A canção da despedida, de Vandré e Geraldo Azevedo, antes de se exiliar

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Vandré compunha canções verdadeiramente geniais

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

“Canção da Despedida” é a única parceria de dois Geraldos, dos cantores e compositores  Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, o Geraldo Vandré, paraibano, com Geraldo Azevedo de Amorim, o Geraldo Azevedo, pernambucano.

Para entendermos melhor a letra desta música devemos saber que Geraldo Vandré foi um dos que sentiram fortemente o peso da ditadura militar. E a maior responsável por isso foi sua canção “Pra não dizer que não falei de flores”, ou “Caminhando”, apresentada no III Festival Internacional da Canção, no dia 29 de setembro de 1968. A canção ficou em segundo lugar (perdeu para “Sabiá”, de Chico e Tom Jobim, que receberam a maior vaia de suas vidas), mas foi cantada e recantada pelo público e chamada como a “Marselhesa Brasileira”.


PERSEGUIDO
– O certo é que, após o sucesso estrondoso de “Caminhando”, um verdadeiro hino contra a ditadura, a vida de Vandré tornou-se um martírio. Para se ter uma ideia, Zuenir Ventura faz uma referência a um artigo revoltado de um general, publicado no Jornal do Brasil em 06 de outubro de 1968, com o militar dizendo que a final do Festival da canção contemplara 3 injustiças:

1. Do Júri, ao colocar a música em segundo lugar, desconsiderando a “pobreza” da letra com seus gerúndios e rimas terminadas em “ão”, sem falar da canção em dois acordes. 2. Do público, que vaiou “Sabiá”. 3. De Geraldo Vandré, que se insurgira contra “soldados armados”. Mas neste caso o general dizia que apenas essa terceira injustiça poderia ser reparada.

CLANDESTINIDADE – Antes mesmo de ser proibida oficialmente no dia 23 de outubro de 68, os discos já eram apreendidos, e Vandré vivia na paranoia de ser preso. Medo que se intensificou na sexta feira 13 de dezembro de 1968, quando veio o AI-5, uma das passagens mais vergonhosas da nossa história, que fechava o Congresso, suprimia garantias individuais (como o habeas corpus) e fazia com que a ditadura mostrasse sua faze mais horrenda.

Vandré era advogado, e sabia dos riscos que corria, passou a esconder-se, viver na clandestinidade, mesmo sem saber se ele seria preso ou não, e, como relata Dalva Silveira, no seu livro “Geraldo Vandré: A vida não se resume em festivais (FT Editora), ele passou a planejar a fuga para um autoexílio. Mas, antes de fugir do Brasil, Vandré passou um tempo escondido com ajuda da viúva de Guimarães Rosa.

No período em que estava foragido, uma das pessoas que tinha acesso a Geraldo Vandré era Geraldo Azevedo, que compunha o “Quarteto livre”, banda que o acompanhara na turnê do show “Pra não dizer que não falei de flores”, cujo título, censurado, passou a ser “Socorro – a poesia está matando o povo”.

DESPISTANDO – Geraldo Azevedo disse que, para ver Vandré, tinha que se comportar “como um militante de organização clandestina; entrava num carro, mudava para outro, fazia tudo para despistar pessoas da repressão que pudessem estar me seguindo para, por meu intermédio, chegar a Vandré”.

Nesse clima compuseram em parceria, Vandré e Azevedo, a “Canção da Despedida”, cuja letra é absolutamente clara e explícita.

A primeira gravação de “Canção da Despedida” foi feita por Geraldo Azevedo no LP A Luz do Solo, em 1985, pela Polygram.

CANÇÃO DA DESPEDIDA
Geraldo Vandré e Geraldo Azevedo

Já vou embora, mas sei que vou voltar
Amor não chora, se eu volto é pra ficar
Amor não chora, que a hora é de deixar
O amor de agora, pra sempre ele ficar
Eu quis ficar aqui, mas não podia
O meu caminho a ti, não conduzia
Um rei mal coroado,
Não queria
O amor em seu reinado
Pois sabia
Não ia ser amado
Amor não chora, eu volto um dia
O rei velho e cansado já morria
Perdido em seu reinado
Sem Maria
Quando eu me despedia
No meu canto lhe dizia

5 thoughts on “A canção da despedida, de Vandré e Geraldo Azevedo, antes de se exiliar

  1. Essa Despedida jamais será esquecida de tão linda. Vandré poderia ter feito muitas outras tão lindas, mas preferiu o silêncio.
    “Um rei mal coroado,
    Não queria
    O amor em seu reinado
    Pois sabia
    Não ia ser amado”
    Uma pena que ele tenha se recolhido. Tinha muito talento para compor sobre o que quisesse.

  2. “Em tempo
    Tanto a fazer pelo nosso bem
    Iremos passar
    Mas não podemos nunca esquecer
    De mais alguém
    Que vem
    Simples inocentes a nos julgar
    Perdidos
    As iluminadas crianças
    Herdeiras do chão

    Solo plantado
    Não as ruínas de um caos
    Diamantes e cristais
    Não valem tal poder
    Contos de luar
    Ou a história dos homens
    Lua vaga vem brincar
    E manda teus sinais
    Que será de nós
    Se estivermos cansados
    Da verdade
    Do amor”

    Beto Guedes !
    Este Guedes sim!

  3. Geraldo Vandré, com 83 anos (ele não se importa de revelar a idade), é reconhecido como um grande compositor, Não ficou só em Caminhando ou Para não dizer que não falei de flores (Millôr Fernandes dizia que era a nossa Marselhesa) Disparada, mas muitas outras, como a postada Despedida, Ventania, O Cavaleiro, Hora de Lutar, Fica com Deus e outras.
    Entretanto, depois de uma entrevista que deu depois que voltou do exilio, não reconheci o Vandré. Falando bem dos militares, nunca foi anti-militarista, até fez uma canção FAbiana em homenagem à FAB. Nada esclarecedora sua entrevista.
    Às vezes fico pensando se ele , apesar do talento, era medroso demais, não poderia nem pensar em ser torturado. Fazia qualquer coisa para não passar por esse sofrimento. Não vejo outra explicação. Deus me perdôe se eu estiver sendo muito dura com ele, mas eu mesma, sou um pouco assim, muito covarde para enfrentar dores físicas.
    Mas continua sendo uma glória para nossa MPB.

  4. Num festival da TV Record “Disparada” empatou com “A Banda” do Chico. Chico se negou a receber o prêmio porque para ele “Disparada” deveria ser a vencedora. Ai resolveram dividir o prêmio.
    Em outro festival, os militares não queriam que a música do Vandré – Para não dizer que não falei de flores = fosse a vencedora. Entao o primeiro lugar foi para o Sabiá do Chico/Tom, que receberam uma tremenda vaia. Vandré então interferiu” “Gente, sabe o que eu acho?… Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda merecem o nosso respeito. (…) A vida não se resume a festivais”. O público vaia e fala em “marmelada”. No “júri” do povo, “Caminhando” era a grande vitoriosa. Tom Jobim teve de sair pelos fundos, chorando.

  5. Geraldo Vandré passou a ser o maior amigo da FAB! Fez muito bem, porque a FAB é uma instituição valorosa, verdadeiro motivo de orgulho para o país! Estão aí o ITA e a EMBRAER para provar o que estou afirmando !

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