A sonhtica Marina Silva

Humberto Braga

Marina Silva, derrotada por um desconhecido na disputa pela liderana de seu partido, declarou que mais sonhtica do que pragmtica. No caso dela, s a palavra novidade. J tivemos um presidente luntico que durou pouco, felizmente. Como seria uma chefe de Estado sonhtica?

Escrevi h anos, num artigo, em O Globo, uma obviedade: virtudes pessoais no implicam necessariamente em qualidades polticas. Lembrei os exemplos de dois reis da Frana: Luis XI e Luis XVI. O primeiro, cruel, traioeiro, corruptor, pelo seu talento poltico unificou o reino ao abater o poder dos grandes senhores feudais. Todos os historiadores reconhecem nele um dos fundadores da Frana moderna. O segundo era um modelo de virtudes pessoais que, pela sua inpcia, contribuiu decisivamente para a derrocada da instituio que representava: a monarquia.

No ano passado, numa onda de romantismo e ingenuidade, Marina Silva recebeu 20 milhes de votos. Esses eleitores confiavam em que seus inegveis merecimentos fariam dela uma verdadeira dirigente nacional. Com aquele capital, Marina, se tivesse um mnimo de competncia poltica, poderia no apenas afastar a atual direo do seu partido, como tambm fortalec-lo, faz-lo crescer, torn-lo mais importante e influente na vida pblica do pas. Mas foi melancolicamente derrotada por um correligionrio annimo.

A atividade poltica, por definio, luta pelo poder. Liderana quer dizer capacidade de comando. E o coroamento da luta o xito. Este, na histria, foi alcanado pelos protagonistas que formularam seus projetos com base num lcido sentido de realidade. Mas a idealista Marina oferece um exemplo comovente de contradio Realpolitik: a Sonhaticopolitik. Esse o caminho que ela aponta para os seus seguidores: a vitria no importa, importante o sonho. Vamos viver dele.

Humberto Braga conselheiro
aposentado do TCE-RJ

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