
Charge do Cícero (Arquivo do Google)
Pedro do Coutto
Há números que, pela sua dimensão, deixam de ser apenas estatísticas e passam a revelar um problema político. A dívida pública brasileira é um deles. O país convive com um endividamento gigantesco e, mais preocupante ainda, com uma parcela crescente da dívida exposta diretamente às variações dos juros. Quanto mais elevada a taxa básica, maior o custo para o Tesouro manter a dívida sob controlo. E quanto maior esse custo, mais difícil se torna discutir seriamente a redução do passivo.
É preciso, antes de tudo, fazer uma distinção. Nem todo o estoque da dívida recebe, de forma uniforme, a mesma taxa de juros. Há títulos prefixados, papéis ligados à inflação, títulos cambiais e títulos pós-fixados. Mas o aumento da parcela vinculada à Selic torna as contas públicas mais sensíveis à política de juros.
JUROS ELEVADOS – A engrenagem é relativamente simples, embora as suas consequências sejam enormes. Juros elevados encarecem o serviço da dívida. O aumento desse custo exige novas emissões para refinanciar títulos que vencem. E a própria dimensão da dívida torna o país mais vulnerável às exigências dos investidores. A rolagem da dívida não é, por si só, uma anomalia. Grandes países refinanciam permanentemente parte dos seus compromissos. O problema brasileiro está no custo desse refinanciamento e na dificuldade de reduzir a dependência de juros elevados.
Para o investidor, os títulos públicos continuam a representar uma aplicação atraente: segurança, liquidez e remuneração elevada. Mas aí está uma das grandes contradições da economia brasileira. O que é uma oportunidade rentável para quem empresta dinheiro ao Estado transforma-se, do outro lado, num custo crescente para as contas públicas.
Não há mistério na matemática fiscal. Para reduzir a dívida de forma consistente, o país precisa impedir que o seu crescimento e o custo dos juros superem permanentemente a capacidade do Estado de gerar receitas. Em termos simples, é necessário construir condições para que haja recursos suficientes para enfrentar o endividamento sem comprometer as funções essenciais do poder público.
SINUCA DE BICO – Isso, porém, não significa simplesmente cortar gastos. A questão envolve escolhas sobre receitas, despesas, investimentos, subsídios, renúncias fiscais e prioridades. Um ajuste baseado exclusivamente na redução das despesas pode produzir efeitos fiscais imediatos, mas também comprometer investimentos e a própria capacidade futura de crescimento.
No extremo oposto, ampliar gastos sem fontes sustentáveis de financiamento significa transferir a conta para o futuro. É justamente nesse ponto que o debate político brasileiro se mostra insuficiente.
A eleição de 2026 começa a ganhar intensidade, mas ainda existe uma distância considerável entre a dimensão do problema fiscal e o espaço dedicado a propostas concretas para enfrentá-lo. É relativamente fácil prometer redução de impostos, aumento de despesas, investimentos, crédito subsidiado e novos benefícios. Difícil é explicar de onde sairão os recursos e qual será o efeito dessas decisões sobre a dívida pública.
POLARIZAÇÃO – A disputa presidencial continua fortemente marcada pela polarização entre lulismo e antilulismo. As pesquisas mantêm Lula e Flávio Bolsonaro no centro da corrida eleitoral, embora seja prematuro tratar o segundo turno como um resultado definido. Outros candidatos continuam na disputa e campanhas eleitorais são capazes de alterar cenários.
Mas há um risco em transformar toda a eleição numa disputa exclusivamente identitária. O país pode atravessar meses discutindo quem vencerá a batalha política e chegar ao fim do processo sem uma resposta convincente para uma questão central: que estratégia será capaz de reduzir a vulnerabilidade fiscal sem sacrificar o crescimento e a capacidade de investimento do Estado?
A situação dos Correios, embora tenha características próprias, ajuda a ilustrar esse dilema. A empresa enfrenta uma profunda crise financeira e um modelo de negócio pressionado pelas transformações nas comunicações e pela necessidade de adaptação ao novo mercado de encomendas e serviços.
SOLUÇÕES – Também nesse caso não há soluções automáticas. Dizer simplesmente que a privatização resolveria tudo não responde à pergunta sobre quem assumiria uma operação deficitária e submetida à obrigação de manter um serviço de alcance nacional. Mas também não basta defender a preservação do modelo atual sem apresentar um caminho capaz de garantir sustentabilidade.
Entre a privatização tratada como solução universal e o imobilismo existe uma discussão mais difícil: como preservar serviços essenciais sem transformar déficits permanentes numa conta sem fim para o contribuinte?
No fundo, é a mesma pergunta colocada pela dívida pública. O Brasil tornou-se especialista em administrar emergências e adiar decisões estruturais. A dívida é rolada porque precisa ser rolada. Os déficits são cobertos porque precisam ser cobertos. Criam-se soluções provisórias para enfrentar problemas imediatos. Mas a acumulação dessas decisões temporárias pode transformar o provisório em permanente.
SAÍDA SÉRIA – Não existe saída séria baseada na simples negação do problema. Também não existe solução mágica baseada exclusivamente na austeridade. Um país que reduz investimentos em infraestrutura, educação, ciência e produtividade pode melhorar uma conta no presente e prejudicar a sua capacidade de gerar riqueza no futuro.
A discussão deveria concentrar-se, portanto, nas escolhas que normalmente ficam escondidas atrás dos slogans. Que despesas precisam crescer e quais devem ser revistas? Que benefícios e renúncias tributárias ainda se justificam? Como aumentar a eficiência do Estado sem destruir serviços públicos? Como estimular o crescimento e melhorar a relação entre dívida e PIB? Como criar condições para uma redução sustentável dos juros? São questões políticas antes de serem apenas técnicas.
ESTRATÉGIA DE LONGO PRAZO – O problema da dívida não será resolvido por um presidente isoladamente, nem dentro de um único mandato. Exigirá estratégia de longo prazo, crescimento, credibilidade e capacidade de construir acordos. Mas a primeira condição para enfrentá-lo é abandonar a ilusão de que as escolhas podem ser adiadas indefinidamente.
Hoje, o Brasil parece preso entre dois calendários. Um é o da eleição, dominado pela urgência das campanhas e pela disputa pelo poder. O outro é o da economia, em que os juros continuam correndo e a dívida precisa ser refinanciada continuamente.
A eleição terminará. Os vencedores e os vencidos serão conhecidos. A dívida, porém, continuará sobre a mesa no dia seguinte. E essa é uma conta que não aceita slogans como pagamento.
Se não houvesse tanta gula e egoísmo o mundo estaria um delícia de ser vivido e compartido entre a$$emelhado$!
Bom artigo. Realmente é muito difícil e complexo lidar com essas questões. Tanto é que nenhum candidato, tanto do executivo, quanto do legislativo se aventura a aprofundá-las. E o ideal é que um plano de longo prazo elaborado por especialistas de setores afins fosse ekabora e seguido por todos, independentemente da ideologia (o que não passa de um sonho).
A igualdade é uma quimera filosófica, nunca existiu nem vai existir.
Como cantaram Rappa e Ultramen…
“Resolveremos esse cálculo
No Distrito Policial
Porque…
A taxa é zero o juro é alto
Vamos conversar
Ressarcimento
Pagamento
Vamos negociar
Aquela dívida
De uns anos atrás
Está bem viva
Você não lembra mais!”
Aqueles crimes!
De uns anos atrás!
Ele tá repetindo!
Nos passando pra trás!
No fundo, é a mesma pergunta colocada pela dívida pública. O Brasil tornou-se especialista em administrar emergências e adiar decisões estruturais. A dívida é rolada porque precisa ser rolada. Os déficits são cobertos porque precisam ser cobertos. Criam-se soluções provisórias para enfrentar problemas imediatos. Mas a acumulação dessas decisões temporárias pode transformar o provisório em permanente.
As famílias brasileiros estão do mesmo jeito.
Sem a pujança e a roubalheira desse Estado destruído por dentro pelos cupins da roubalheira desenfreada, mas como vítimas das mesmas pragas.
O pior de tudo é ver e sentir os efeitos de quase tudo parado, com o país, a política e o povo apenas girando em torno de eleições de 2 em 2 anos, igual cachorro louco girando atrás do próprio rabo, sem rumo e sem perspectivas de futuro, com os eleitos muito aquém das necessidades de transformação do país.
O pior tudo são as eleições do nada por coisa nenhuma, em termos de mudanças de verdade, sérias, estruturais e profundas que o país necessita há trocentos anos. “Às vésperas de uma eleição presidencial que nada significa, pois o resultado pouco mudará neste país, que continuará refém do conluio entre os três Poderes, não importa quem seja eleito…” Daí o aviso da implacável Lei de Murphy…
Seu Leão
O Sr. Pedro esqueceu que o Narco-Ladrão e sua Quadrilha estão há 5 mandatos (20) anos e nunca fez qualquer tipo de mudanças de verdade, estruturais, nunca teve qualquer projeto para o Páis. ou planejamento para o futuro…
A única coisa é o poder e dinheiro, e muito dinheiro, afinal, todos os comunistalhas tem um desejo incontrolável por dinheiro público,
Repare que todos os faccionados da Facção 9F são multi-milionários, o último pego pela PF disse que ficou rico por acaso…
aquele abraço