A Amazônia devastada não começou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlântica

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Primeiro bem explorado na colônia foi o pau brasil

Sebastião Nery

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele. Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

SUBGERENTE – Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o subgerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506. Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

VEIO O PEREIRA – Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira. Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

OS TUPINAMBÁS – O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : – “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

– “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”. (Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas).

PORTO SEGURO – Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

SAQUEANDO – Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”. A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.

5 thoughts on “A Amazônia devastada não começou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlântica

  1. Infelizmente a verdade anda longe dessa gente que insiste em acreditar em suas convicções.

    Diagnósticos sobre questões que dependem de especialistas descompromissados com posições políticas , ideológicas ou econômicas são raríssimos.

    • “A História: manufatura de ideais…., mitologia lunática , frenesi de hordas e de solitários …., a recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções …………” (Cioran)

  2. Sr. Nery
    Que refrigério ler sua coluna!!Abdicara há muito de qualquer leitura jornalística, temendo “emburrecer”.
    Voltei ao silêncio após a perda de meu amado com quem dividi sonhos e planos há 54 anos e mergulhei nos clássicos relendo-os às vezes e meditando outras.
    O clímax que me deixou apoplética foi uma jovenzinha muito bonitinha e muito burrinha, cônscia de seu saber que noticiou algo a respeito desta oportuna “pandemia” frisando em HORÁRIO NOBRE que o Chile e o Equador NÃO faziam parte da AMÉRICA DO SUL…E repetiu com grande ênfase esta brilhante assertiva. Meus batimentos cardíacos aceleraram-se e recorri ao velho Lexotan. Outrossim o esclarecido Luciano Huck em seu programa, com o desembaraço que lhe é peculiar pensou e pensou para responder com qual oceano o Mar Mediterrâneo se comunicava…Concluiu que era com o Oceano Ártico…Assim fui desistindo de ler. Minhas convicções políticas são arraigadas e privadas. Não as discuto com ninguém, sobretudo depois que o d.Sebastião de Garanhuns resolveu dar palestras pelo aí. De religião então fui me abstraindo e mantendo apenas a boa orientação do 1o. Catecismo da Doutrina Cristã. Já me atrevi a escrever para o Jornal da Record, suplicando que a linda e desembaraçada nissei (ou issei) que fala do tempo aponte os Estados no local certo. Meu nordeste sempre vai parar na Cordilheira dos Andes…Como possuo duas criaturinhas que se revezam em me ajudar devido à minha dificuldade de caminhar, todas as noites levanto-me com dificuldade, arranjei um bastão e lhes ensino ONDE ficam sua Paraíba e Pernambuco, que também acabam localizados no Chuí. Será que terei êxito? Estou “dividindo o pão da instrução, como manda a Santa Madre Igreja… Bem, foi uma alegria inenarrável acompanhar seus escritos, mesmo aqueles da “esquerda” que abomino. Imagine uma amazônida como eu, ouvir Leonardo di Caprio dar opiniões sobre NOSSA Amazônia e ver tantas “boas almas” estrangeiras, desinteressadas, preocupadas com os elefantes e girafas da nossa jungle morrendo carbonizados e os coalas e cangurus do Pantanal virando churrasco, coitados. Estou pensando seriamente em me candidatar como voluntária para apagar os incêndios da Califórnia e da Austrália.
    Saúde e paz
    Magdala Costa, brasileira nordestina de sete costados e AMAZÕNIDA por convicção. SELVA!!

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