A Bela da Neve

Sebastio Nery

RIO – Em dezembro de 1980, a caminho de trs meses na Sibria, chego a Lima, no Peru, s duas da madrugada, depois de cinco horas de voo. Mudo da Varig para a Aeroflot, em um enorme Iliushin-62. O avio cheio l atrs, e s eu na primeira classe, recebido com um conhaque da Gergia, daqueles que Stalin mandava para Churchill.

Cinco horas seguidas, at descer em Cuba. Duas horas no cho em Havana e de novo nos cus. Mais 9 horas at Schenon, na Irlanda. Outras duas horas no cho, o frio roendo os ossos e o voo final de 4 horas at Murmansk, na pennsula de Kola, extremo norte da Rssia, 300 mil habitantes em pleno Polo rtico. Sol forte no cu iluminava o horizonte visivelmente curvo, l em cima, e, de repente, a viso clara, real, inacreditvel, da noite caminhando apressada sobre as nuvens. O avio correndo para um lado e a noite para o outro. E da a pouco o meio-dia anoiteceu com a lua e nuvens rosas, como nas histrias bonitas da infncia.

Engolido em fusos horrios a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Embaixo, a dez mil metros, j era Murmansk e era meia-noite de novo. O aeroporto dormia sob a neve a 10 graus abaixo de zero.

MURMANSK

Era a primeira etapa para a distante Sibria, passando antes por Moscou, Stalingrado (hoje Volgogrado), Novosibirsk, Ikurtski e afinal Vladivostok, fronteira da Monglia. Do avio tinha visto surgir o mundo mgico de Murmansk, a cidade mtica sobre o gelo eterno. Longos TUS/2 turbinas e esguios Iliushin pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos de homens e mulheres, nas cabeas grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegncias. E l em cima, sobre as nuvens,uma lua gorda boiando no cu azul marinho todo estrelado.

A neve caia sem parar, grossa, intensa. Como era possvel os avies chegarem e sarem? Caminhes enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, iam passando e raspando a neve. O avio desce, a neve volta, vem de novo o caminho com sua navalha. Um avio, um caminho, um avio, um caminho. E a neve!

GREENPEACE

Quando meu avio aterrissou era um meigo e longilneo tubo de neve, como doce fantasma arriado sobre o lenol branco. Um caminho se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca: turbinas de velhos avies engatadas nos caminhes lanando jatos de ar.

Da janela do hotel eu ouvia o silencio gelado da noite sem fim e via apenas os blocos negros, como fantasmas, das plataformas de petrleo, uma a uma. E pensava como um povo consegue conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, com tudo coberto de gelo e frio. Rios e lagos endurecem. As ruas e caladas sobem centmetros. Os parques sobem metros de neve acumulada. E preciso ir tirando e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manh, meses diretos. Batalha interminvel. Brinquei com os russos:

– Pensava que vocs tinham ficado livres de Napoleo, que atolou sua invaso na neve das estepes russas. Mas no, todo ano uma guerra, a mesma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, preservando tudo, at a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

– o inverno que nos faz fortes. Ele nos ensina a resistir e esperar.

ANA PAULA

Agora vejo presa, no frio daquela mesma Murmansk de 1980, a bela e valente brasileira Ana Paula Maciel, entre um grupo de 30 empregados da ONG americana Greenpeace, quando invadiam uma plataforma de petrleo da Rssia, em guas territoriais russas. Logo, praticavam uma ilegalidade.

Rubem Braga dizia que a priso a suprema indignidade. Tomara que Ana Paula saia de l o mais rpido possvel. Mas deve saber que o Greenpeace no nenhuma benemrita entidade beneficente. Diz que fazia um ato de protesto contra a explorao de petrleo no rtico. Isto uma fraude, uma farsa. Ele um p de cabra norte-americano que pratica aes pelo mundo a servio de negcios de empresas americanas concorrentes.

Diante das plataformas de petrleo russas, j no rtico internacional, vi l, e Ana Paula certamente viu, dezenas de plataformas da Noruega, Holanda, Inglaterra, EUA (no Alasca).Por que o Greenpeace nunca invadiu nenhuma delas? Por que apenas a russa, a maior concorrente americana?

Ana Paula, a bela da neve, no nenhuma ingnua.Sabe que trabalha para o mal. uma alugada do mal. Obama tambm no sabia de nada.

10 thoughts on “A Bela da Neve

  1. Caro Nery
    Que bom ler a Tribuna de novo e t-lo aqui tambm! Sobre este artigo seu comentrio foi na mosca! a lindinha infelizmente entrou numa fria. os russos no esto de brincadeira e esta tem hora.
    Uma pena.

  2. Os milionrios filhinhos de papai de do tal Green???????? pensavam que l era igual ao Brasil, fazem baderna, quebram invadem e binguem faz nada.
    Agora vo puxar uma cadeia para aprenderem a respeitarem um pais uma nao,

  3. Gostaria que esses ecoterroristas ficassem por l por pelo menos uns dez anos… (ser esse prazo suficiente para o Brasil construir Belo Monte sem a interferncia deles?)

  4. Quanto ao layout…

    O Seytrym est certo:

    -para que um coluna to estreita de letras to pequenas se nas laterais sobram margens laterais?

    -J pensou ler um documento ou um livro com essa distribuio de texto?

  5. Magistral texto. Os econchatos, empata-fodas, a servio daqueles que se julgam
    o novo povo escolhido, que no permitem
    que ningum tenha auto determinao a no ser eles, sejam engolidos para sempre pela
    neve.

  6. As margens das laterais na eventualidade do blog precisar por anuncios., sera necessario! Eu pelo menos acho que esta otimo.
    E melhor assim do que no site antigo do UOL.

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