Reta final entra numa zona mais delicada
Pedro do Coutto
A campanha presidencial chega à reta final do primeiro turno marcada por uma transformação importante do debate político brasileiro: a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro ganhou uma dimensão religiosa que ultrapassa a tradicional disputa ideológica entre os dois campos. O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida não criou essa divisão, mas expôs uma das áreas mais sensíveis da eleição: a tentativa de estabelecer uma conexão direta entre identidade religiosa, valores culturais e escolha eleitoral.
Na segunda-feira (28), Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, participaram de um ato na capital paulista no qual ergueram a imagem de Nossa Senhora Aparecida. O gesto ocorreu depois da circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou a existência de qualquer projeto nesse sentido e, posteriormente, agradeceu à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por esclarecer que a entidade não havia participado da disseminação da informação.
RESPEITO ÀS RELIGIÕES – No mesmo dia, em Belém, Lula recebeu e levantou diante do público uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. Antes disso, afirmou que, enquanto estivesse na Presidência, ninguém iria desrespeitar Nossa Senhora Aparecida e defendeu o respeito às diferentes religiões. O gesto, portanto, não pode ser dissociado do ambiente eleitoral criado pela controvérsia.
O que está em disputa, entretanto, não é a fé dos candidatos. É a capacidade da política de transformar símbolos religiosos em instrumentos de identificação eleitoral. A questão é especialmente relevante porque o Brasil continua sendo uma sociedade na qual religião e comportamento político se cruzam de maneira evidente.
A pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostra que Lula chegou a 48% entre os eleitores católicos no primeiro turno, contra 29% de Flávio. Entre os evangélicos, Flávio permanece à frente, embora a diferença tenha diminuído no levantamento: 38% contra 27% de Lula. Os dados foram coletados entre 24 e 27 de setembro, justamente no período em que a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou força.
CAUTELA – Isso permite uma constatação, mas recomenda cautela com qualquer conclusão causal. É possível observar que a discussão religiosa ocorreu simultaneamente a mudanças na intenção de voto. Não é possível, apenas a partir desses números, afirmar que uma imagem levantada num palanque tenha produzido determinado deslocamento eleitoral.
Essa distinção é importante porque a campanha parece ter percebido que a disputa religiosa não precisa necessariamente produzir uma conversão maciça de votos. Basta que mobilize identidades, desperte receios ou consolide percepções que já existiam.
É justamente aí que a eleição entra numa zona mais delicada. A controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida começou a partir de uma informação falsa associada a um projeto apresentado em 2007 e arquivado em 2008, que não tinha relação com uma proposta de Flávio Bolsonaro para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A CNBB também negou ter produzido ou participado da disseminação de informações falsas sobre o processo eleitoral.
ALCANCE – Ainda assim, o episódio ganhou uma dimensão muito maior do que a origem da informação poderia sugerir. Segundo levantamento do Poder360, a controvérsia alcançou quase 978 mil publicações e 8,5 milhões de interações nas redes sociais, tornando-se um dos assuntos políticos de maior repercussão monitorados em 2026.
A política brasileira conhece bem esse mecanismo: determinadas controvérsias deixam de ser importantes pelo conteúdo original e passam a importar pelo significado que adquirem no imaginário do eleitor. A disputa deixa de ser sobre a existência de um projeto e passa a ser sobre aquilo que cada candidato representa para diferentes grupos da sociedade. É nesse ponto que a religião se transforma em território eleitoral.
Mas seria precipitado concluir que essa guerra de símbolos definirá o resultado do primeiro turno. As pesquisas mais recentes indicam uma vantagem de Lula sobre Flávio, mas não autorizam tratar o resultado como previamente decidido. A Quaest divulgada em 28 de setembro registrou Lula com 39% e Flávio com 34% no primeiro turno, enquanto os demais candidatos não alcançaram patamar suficiente para aparecer individualmente no levantamento. No cenário de segundo turno entre os dois, porém, houve empate em 42% a 42%.
PESQUISA – O Datafolha, realizado entre 22 e 23 de setembro, encontrava Lula com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, os dois também apareciam tecnicamente empatados: 47% para Lula e 45% para Flávio, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
A fotografia, portanto, é mais complexa do que a ideia de uma eleição já resolvida. O primeiro turno apresenta uma vantagem de Lula nas pesquisas, enquanto o segundo turno permanece aberto nas medições disponíveis. Essa diferença muda completamente a leitura da reta final.
Os candidatos que hoje aparecem atrás dos dois líderes ainda possuem algo que pode adquirir enorme valor político depois de 4 de outubro: votos. A última Quaest mostra Augusto Cury com 5%, Ronaldo Caiado com 4% e Renan Santos com 3%, enquanto os demais aparecem com índices residuais.
ALIANÇAS – Esses números não significam que seus candidatos tenham capacidade demonstrada de alcançar Lula ou Flávio nas pesquisas atuais. Significam, porém, que seus eleitores poderão se tornar relevantes caso a disputa caminhe para um segundo turno. A eleição presidencial não termina necessariamente na definição dos dois primeiros colocados; começa, a partir daí, outra eleição, na qual alianças, apoios, rejeições e capacidade de absorver votos dos candidatos eliminados passam a ter peso maior.
É nesse segundo momento que a atual disputa religiosa pode adquirir outra dimensão. No primeiro turno, símbolos religiosos podem servir para mobilizar bases e impedir perdas em segmentos específicos. No segundo, a necessidade de ampliar a coalizão eleitoral tende a exigir uma comunicação dirigida a grupos que não necessariamente compartilham a mesma identidade política, religiosa ou ideológica do candidato.
É por isso que a utilização de Nossa Senhora Aparecida por Flávio e de Nossa Senhora de Nazaré por Lula pode ser entendida menos como uma batalha pela fé e mais como um sinal da disputa por pertencimento.
SIMBOLOGIA – Ambos procuram falar com um eleitor que não vota apenas a partir de questões econômicas ou administrativas. Há também valores, costumes, identidade, religião e a percepção de que determinado candidato representa ou ameaça aquilo que cada eleitor considera importante. A política, nesse ambiente, deixa de disputar somente propostas e passa a disputar símbolos.
O risco está em transformar a religião em mais uma fronteira absoluta de uma eleição já profundamente polarizada. Quando isso acontece, o debate sobre políticas públicas, economia, segurança, saúde ou instituições pode ser deslocado por uma disputa emocional na qual a percepção passa a valer mais do que o fato.
A reta final do primeiro turno mostra justamente esse movimento. Lula e Flávio continuam separados por alguns pontos nas pesquisas, mas os dois já começam a se comportar como protagonistas de uma disputa que pode continuar depois de 4 de outubro. Os demais candidatos ainda estão na corrida, mas os números disponíveis indicam que o eixo da eleição está concentrado nos dois principais nomes.
CONCETRAÇÃO – O primeiro turno, portanto, não está decidido. Está, isto sim, cada vez mais concentrado. E talvez seja essa a principal razão para que a religião tenha entrado com tanta força na campanha. Quando a diferença entre os dois polos permanece estreita e a eleição seguinte pode depender de grupos que hoje estão fora deles, cada símbolo passa a ser também uma mensagem política.
Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Nazaré aparecem, assim, no centro de uma disputa que não é religiosa em sua essência. É uma disputa eleitoral que descobriu na religião uma nova linguagem para falar com o eleitor.
O problema começa quando essa linguagem substitui os fatos. Porque, numa eleição em que a decisão ainda está aberta, símbolos podem mobilizar, mas não necessariamente convencem. E, no fim, são os eleitores — não os palanques, as pesquisas ou as imagens levadas aos comícios — que decidirão o caminho da urna.
Adendos, em:
https://www.facebook.com/share/r/1FFZJTo9Nh/
Sr. do Couto, essa Fake News partiu da metralhada, diga-se!
https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/88677/excesso-de-maldades-vira-tiro-no-pe-de-lula-e-tem-efeito-contrario
Correção; Petralhada.
Aqui está a maldade do – digamos – cronista Pedro do Couto: “que não tinha relação com uma proposta de Flávio Bolsonaro para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil”
De uma maneira cafajeste, está insinuando mesmo que o filho estaria com um projeto para destruir algo que seu próprio pai havia feito.
“O ato de consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida realizado por Jair Bolsonaro ocorreu em 24 de outubro de 2022, na capela do Palácio da Alvorada”
Cobranças Recentes
Em setembro de 2026, a associação Centro Dom Bosco publicou questionamentos direcionados ao governo federal após constatar que o registro oficial daquela solenidade e o texto correspondente deixaram de figurar em endereços de acesso público nos portais do governo.
PS: o meio usado não necessariamente torna o cronista igual a ele.
https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/30/dino-manda-policia-federal-apurar-onda-de-ataques-a-imagens-religiosas.ghtml
https://share.google/YGqZkdqmt8euU4z4v
Não dá para entender quando um grupo grande de bispos na última eleição, assinaram uma carta de apoio aoolusco. Uma entidade que prega coisas que enobrece uma ser humano, presta apoio a um corrupto, mentiroso, adúltero e que quando abre anoca vomita ódio
Sr. Pedro
Apenas uma semana deste post no seu artigo e os preçõs aumentaram em alguns alimentos
Tomate bate nos 16,00 kg
Quiabo bate nos 35,00 kg
Vagem bate nos 35,00 kg
O aumento de 91,00 acabou com a feira do preto, branco, pobre e favelado.
Sr. Pedro
91,00 reaus não dá para encher um carrinho na feira,
A picanha no açougue do Seu Manuel das Tamanquinhas (segundo minha assessoria), está na casa dos 89,90..
Dá para comprar um 1k cheio, se passar algumas gramas, vai ter que deixar no fiado.
Na feira consegue trazer meia dúzia de alimentos…
1 kilo de vagem….30,00
1 kilo de quiabo….30,00
1 kilo de tomate;;;15,00
3 maças…………….10,00
1 dz laranja…………10,00
total……………………95,00
Sr. Pedro, o preto, branco, pobre e favelado ainda vai ter de gastar muita conversa para ver se um deles dá um desconto de 4,00 reaus para atingir a meta de 91,00 reaus doados pelo Narcola e sua Quadrilha de Malfeitores Sanguessugas das Tetas Públicas.
Sr. Pedro, porque o Narcola não coloca o salário minimo no valor do Dieese para o preto, branco pobre e favelado ter dinheiro para comprar seus alimentos para não ficar dependendo de bolsa-miséria que não dá nem para fazer uma feira.??
aquele abraço
PS.
Nas favelas também existem muitos pobres que são brancos, mas os narcolacradores sugadores das tetas públicas esquecem desse detalhe.