30 anos depois, AIDS se propaga com o beneplácito das autoridades

Lucas Alvares

Tive um grande amigo que foi um dos maiores militantes da causa negra no Brasil. Negro e homossexual assumido, um dia quis me transformar em “Lucas do PT”. Pela rejeição às siglas tradicionais que mantenho desde o início de minha trajetória, agradeci e recusei a proposta. Apesar disso, seu trabalho a frente de uma ONG no bairro de Campo Grande sempre me encantou. Lá, ele mantinha enorme cuidado com as crianças em situação de risco, com a preservação da cultura negra e das religiões afro-brasileiras.

Tempos depois da proposta, já na Rádio MEC, participava da produção de uma edição do debate “Atualidades” e sugeri convidá-lo. Era Dia da Consciência Negra. Para aquele especial, eu queria reunir grandes negros brasileiros: Zezé Motta, Haroldo Costa, Joel Rufino dos Santos, fazer uma grande homenagem ao nosso Abdias do Nascimento e trazer a palavra contundente de meu amigo, grande companheiro de todos eles em tantos anos em prol da igualdade étnica. Telefonei, e foi a vez dele recusar um convite meu. Agradeceu, mas disse estar muito doente. Desconfiado, soube o que havia acontecido: o militante, que morreu dias depois, era mais um número nas estatísticas da AIDS no Brasil.

Doença de notificação obrigatória ao Ministério da Saúde, cresce em índices ano a ano, e todas as medidas, quase sempre acertadas, adotadas pelo governo brasileiro têm se mostrado insuficientes para conter a epidemia. Para se ter idéia, hoje há no Brasil aproximadamente 600 mil soropositivos. Nem todos eles já desenvolveram os sintomas, mas tiveram seus contágios diagnosticados e notificados. Há ainda um número impreciso de subnotificações. O Ministério da Saúde fala em 250 mil, mas instituições internacionais apontam para 600 mil, o que dobraria os índices atuais e nos levariam a espantosos 1 milhão e 200 mil portadores do vírus HIV em nosso país.

Em 2009, desenvolvendo uma oficina de comunicação para alunos de uma tradicional escola de formação de professores aqui do Rio, recebemos Antônio Pinheiro, ativista do movimento LGBT e professor da rede estadual de educação. Pinheiro nos presenteou com um relatório oficial do Ministério da Saúde, distribuído às entidades que cuidam de temas relacionados à sexualidade humana sobre o panorama da AIDS e das demais doenças sexualmente transmissíveis no Brasil. Lemos o conteúdo dos calhamaços  e pudemos observar uma realidade alarmante: subnotificação, acesso reduzido ao coquetel nas regiões Norte e Nordeste, alto percentual de abandono do tratamento e a definitiva extinção do conceito de “Grupos de Risco”.

Hoje, há de se falar em “Comportamentos de Risco”, essencialmente o que se acostumou chamar por promiscuidade. É grande o contágio entre as meninas e mulheres jovens, muitas menores de idade, que se relacionam sexualmente sem o uso do preservativo e parecem não se preocupar com as conseqüências desta ação.
 
Há também as “barebackings”, festas que são um verdadeiro atentado à saúde pública, realizadas em residências de alto luxo, tipo Vieira Souto, Farme de Amoedo e Avenida Atlântica. Lá, o sexo é praticado sem o uso de preservativos e com a presença declarada de soropositivos. Todos sabem que há portadores do HIV ali, mas sentem prazer ao não saberem quem são: trata-se de uma grande roleta-russa, em que o bacanal dionisíaco é substituído pela adrenalina de se colocar em risco a própria vida. Tudo isto aponta para a degradação moral e o descaso.

A ausência de ações do poder público contra estas festas, poucas vezes denunciadas na imprensa e frequentadas tanto por casais heterossexuais como por parceiros homossexuais, leva à proliferação do vírus HIV entre jovens saudáveis e produtivos, todos entregues à imbecilidade e à perversão moral nestes eventos.

A morte de um famoso dançarino, ocorrida no mês passado em mais uma presumível infecção pelo HIV, escarnece a precariedade do nosso sistema de saúde, que oferece o coquetel a um grande número de portadores mas não lhes dá acompanhamento adequado. O Hospital Gafrée Guinle, centro de referência no tratamento da AIDS no Brasil, tem pouco mais de 300 leitos. Se não dá conta dos soropositivos da Tijuca e arredores, como imaginar que atenderá a todos os casos em que sua ação se fizer necessária? Quantos mais teremos que perder para que a sociedade desperte e veja no abandono do SUS e na promiscuidade de seu comportamento sexual a verdadeira razão para esta triste sina que já dura 30 anos?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *