inesperadamente, morreu afogado, pescando nas Cagarras. Teria existido a Era Coutinho. Como haver para sempre, a Era Saldanha.

Tenho que parar em algum momento, ento no mais triste, a Copa de 90 na Itlia. O mdico tinha aconselhado (proibido) Joo a no viajar. Era uma vtima do cigarro, fumava intensamente, tinha o efizema que o mataria. No viu nenhum jogo.

***

PS Ia visit-lo quase todo dia no hospital, como sempre fazia artigo e coluna dirios. O mdico me disse que ia morrer quase imediatamente. E o prprio Saldanha sabia disso.

PS2 Passei ento a pedir a Deus que ele morresse durante a Copa, para receber as homenagens que merecia. Morreu uma semana depois da final. Os estdios em silncio. Vazios, mas chorando a sua ausncia. A falta da presena de um homem que s se entregou inteiramente, a si mesmo e s suas paixes.

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