A aleluia do Supremo

Sebastião Nery

Simpático, elegante, boa conversa, boa gente, ele vivia nos bares, restaurantes, festas, nas chamadas “boas rodas” da sociedade paulista. Um dia, para surpresa dos amigos, cansou, sumiu, desapareceu.

Apareceu agricultor em Valinhos, a 60 quilômetros de São Paulo. Tinha arranjado seis alqueires de terra, conseguiu financiamento agrícola no Banco do Brasil, plantou tudo que dava na região, uma beleza.

De repente, chega a notícia: estava preso a sete chaves numa delegacia de São Paulo. Ninguém sabia.

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ZÉ DO PÉ

Zé Paulo Freire,o Zé do Pé, irmão dos amigos 24 horas por dia, foi lá:

– O que é que aconteceu?

– A roça. Minha roça.  Fui plantando, nos seis alqueires, tudo que dava por lá. Um dia, plantei outra coisa e dei azar.

– Que outra coisa?

– Maconha. E foi um alqueirezinho só.

– E como é que descobriram?

– O diabo dos passarinhos. Os passarinhos comiam as sementinhas e começaram a voar de dorso, de costas, tudo maluquinho, num barato. A vizinha nunca tinha visto passarinho voar de costas, chamou a policia. A polícia apareceu logo. E me levou. Me trouxe para cá.

José Paulo Freire arranjou um generoso e solidário advogado paulista que o soltou. Zé do Pé achava que a “esquadrilha da fumaça” melhorou ali.

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PELUSO

O Supremo Tribunal, em decisão unânime e histórica, afirmou que as chamadas “Marchas da Maconha” são legais, pois não se pode proibir a realização de protestos ou caminhadas em prol da descriminalização do uso de drogas. O Estado não pode proibir a livre manifestação dos cidadãos:

– “A manifestação é um direito e não apologia ao crime”.

1. – O então presidente do STF, ministro Cezar Peluso, disse no seu voto :

– “O governo não pode proibir expressões verbais ou não verbais apenas porque a sociedade as repute desagradáveis, ofensivas e contrárias ou incompatíveis com o pensamento dominante.”

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 TODOS

2. – O relator, ministro Celso de Mello : – “Nada se revela mais nocivo e perigoso que a pretensão do Estado de proibir a livre manifestação O pensamento deve ser livre, sempre livre, permanentemente livre”.

3 – Ministro Marco Aurélio Mello: “Liberdade de expressão não é apenas o direito de falar aquilo que as pessoas querem ouvir. A liberdade existe para proteger manifestações que incomodam agentes públicos e privados, capazes de mudar opiniões.”

4 – Ministro Ayres de Britto : “Nenhuma lei pode se blindar contra a discussão de seu conteúdo, nem a Constituição está livre de questionamento. É lícito discutir qualquer tema. Tudo é franqueado ao ser humano no uso de sua liberdade de pensamento.”

5 – Ministra Ellen Gracie: “Sinto-me aliviada de que a minha liberdade de pensamento esteja garantida”.

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MARINOR

A decisão do Supremo, lúcida e oportuna, em 2011 chegou a tempo, na hora em que o Conselho de Ética da Camara, numa patuscada, só para fazer charme com partidecos histéricos e ONGs vadias, acusava de “falta de decoro” e propunha punições ao deputado Jair Bolsonaro, do Rio, por “ofensas à senadora Marinor Brito, do Pará, e declarações homofóbicas”.

É a historia de gol de mão ou em impedimento. Depois que se inventou a filmagem, a gravação, não adianta conversa fiada. É rever o fato.

O deputado estava distribuindo nos corredores do Congresso um folhetim contra uma cartilha do Ministério da Educação sobre  “homossexualismo e pluralidade sexual”, que a senadora defendia como “ensino nas escolas” e ele acusava de ser  “defesa do homossexualismo nas escolas”.

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BOLSONARO

A TV mostrou tudo na hora : em determinado instante, ela avançou sobre o deputado, empurrou-o, deu-lhe um tapinha na mão, tomou o boletim, chamando-o de “homofóbico”. Ele respondeu que ela era “heterofóbica”.

Longe de chegarem aos tapas. Tudo conforme o Supremo defendeu como “liberdade de expressão”, que é sagrada. Não é por achar que a cartilha da  Marinor está certa e o boletim do Bolsonaro errado, que vou querer cassá-lo. Para mim, muito mais grave é ele continuar defendendo o golpe de 64.

Estão querendo repetir a velha piada do francês, de volta de Londres:

– Na primeira vez em que fui lá, o homossexualismo era proibido. Na segunda, já era tolerado. Não volto lá, com medo de agora virar obrigatório.

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