A Bahia de todos os santos e pecados, na visão de Gilberto Freyre

O sociólogo, antropólogo, historiador, pintor, escritor e poeta pernambucano Gilberto de Mello Freyre (1900-1987), além de se consagrar como um estudioso da história e da cultura brasileiras, também dedicou-se à poesia. É bem verdade que aquele que se dedica a ler com atenção seus livros pode perceber o dom literário do sociólogo, cuja habilidade na escrita torna atraentes os temas que aborda em seus estudos, conforme “Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados”.

Segundo Lucia Lippi Oliveira, pesquisadora e profEssora da Fundação Getúlio Vargas – RJ, o poema “Bahia de Todos os Santos e de quase todos os pecados” fala das casas e ruas, das cenas do cotidiano, dos cheiros, das cores, dos rituais, dos letreiros, das personagens. Parece cena descrita ou pintada por um estrangeiro chegando pela primeira vez à cidade, ainda que Gilberto tenha um repertório de saberes que o torna íntimo do lugar.

Ao descrever, explica a professora, Gilberto vai dando sinais positivos e negativos aquilo que apresenta. Esse poema pode também ser considerado como uma das primeiras manifestações contra o bacharelismo, ao mesmo tempo reforça um imaginário sobre a mulata, que terá longa vida e que teve, como representante maior, Jorge Amado, como no trecho: “Eu detesto teus oradores, Bahia de Todos os Santos /Teus ruisbarbosas, teus otaviosmangabeiras /Mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus”.

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BAHIA DE TODOS OS SANTOS
E DE QUASE TODOS OS PECADOS

Gilberto Freyre

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)
Casa trepadas umas por cima das outras
Casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num retrato de revista ou jornal
(vaidade das vaidades! Diz o Eclesiastes)
Igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras)
Toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
Como se dos ventres empinados dos seus montes
Dos quais saíram tantas cidades do Brasil
Inda outras estivessem para sair
Ar mole oleoso
Cheiro de comida
Cheiro de incenso
Cheiro de mulata
Bafos quentes de sacristias e cozinhas
Panelas fervendo
Temperos ardendo
O Santíssimo Sacramento se elevando
Mulheres parindo
Cheiro de alfazema
Remédios contra sífilis
Letreiros como este:
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo
(Para sempre! Amém)
Automóveis a 30 $ a hora
E um ford todo osso sobe qualquer ladeira
Saltando pulando tilintando
Pra depois escorrer sobre o asfalto novo
Que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada
(a terra encarnada de 1500)
Gente da Bahia! Preta, parda, roxa, morena
Cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil
(madeira que cupim não rói)
Sem rostos cor de fiambre
Nem corpos cor de peru frito
Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes
Eu detesto teus oradores, Bahia de Todos os Santos
Teus ruisbarbosas, teus otaviosmangabeiras
Mas gosto de tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus
Tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,
Tudo à sombra das tuas igrejas
Todas cheias de anjinhos bochechudos
Sãojoões sãojosés meninozinhosdeus
E com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que eu
O padre reprimido que há em mim
Se exalta diante de ti Bahia
E perdoa tuas superstições
Teu comércio de medidas de Nossa Senhora e de Nossossenhores do Bonfim
E vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres
Conservadores da fé em vez entregue aos santos
Multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus
Bahia de Todos os Santos
Salvador
São Salvador
Bahia
Negras velhas da Bahia
Vendendo mingau angu acarajé
Negras velhas de xale encarnado
Peitos caídos
Mães das mulatas mais belas dos Brasil
Mulatas de gordo peito em bico como pra dar de mamar a todos os meninos do Brasil.
Mulatas de mãos de anjos
Mãos agradando ioiôs
Criando grandes sinhôs quase aos do Império
Penteando iaiás
Dando cafuné nas sinhás
Enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos
Lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim
Pés dançando nus nas chinelas sem meia
Cabeções enfeitados de rendas
Estrelas marinhas de prata
Tetéias de ouro
Balangandãs
Presente de português
Óleo de coco
Azeite-de-dendê
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
Tomé de Sousa
Tomes de Sousa
Padres, negros, caboclos
Mulatas quadrarunas octorunas
A Primeira Missa
Os malês
Índias nuas
Vergonhas raspadas
Candomblés santidades heresias sodomias
Quase todos os pecados
Ranger de camas-de-vento
Corpos ardendo suando de gozo
Todos os Santos
Missa das seis
Comunhão
Gênios de Sergipe
Bacharéis de pince-nez
Literatos que lêem Menotti Del Picchia e Mário Pinto Serpa
Mulatos de fala fina
Muleques
Capoeiras feiticeiras
Chapéus-do-chile
Rua Chile
Viva J. J. SEABRA morra J. J. SEABRA
Bahia
Salvador
São Salvador
Todos os Santos
Um dia voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro
Às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades ruivos e bons
Aos teus tabuleiros escancarados em x (esse x é o futuro do Brasil)
A tuas casas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema cacau

(Colaboração enviada pelo poeta Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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