A busca de um novo começo para a sobrevivência da Terra

Leonardo Boff

No artigo anterior, abordamos o lado objetivo da questão ecológica, tentando superar o mero ambientalismo a partir de uma nova visão do planeta, da natureza e do ser humano como a porção pensante da Terra. Mas essa consideração é insuficiente se não for completada por uma visão subjetiva. Não basta ver e pensar diferente. Temos também que agir diferente.

Inspira-nos a Carta da Terra, de cuja redação tive a honra de participar. Insatisfeito com os resultados finais da Rio+20, um grupo decidiu fazer uma consulta nas bases da humanidade para levantar princípios e valores em vista de uma nova relação para com a Terra e a nossa convivência sobre ela: “Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo… Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”. E conclui a Carta: “Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a perspectiva de um modo de vida sustentável”.

Note-se que se fala de um novo começo, e não apenas de alguma reforma. Duas dimensões são imprescindíveis: uma mudança na mente e no coração. A mudança na mente já foi abordada no artigo anterior: a nova visão sistêmica, envolvendo Terra e humanidade como uma única entidade.

DIREITOS DO CORAÇÃO

Agora, cabe aprofundar a mudança do coração. Para mim, aqui está um dos nós essenciais do problema ecológico, que deve ser desatado se quisermos mesmo fazer a grande travessia para o novo paradigma.

Trata-se do resgate dos direitos do coração. Toda a nossa cultura moderna exacerbou a inteligência racional até o ponto de torná-la irracional com a criação dos instrumentos de nossa autodestruição e da devastação do sistema Terra. Essa exacerbação difamou e recalcou a inteligência sensível, a pretexto de que atrapalhava o olhar objetivista da razão. Hoje sabemos que todo saber, por mais objetivo que seja, vem impregnado de emoção e de interesses.

Temos que enriquecer a inteligência intelectual e instrumental, da qual não podemos prescindir se quisermos dar conta dos problemas humanos. Mas sozinha ela se transforma em fundamentalismo da razão, que é sua loucura. Diz o filósofo Patrick Viveret: “Só podemos utilizar a face positiva da racionalidade moderna se a utilizarmos amalgamada com a sensibilidade do coração” (“Por uma Sobriedade Feliz”, 2012, p. 41).

Sem o casamento da razão com o coração, nunca nos moveremos para amar de verdade a Mãe Terra, reconhecer o valor intrínseco de cada ser e respeitá-lo, e nos empenhar em salvar nossa civilização. Bem dizia o papa Francisco: nossa civilização é cínica, pois perdeu a capacidade de sentir a dor do outro.

ÉTICA E CULTURA

A categoria central dessa visão é o cuidado como ética e cultura humanística. Se não cuidarmos da vida, da Terra e de nós mesmos, tudo adoece, e acabamos por não garantir a sustentabilidade nem resgatar o que E. Wilson chama de “biofilia” – o amor à vida. Tudo o que cuidamos, também amamos. Tudo o que amamos, também cuidamos.

Para mim, o núcleo da razão instrumental analítica que nos deu a tecnociência, com seus benefícios e também com suas ameaças, deve ser impregnado pelo núcleo da razão cordial e sensível.

Então, seremos plenamente humanos. Sentir-nos-emos parte da natureza e verdadeiramente a própria Terra, que pensa, ama e cuida. Então poderemos crer e esperar que ainda podemos nos salvar sem precisar pensar como Martin Heidegger: “Somente um Deus nos poderá salvar”. Yes, we can.

5 thoughts on “A busca de um novo começo para a sobrevivência da Terra

  1. O Sr. Leonardo Boff, neste caso, tem total razão. O ser humano é como
    uma bactéria nociva, atacando o planeta Terra, deixando-o doente e
    podendo leva-lo a morte. Ainda que houvesse uma grande campanha
    em todos os países, não se conseguiria mudar a mente e o coração de
    todos habitantes do planeta, a vaidade, o egoismo e o apego as coisas
    materiais, não permitiria essa mudança. A história desde o nascimento da
    Terra e seu fim total ou em parte, é irreversível, basta analisar a relação da evolução do ser humano e a destruição do planeta paulatinamente.

  2. Caro Jornalista,

    Mais uma vez terei que discordar dos emaranhados de frases e palavras soltas e desconexas, explanada pelo nobre articulista. Mas como não tenho muito tempo hoje, vou te ater apenas ao título “A BUSCA DE UM NOVO COMEÇO PARA A SOBREVIVÊNCIA DA TERRA”.
    Como costuma dizer o geólogo e professor inglês Ian Stewart, “a Terra não precisa ser salva, quem precisa de salvação é a humanidade, o Homo Sapiens, que tem, aproximadamente, 200.000 anos de existência e que, portanto, surgiu bem depois da formação do planeta”. E deixaremos a vida bem antes dele.

    A mesma analogia pode ser feita sobre o planeta Marte: Marte, um pedregulho de superfície seca, precisa ser salvo? Ora, quem precisa de se preocupar com a salvação são os seres humanos, pois até hoje não se descobriu outra casa para humanidade. Assim como o planeta Marte, a terra continuará, eternamente, girando em torno do sol, mesmo após ser transformada por este em um torrão calcinado.

    A título de curiosidade:
    -As imagens enviadas pela nave-laboratório-robô Curiosity comprovaram que o planeta Marte já teve rios e lagos de água e, atualmente, a nave-laboratório-robô encontrou um local do solo com grande emanação do gás metano que, na terra, é 90% produzido por seres vivos. Dada as circunstâncias, é possível que se ache vida no planeta, mas apenas vida microscópica.
    -O Geólogo Ian Stewart está se popularizando com a tentativa de divulgar a ciência na atualidade, notadamente, a Geologia, e tornar o seu entendimento curioso e simples, da mesma forma que Carl Sagan ousou expandir o alcance da Astronomia nos anos 70.
    Dentre os vídeos dele, acho melhor a coleção “HOMENS DE PEDRA – BBC Men of Rock”, que fala de pessoas que, embora sem os recursos de hoje, conseguiram fazer grandes descobertas apenas com a inteligência, instrumentos toscos e deduções simples e objetivas, mas que explicaram a causa para tudo o que o planeta é hoje e será amanhã e ajudaram a diminuir o número de ignorantes no mundo:
    É possível assisti-la no Youtube, dividida em três partes:
    Parte 01: Tempos Distantes:
    https://www.youtube.com/watch?v=FYfuI2uZLmg
    Parte 02: Movendo Montanhas:
    https://www.youtube.com/watch?v=aWwoNdvDTAw
    Parte 03: A grande Glaciação:
    https://www.youtube.com/watch?v=RIjFP6FJTyc

    Abraços.

  3. O senhor Leo Boff, bem que poderia dizer onde encontramos as tais “ética e cultura humanística”.
    Pode alguém que, não respeita seu semelhante, suas convicções e a verdade enter o que seja “ética e cultura humanística”? Não sei por que, a cada texto deste senhor, me vem a imagem do PT de Lulla/Dillma. Pode ser complexo de inferioridade (meu), mas não consigo desvinculá-los.
    E assim, seja bem elabora ou não, o texto e as idéias nele estampadas, tem merecido de minha parte, muito pouco crédito.

  4. Este senhor alimenta veladamente um sonho de destruição. Destruição do capitalismo que ele acredita ser antinatural, injusto. Acredita na destruição como renascimento, almeja um sistema não sei de que tipo, adotando uma tal ideologia utópica absurda que só ele e seus asseclas conseguem conceber.

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