A Argentina chora suas mulheres

Helio Fernandes

Enquanto o Brasil confirma amanhã a “preferência” por uma mulher sem charme, carisma, competência, sem passado (escondido), sem presente (é apenas o poste de Lula), sem futuro (é a antecipação da incerteza mais completa), a Argentina se orgulha das três que dominam sua História.

Evita Perón, idolatrada, eternizada na vida curtíssima, é lembrada para sempre. Foi um marco na vida de Perón, ia dividir a participação no Poder com o marido. Candidata a vice, não pôde ser registrada por circunstâncias eventuais, teve mais Poder popular do que se tivesse sido eleita.

A manifestação pela morte de Evita emocionou toda a Argentina, elevou o sentimento e a grandeza do povo, eternizou-a. É lembrada com carinho, amor e generosidade.

Enquanto Evita era só desprendimento, estamos “elegendo” a primeira mulher da nossa História. Mulher que se refugia no ódio, no rancor, na perseguição e na violência. O que poderemos esperar de toda essa indignidade, e do espírito de vingança?

Perón é uma tal referência na Argentina, que lá, todos os partidos são peronistas. De esquerda, centro ou direita, não deixam de colocar na legenda e no rótulo, o nome do presidente várias vezes. Passados muitos anos da morte de Evita, Perón, já casado com Isabelita, se candidata novamente, colocando a mulher como vice.

Eleito com grande facilidade, a Argentina atravessava novo período de prosperidade. Mas Perón morre em julho de 1974, em plena Copa do Mundo da Alemanha, véspera do jogo Brasil-Argentina. Assume sua mulher e sua vice, Isabelita. Mas governaria apenas 2 anos.

Em 1976, os generais já não agüentavam ficar longe do Poder, derrubaram Isabelita, implantaram a ditadura sangrenta, cruel, selvagem. Que em comparação com a nossa, teve a “vantagem” de durar apenas 7 anos, terminaria em 1983, com impunidade geral e absoluta de todos os generais.

Precisamente 20 anos depois, em 2003, é eleito Nestor Kirchner com a Argentina numa situação econômico-financeira desesperada, toma providências que fazem o grande país recuperar suas condições positivas, e deixar o fundo do poço.

Mas Kirchner não era apenas um grande político e administrador. Era um cidadão que reverenciava seu país, tomou providência para punir os carrascos da democracia na Argentina. Todos foram exemplarmente punidos. Alguns morreram na prisão, outros estão ainda e justamente encarcerados.

A viúva de Kirchner, eleita por ele em 2007 e já cogitada para a reeleição em 2011, mostrou a grandeza das mulheres na política do país. Estóica, heróica, silenciosa, ficou praticamente 24 horas ao lado do marido morto, estava com ele quando morreu. Não saiu dali, não conversou, ninguém se atrevia a chegar perto dela, interromper a manifestação de dor e o sentimento de ausência, que não era apenas dela.

A Argentina cumpria o destino de chorar sem espetaculosidade, em silêncio e com uma determinação que só faz aumentar a grandeza, o desprendimento, estendendo o sentimento de perda, mas sem transforma-lo em espetáculo de vulgaridade.

***

PS – No velório do ex-presidente, não apenas a individualidade do sofrimento das mulheres que tanta importância tiveram na vida política da Argentina.

PS2 – Presentes, coletivamente, as “mães da Praça de Mayo”, que iluminaram um período de tanta escuridão na Argentina.

PS3 – Não choravam. Se despediam de Kirchner, agradeciam ao homem e o presidente que teve a grandeza de compreender, sentir e agir para punir os carrascos,

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