Lula dá atestado a Serra: não é da direita

Pedro do Coutto

Em pronunciamento público recente, ao focalizar o panorama da sucessão presidencial, o presidente Lula deu graças a Deus pelo fato de as eleições de 2010 não estarem sendo disputadas pelos exarcebados da direita. Deste mal nós nos livramos –acentuou-. O episódio não foi muito percebido em sua essência, mas é de grande importância, pelo menos sob o ângulo de interpretação do atual presidente da república. Se o Planalto não está sendo disputado por direitistas, Lula excluiu ao mesmo tempo José Serra, Dilma Roussef e Ciro Gomes de tal classificação e também Marina Silva se esta, em vez de tentar a reeleição para o Senado gora pelo PV, preferir um vôo solo na escala da presidência. A qualificação não poderia ter sido melhor para o governador de São Paulo que, tacitamente na opinião de Lula, forma na categoria de centro ou até de centro-esquerda. Livrou-se do estigma da direita, embora, é claro, receba os votos dos direitistas que Lula abomina. Na sua coluna de sexta-feira, 18, com o estilo de sempre, Dora Kramer, O Estado de São Paulo, tocou no assunto. Mas sob outro prisma. Ela condenou mais a exacerbação do que a colocação ideológica ao lembrar que na campanha de 2008 pela Prefeitura da capital paulista, Marta Suplicy exacerbou-se em relação a Gilberto Kassab, mas nem por isso assumiu a conotação direitista. Mas quem são os direitistas e os esquerdistas, já que quase todos hoje se apresentam como de centro?

Num ensaio muito bom que está para ser publicado no site da Tribuna da Imprensa, o conselheiro aposentado do Tribunal de Contas – RJ, Humberto Braga ilumina a questão inclusive com exemplos marcantes de várias épocas da história. Os esquerdistas são os que desejam mudança na estrutura social e econômica com a valorização do trabalho humano e mais justa distribuição de renda. São os reformistas, já que os revolucionários desapareceram do mapa. Encontram-se em uma simples qualificação. Não ameaçam a propriedade, como os revolucionários de 17 na Rússia, de 49 na China e de 59 em Cuba. Projetam o pensamento, muitas vezes utópico para um novo equilíbrio no percurso humano. Sonham com a redistribuição justa dos efeitos do progresso. Difícil. Mas o que seria da vida dos povos não fossem as utopias e os sonhadores? Talvez de degrau a degrau os utópicos tenham conquistado vitórias irreversíveis. O Direito do Trabalho, no Brasil, de 1943, é um exemplo concreto.

E os direitistas? São eles os conservadores e os reacionários. Os conservadores, como o nome está dizendo, querem conservar as estruturas que resistam ao tempo. A derrota dos salários diante da inflação, eis um caso palpável. Que inclusive sucedeu durante oito anos do governo Fernando Henrique. A vantagem que Lula obtém para sua forte popularidade não está no corte de cabelo, na barba bem aparada, ou nos ternos Armani. Está em ter colocado em prática uma política que pelo menos faz com que os salários não percam para as taxas do IBGE. No caso do mínimo, bem mais que isso. As atualizações do piso, como se constata, superam a inflação anual. Mas eu falava em conservadorismo e reacionarismo. São os da direita. Os reacionários, interpreta Humberto Braga, são os que, além de conservar, querem até restaurar as cortinas do passado. A escravidão humana, por exemplo, seja ela direta ou disfarçada nos meios rurais brasileiros.

Os conceitos assim de direita e esquerda, com o centro no meio, são eternos. Eleitoralmente não é bom ser considerado da direita. Indiferente, hoje, é ser de esquerda.José Serra escapou da inclusão na direita, retirado dela previamente pelo próprio Lula. Com isso, tem-se a impressão que para ele tanto faz a vitória do governador de São Paulo, de Dilma Roussef ou Ciro Gomes. Como Monte Cristo, de Dumas, pai, seu projeto é retornar em 2014. Pode ser, tem lógica.Hoje.Amanhã não se sabe.

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