A atual eleição presidencial à luz da história antipovo do país

Leonardo Boff

Nada melhor do que ler as atuais eleições à luz da história brasileira – na tensão entre as elites e o povo.

Como nos ensina Caio Prado Júnior, nossa formação social desigual repousa sobre quatro pilares difíceis de ser movidos: a grande propriedade da terra concentrada nas mãos de poucos; o predomínio da monocultura; a produção voltada para o mercado externo; e o regime de trabalho escravo.

A independência de Portugal não alterou nenhum desses pilares. Os que naquela época sonharam com um Brasil diferente propunham a troca da grande pela pequena propriedade nas mãos de quem trabalhava; da monocultura para a policultura; da produção para o mercado internacional por outra voltada para o autoconsumo e para o abastecimento do mercado interno; do trabalho escravo pelo trabalho familiar livre.

Houve geral oposição dos grandes proprietários escravistas a qualquer dessas medidas, e foram combatidos a ferro e fogo levantes populares que apontavam para qualquer medida democratizante na economia, na política e, sobretudo, nas relações de trabalho. Basta rememorar algumas dessas revoltas: a Balaiada, no Maranhão; a Cabanagem, na Amazônia; a Praieira, em Pernambuco; e a Farroupilha, no Sul.

A ERA VARGAS 

A Revolução de 1930, com seu viés nacionalista, mesmo que parcialmente, deslocou o eixo do país do mercado externo para o interno; do modelo agrário exportador para o de substituição de importações; do domínio das elites exportadoras do café do pacto Minas-São Paulo para novas lideranças das zonas de produção para o mercado interno; do voto censitário para o voto universal (menos para os analfabetos); das relações de trabalho ditadas apenas pelo poder dos patrões para a sua regulação, pelo menos na esfera industrial, com a criação do Ministério do Trabalho e das leis trabalhistas voltadas para a classe operária.

Getúlio Vargas implantou uma política corporativista de apaziguamento entre as classes e de cooperação entre capital e trabalho, entre operários e capitães da indústria em torno de um projeto de industrialização e defesa dos interesses nacionais.

Nesta campanha eleitoral, certos meios criaram o lema “Fora PT”. Busca-se acabar com a “ditadura” do PT para instaurar a “ditadura” do mercado financeiro. O que realmente incomoda? A corrupção e o mensalão?

MEDIDAS DEMOCRATIZANTES

A meu ver, o que incomoda, em que pesem todos seus limites, são as medidas democratizantes, como o Prouni e as cotas nas universidades para os estudantes vindos da escola pública e para aqueles cujos avós vieram dos porões da escravidão; a reforma agrária; a demarcação e homologação em área contínua da terra ianomâmi contra meia dúzia de arrozeiros, assim como todos os programas sociais.

Os que sobem o tom, dizendo que tudo no país está errado, em que pesem a melhoria do salário mínimo, a criação de milhões de empregos, a ampliação das políticas sociais em direção aos mais pobres, a criação do Mais Médicos etc., posicionam-se contra as políticas que visam assegurar direitos cidadãos, ampliar a democratização da sociedade, combater privilégios e, sobretudo, colocar um pouco de freio (insuficiente, a meu ver) à ganância e à ditadura do capital financeiro e do mercado.

São essas as razões do meu voto para outro projeto de país que atende as demandas sempre negadas às grandes maiorias. É por isso que votei em Dilma Rousseff no primeiro turno e o farei no segundo, respeitando outras escolhas.

18 thoughts on “A atual eleição presidencial à luz da história antipovo do país

  1. A função do Frei é perdoar os ladrões, crucificados ou não. Para melhorar a vida de alguém é preciso roubar, montar uma quadrilha, achincalhar com as instituições penais?

  2. Por falar em escravidão, que todos condenamos, o nosso mentiroso de sempre se esquece de que Fidel, a quem ele chama de “meu comandante” escraviza os cubanos desde sua chegada ao poder naquela ilha, que foi transformada em presídio pelo ditador.

    Uma prova cabal disso são os médicos cubanos que estão aqui no Brasil sob a inegável condição de trabalhadores escravos.

    Fato : enquanto os médicos de outros países ganham 10 mil para fazer o mesmo serviço, os cubanos ganham 2 mil. E mais, esses escravos estão proibidos de trazer suas famílias, além de terem sido avisados de que não adianta pedir asilo.

    Por isso tem-se que votar em Aécio, não porque ele vai salvar o país, mas para tirar essa gente comunista do poder que quer fazer do Brasil uma Venezuela ou pior , uma Cuba.

  3. História antipovo.

    Até o Concílio Vaticano II a Igreja Católica era mais comprometida com a Direita … reflexo do:
    1 – “Jesus acrescentou: Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!..”. (Jo 6,70)
    2 – “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda”. (Jo 15,16)

    Durante muito tempo isto foi interpretado e praticado como AUTORIDADE (delegada por Jesus e Papá do Céu) … e não foi dada prioridade à vontade de Jesus – SERVIÇO.

    “24. O discípulo não é mais que o mestre, o servidor não é mais que o patrão. 25. Basta ao discípulo ser tratado como seu mestre, e ao servidor como seu patrão. Se chamaram de Beelzebul ao pai de família, quanto mais o farão às pessoas de sua casa! (Mt 10)

  4. interessante que alguém nascido em Concórdia – SC propague a todos os cantos que os campos e fazendas são todos de uma pretensa elite escravagista. Teto de vidro ou vocês tem uma expressão melhor pro silenciado leonardo cardenali boff?

  5. Tudo que o PT era contra, hoje é a favor, os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro
    como no governo do PT, a dívida interna, já passa de 2 trilhões. dá uma esmola aos
    miseráveis e um banquete aos banqueiros, multinacionais e empreiteiras.
    Criou as cotas para se livrar de melhorar o ensino público (custo alto) que desse condições de
    igualdade todos para concorrer a uma Universidade, essas cotas, ainda lhe garante votos.
    Só cego, vê qualidades em tudo no PT

  6. O Concílio Vaticano II não condenou o Comunismo, apesar deste refletir em sua prática: “A religião é o ópio do povo” (em alemão “Die Religion … Sie ist das Opium des Volkes”) é uma citação da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (em alemão, Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie) de Karl Marx, obra publicada em 1844. Apesar de Marx não ter sido o primeiro a utilizar a expressão, pois citações similares são encontradas em textos do século XVIII, a autoria é com frequência atribuída a Marx.”

    Ao assumir tal posição, a Igreja Católica não aceita ser identificada com políticas essencialmente de Direita … é incentivada a Doutrina Social: “Entre os pioneiros destacou-se o Bispo de Mongúcia, von Ketteler (1865), dentre vários outros clérigos, religiosos e leigos.”3 . Em 1891, Leão XIII sentindo a urgência dos novos tempos e das “coisas novas” promulgou a encíclica Rerum Novarum. A ela seguiu-se a encíclica Quadragesimo anno, de Pio XI em 1931. O beato papa João XXIII publicou, em 1961, a Mater et magistra e Paulo VI a encíclica Populorum Progressio, em 1967, e a carta apostólica Octagesima adveniens, em 1971. De sua parte João Paulo II não foi menos preocupado com o tema da “questão social”, publicou três encíclicas: Laborens exercens (1981), Sollicitudo rei socialis (1987) e, finalmente Centesimus annus em 1991, pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim e da débacle do comunismo na Cortina de Ferro. No entanto, a Doutrina Social da Igreja somente foi apresentada de modo sistematizado e orgânico em 2004 no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fruto de trabalho do Pontifício Conselho Justiça e Paz.”

    citações de wikipedia

  7. A trajetória política de Dom Hélder Câmara reflete esta mudança da Igreja Católica … wikipedia:

    Hélder Pessoa Câmara OFS (Fortaleza, 7 de fevereiro de 1909 — Recife, 27 de agosto de 1999) foi um bispo católico, arcebispo emérito de Olinda e Recife. Foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e grande defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro. Pregava uma Igreja simples, voltada para os pobres e a não-violência. Por sua atuação, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz.
    Biografia
    Décimo-primeiro filho de João Eduardo Torres Câmara Filho, jornalista, crítico teatral e funcionário de uma firma comercial e da professora primária Adelaide Pessoa Câmara, desde cedo manifestou sua vocação para o sacerdócio1 .
    Formação e Presbiterado
    Ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza em 1923, o Seminário da Prainha, então sob direção dos padres lazaristas. Nesta instituição cursou o ginásio e concluiu os estudos de filosofia e teologia2 . Foi ordenado padre no dia 15 de agosto de 1931, em Fortaleza, aos 22 anos de idade, com autorização especial da Santa Sé, por não possuir a idade mínima exigida.1 . No mesmo ano, fundou a Legião Cearense do Trabalho e em 1933, a Sindicalização Operária Feminina Católica, que congregava as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas1 . Atuou na área da educação, participando de políticas governamentais do estado do Ceará na área da educação pública. Foi nomeado diretor do Departamento de Educação do Ceará1 . Para aprofundar seus estudos nesta área, foi transferido em 1936 para a cidade do Rio de Janeiro, então capital da república. Aí dedicou-se a atividades apostólicas. Foi Diretor Técnico do Ensino da Religião.
    Neste período, sente-se atraído pela Ação Integralista Brasileira, que propunha o resgate dos valores de “Deus, Pátria e Família” e declarou em discurso: “Esse programa social da Ação Integralista Brasileira é o maior programa cristão de assistencialismo da história do Brasil.”3 Entretanto, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário ao perceber as implicações ideológicas desta opção2 .
    No Rio de Janeiro, teve como diretor espiritual o Pe. Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do Brasil – a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro2 . No período pós-guerra, fundou a Comissão Católica Nacional de Imigração, para apoio à imigração de refugiados2 .
    Episcopado
    Foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro no dia 3 de março de 1952. Foi ordenado bispo, aos 43 anos de idade, no dia 20 de abril de 1952, pelas mãos de dom Jaime de Barros Câmara, dom Rosalvo Costa Rego, dom Jorge Marcos de Oliveira1 .
    Foi um grande promotor do colegiado dos bispos e da renovação da Igreja Católica, fortalecendo a dimensão do compromisso social2 . Em 1950, D. Hélder entrou em contato com o Monsenhor Giovanni Batista Montini, então subsecretário de estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI, que o apoiou e conseguiu a aprovação, em 1952, para a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com sede no palácio arquiepiscopal do Rio de Janeiro. Nesta instituição, exerceu a função de secretário geral até 19642 . O mesmo monsenhor Montini apoiou a criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), fundada em 1955, com sede em Bogotá. A fundação ocorreu na Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada no Rio de Janeiro, tendo D. Hélder como articulador. Ele viria a participar das conferências gerais do CELAM como delegado do episcopado brasileiro, até 1992: além da conferência do Rio de Janeiro, esteve presente na Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Medellín, 1968), na Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Puebla, 1979) e na Quarta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Santo Domingo, 1992)2 . No CELAM, exerceu os cargos de presidente e vice-presidente.4
    Sua capacidade de articulação torna realidade o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de cardeais e bispos do mundo inteiro2 .
    Em 1956, fundou a Cruzada São Sebastião, com a finalidade de dar moradia decente aos favelados. Desta primeira iniciativa, outros conjuntos habitacionais surgiram. Em 59, fundou o Banco da Providência, cuja atuação se desenvolve no atendimento a pessoas que vivem em condições miseráveis2 .
    Teve participação ativa no Concílio Ecumênico Vaticano II: foi eleito padre conciliar nas quatro sessões do concílio. Foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, um documento assinado por cerca de 40 padres conciliares no dia 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio Vaticano II, depois de celebrarem juntos a Eucaristia2 . Este pacto teve forte influência na Teologia da Libertação.
    Diante da conturbada situação sociopolítica nacional, a divergência de posições com Cardeal Dom Jaime Câmara torna difícil sua permanência no Rio de Janeiro.
    Arcebispo de Olinda e Recife
    No dia 12 de março de 1964 foi designado para ser arcebispo de Olinda e Recife, Pernambuco, múnus que exerceu até 2 de abril de 1985. Instituiu um governo colegiado nesta diocese, organizada em setores pastorais. Criou o Movimento Encontro de Irmãos, o Banco da Providência e a Comissão de Justiça e Paz daquela diocese2 . Forteleceu as comunidades eclesiais de base.
    Estabeleceu uma clara resistência ao regime militar. Tornou-se líder contra o autoritarismo e pelos direitos humanos. Nâo hesitou em utilizar todos os meios de comunicação para denunciar a injustiça2 . Pregava no Brasil e no exterior uma fé cristã comprometida com os anseios dos empobrecidos. Foi perseguido pelos militares por sua atuação social e política, sendo acusado de comunismo. Foi chamado de “Arcebispo Vermelho”. Foi-lhe negado o acesso aos meios de comunicação social após a decretação do AI-5, sendo proibido inclusive qualquer referência a ele2 . Desconhecido da opinião pública nacional, fez frequentes viagens ao exterior, onde divulgou amplamente suas ideias e denúncias de violações de direitos humanos no Brasil2 . Foi adepto e promotor do movimento de não-violência ativa.
    Suas posições políticas lhe renderam pesadas críticas, sendo seu algoz nos meios de comunicação o jornalista e teatrólogo Nélson Rodrigues, que afirmava que “D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”5
    Em 1984, ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia. Em 15 de julho de 1985, passou o comando da Arquidiocese a Dom José Cardoso Sobrinho. Continuou a viver em Recife, nos fundos da Igreja das Fronteiras, onde vivia desde 19682 . Morreu aos 90 anos em Recife no dia 27 de Agosto de 1999.
    Abertura de processo de canonização[editar | editar código-fonte]
    Em 27 de maio de 2014, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Fernando Saburido anunciou que irá enviar uma carta ao Vaticano solicitando a abertura de processo de canonização de dom Hélder. Caso o pedido seja aceito, uma comissão será criada com a finalidade de pesquisar e analisar escritos e documentos que justifiquem o pedido9

  8. Dom Hélder foi de … “Neste período, sente-se atraído pela Ação Integralista Brasileira, que propunha o resgate dos valores de “Deus, Pátria e Família” e declarou em discurso: “Esse programa social da Ação Integralista Brasileira é o maior programa cristão de assistencialismo da história do Brasil.”3 Entretanto, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário ao perceber as implicações ideológicas desta opção2 .” … ao … “Teve participação ativa no Concílio Ecumênico Vaticano II: foi eleito padre conciliar nas quatro sessões do concílio. Foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, um documento assinado por cerca de 40 padres conciliares no dia 16 de novembro de 1965, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio Vaticano II, depois de celebrarem juntos a Eucaristia2 . Este pacto teve forte influência na Teologia da Libertação.”
    … … …
    Podemos considerar como divisor … “Sua capacidade de articulação torna realidade o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, no Rio de Janeiro, que contou com a presença de cardeais e bispos do mundo inteiro2 .” … … … que aconteceu de especial neste Congresso (na época era o grande acontecimento eclesiástico – hoje temos os Encontros com a Família e as Jornadas da Juventude)???
    Os Congressos Eucarísticos Internacionais ainda refletiam um CatolicismoxProtestantismo … pois para a Igreja Católica a Eucaristia é o próprio Corpo e Sangue de Jesus … enquanto para os Evangélicos é simbolismo!!! !!! !!! e o Ecumenismo pós-conciliar procura a união!!!

  9. http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/site/dhc/notempo1936.htm vem com detalhes da vida de Dom Hélder … narra seu relacionamento com cardeais, políticos, meio cultural … … … nele se vai percebendo a mudança na Igreja Católica.

    é interessante pois vai mostrando o que acontece no mundo em paralelo ao que vive Dom Hélder.

    destaco: “1955 – Organizou o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro, realizado entre 17 e 24/07/1955.
    1955 – Como principal responsável pela organização do Congresso Eucarístico, é questionado pelos altos gastos na preparação do evento, o que deixou Dom Helder inquieto. Ao ouvir o apelo do Cardeal francês Gerlier, Dom Helder resolveu dedicar todo o seu talento a serviço dos pobres.”

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