Pequenas diferenças podem ter enorme peso político
Pedro do Coutto
A eleição presidencial de 2026 começa sob o signo da incerteza. Lula da Silva continua na dianteira das pesquisas, mas a distância para Flávio Bolsonaro diminuiu o suficiente para transformar uma disputa que parecia relativamente controlada em uma corrida aberta. O dado mais importante, portanto, não é apenas quem está à frente, mas o tamanho da vantagem e a capacidade de cada candidato de transformar intenção de voto em maioria efetiva.
A pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto mostra Lula com 38% no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, a diferença cai para três pontos: 43% a 40%, dentro da margem de erro. O Datafolha de julho havia apresentado cenário mais favorável ao presidente: 40% contra 32% no primeiro turno e 48% a 43% no segundo. A diferença entre os levantamentos não permite falar em virada, mas revela uma disputa que merece atenção.
LEITURA POLÍTICA – É justamente aí que a matemática eleitoral deixa de ser uma fotografia e passa a funcionar como instrumento de leitura política. Uma vantagem de poucos pontos não significa que o candidato que está atrás tenha se tornado favorito. Significa que existe espaço para acontecimentos de campanha, debates, televisão, redes sociais, alianças, rejeição e percepção sobre a economia alterarem o equilíbrio.
A característica que permanece praticamente inalterada é a força da polarização. Lula e Flávio concentram uma parcela muito maior das intenções de voto do que os demais concorrentes. Caiado e Zema tentam construir candidaturas próprias, mas enfrentam a força do sobrenome Bolsonaro. Ainda assim, não é possível presumir que seus eleitores migrarão automaticamente para Flávio num eventual segundo turno. A transferência de votos depende das alianças, das rejeições e da configuração política naquele momento.
O mesmo vale para Lula. O presidente tem a vantagem de ser amplamente conhecido e possuir uma trajetória política consolidada, mas também carrega uma rejeição elevada. Em uma eleição polarizada, o eleitor muitas vezes não escolhe apenas o candidato que prefere, mas aquele que considera menos indesejável. Lula e Flávio disputam, assim, dois campos políticos marcados por identidades e rejeições profundas.
REDES SOCIAIS – Por isso, a campanha terá peso decisivo. A televisão continuará relevante, mas as redes sociais terão papel ainda maior na formação da percepção pública. A pesquisa CNT/MDA mostrou que 45% dos entrevistados apontam as redes como principal fonte de informação eleitoral. Nesse ambiente, um debate mal conduzido, uma declaração controversa, uma crise econômica ou uma denúncia podem produzir efeitos que pesquisas realizadas semanas antes não conseguem antecipar.
A economia será outro fator central. Emprego, renda, inflação, preço dos alimentos, crédito e percepção sobre o futuro têm capacidade de deslocar votos. A discussão fiscal tende a ganhar espaço à medida que os candidatos apresentarem suas propostas. O desafio será convencer o eleitor de que as promessas são economicamente viáveis e não apenas instrumentos para conquistar votos.
A própria natureza das candidaturas cria uma assimetria. Lula representa um governo em exercício: pode apresentar resultados, mas também responde diretamente pelos problemas existentes. Flávio representa uma possibilidade de mudança: pode explorar as insatisfações, mas precisa explicar como pretende fazer diferente. Essa diferença será explorada intensamente durante a campanha.
MARGEM PEQUENA – Há ainda uma lição histórica importante. Em disputas apertadas, pequenas diferenças podem adquirir enorme peso político. Em 1960, John F. Kennedy venceu Richard Nixon por margem extremamente estreita no voto popular, e o desempenho no primeiro debate televisionado entrou para a história daquela eleição. Hoje, redes sociais e inteligência artificial ampliam ainda mais a velocidade com que acontecimentos de campanha podem influenciar a opinião pública.
É nesse cenário que 2026 começa. Lula permanece à frente na maioria dos levantamentos, mas Flávio Bolsonaro reduziu a distância em algumas pesquisas e já aparece em empate técnico em determinados cenários. Isso não significa que Flávio tenha ultrapassado Lula, nem que uma derrota do presidente esteja próxima. Significa, simplesmente, que a eleição está longe de estar decidida.
MOVIMENTOS ESTRATÉGICOS – A partir de agora, cada movimento terá peso. Lula precisará reduzir sua rejeição e convencer os eleitores de que merece um novo mandato. Flávio terá de ampliar sua base para além do eleitorado mais identificado com o bolsonarismo. Caiado e Zema precisarão mostrar se conseguem sobreviver à força da polarização ou se acabarão desempenhando papel secundário.
No fim, a eleição será decidida menos pela fotografia de agosto do que pela capacidade de cada candidatura de construir uma narrativa convincente até outubro. Pesquisas são instrumentos indispensáveis para compreender o momento, mas não substituem o voto.
Quando a diferença é pequena, a história eleitoral oferece uma advertência simples: por um ponto se vence, por um ponto também se perde. Em 2026, a disputa será justamente pela capacidade de transformar rejeição em maioria e intenção de voto em poder.
“As pessoas com privilégios preferem arriscar a sua própria destruição a perderem um pouco da sua vantagem material”.
(John Kenneth Galbraith, um dos economistas mais famosos do século XX e conselheiro de vários presidentes dos Estados Unidos)
Uma esperança é um terceiro candidato. Esses dois atuais fazem qualquer um ter vergonha de ser brasileiro: um, inexperiente e sem qualificação para ser presidente; o outro, embora presidente por 3 vezes, mostrou que faz parte da velha guarda corrupta e não abre mão de ser o primeiro cidadão.
Para mudar o status quo, vou votar em Caiado sem vacilar.
Nova pesquisa presidencial do Datafolha sai sexta-feira, 21/8
O Datafolha entra em campo entre terça-feira e quinta-feira para medir as intenções de voto na eleição à Presidência da República.
O resultado será divulgado na sexta-feira, 21. É a primeira pesquisa do Datafolha depois de a campanha ter sido oficialmente iniciada.
Serão 2.004 eleitores entrevistados presencialmente.
A pesquisa foi encomendada pela Folha da Manhã (que edita a “Folha de S. Paulo”) a um custo de R$ 307,6 mil.
A margem de erro é de dois pontos percentuais.
(…)
Fonte: O Globo, Política, 16/08/2026 10h43 Por Lauro Jardim
Com os políticos que temos ísto é uma missão impossível