A bengala do aumento salarial

Sebastião Nery

Quando acabou a Constituinte de 1946, senadores e deputados descobriram que haviam esquecido de fixar seus novos vencimentos para a proxima legislatura, que se iniciava automaticamente. O deputado Artur Negreiros Falcão, do PSD da Bahia, apresentou projeto regulamentando.

Houve uma grita geral. A imprensa caiu em cima. A UDN, sempre fingindo de moralista, acusava o governo Dutra, liderado pelo PSD, de ser o dono do projeto. Acuado, Artur Negreiros recuou e retirou seu projeto.

O baixo clero do Senado e da Camara, que sempre houve, não se conformou. Saiu atrás de um deputado que topasse enfrentar a onça e reapresentasse o projeto. Acharam. Mas ele alegou que iria desgastar-se muito e teria dificuldades para se reeleger em 50. Queria uma compensação.

***
PREÇO

Prometeram-lhe um apartamento. Aceitou e reapresentou o projeto. Mas aos poucos a campanha da imprensa e da UDN, que disfarçava mas queria o aumento, arrefeceu. O apartamento passou para um automóvel.

Aprovado afinal o projeto, não havia mais a promessa do automóvel. Agora era um terno. E nem ele. Na ultima hora, de consolação, deram-lhe uma bengala. Que ele teve que pagar porque não foi paga.

***
MAU EXEMPLO

– “É natural (sic!) que pré-candidatos ligados ao governo sejam beneficiados (sic) nas campanhas e é comum a antecipação de campanhas em anos pre-eleitorais. Quem está mais próximo da lareira se aquece melhor. Culturalmente no Brasil quem é candidato do Executivo leva vantagem na largada… Em ano pre-eleitoral não é fácil separar com nitidez o que é ação de governo e propaganda eleitoral antecipada” (Globo).

Quem disse isso, em 2009, justificando a pré-campanha que Lula fazia por Dilma, não foi nenhum vereadorzinho de periferia. Foi o então excelentíssimo senhor presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), membro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Brito, culto e errado.

Ele podia ao menos poupar Sergipe do vexaminoso mau exemplo.

***
BOM EXEMPLO

Vice-prefeito (de Rio Formoso) pela Arena em 1974 aos 26 anos, prefeito em 1982 pelo PFL aos 34, presidente da Celpe, secretario de Transportes, Comunicação e Energia, candidato a governador pelo PFL em 1986 derrotado por Miguel Arraes do PMDB, presidente nacional do PFL, varias vezes deputado federal a partir de 1990, afinal, já no PTB, foi ministro de Articulação Institucional do segundo governo Lula.

Em 2009, tomou posse no TCU (Tribunal de Contas da União) José Mucio Monteiro, um pernambucano exemplar. Passou por varios partidos e governos e nada se ouviu contra ele. Político não é sinônimo de corrupção. Os corruptos são muitos, são demais. Mas nem todos são.

***
CIRO PIABA

Cada Estado do Nordeste tem seus heróis do cordel. No Ceará, consagrou-se o imortal Patativa do Assaré. Em Pernambuco e na Paraiba, Cego Aderaldo e Lourival. Na Bahia, Cuíca de Santo Amaro.

Hoje, em Fortaleza e em todo o Ceará, o cordelista da hora é Zé Piaba, que está fazendo sucesso com o “Cordel da Dilma” :

– “A mulher, que era emburrada, / anda agora sorridente, /
acenando para o povo, / alegre, mostrando o dente, /
e os baba-ovos gritando : / – É Dilma presidente! /
Mas eu sei que o olho grande / é na montanha de bilhões /
que Lula botou no PAC / pensando nas eleições.
Eu já vi um deputado / dizendo no Cariri /
que Dilma é linda e charmosa / igual não existe aqui.
É capaz de ser mais bela / que a Angelina Jolie”.

De Sobral ao Araripe, do Crato ao Cariri, no Ceará inteiro todo mundo sabe que o autor do “Cordel da Dilma” é o “Ciro Piaba”.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *