A cebola da Hitler

Sebastião Nery

Manfredo tinha 40 anos, como eu. Era professor de latim, como fui. Sabia português, francês, italiano, espanhol, como eu. E ainda falava inglês como um lord de Sua Majestade e alemão como um filho orgulhoso da Baviera. Intelectual, professor, cidadão do mundo.

Tinha tudo para ser um homem sem preconceito. Mas quando insisti para que me levasse à cervejaria de Hitler, em Munique, desconversou, adiou e acabou jogando o argumento final:

– Não adianta. Não tem mais interesse nenhum. Hoje é apenas uma casa de bêbados tomando cerveja com steinhaeger e de putas.
E não me levou. Fui sozinho. Era meu interprete na longa viagem que fazia pela Alemanha, na primavera de 1973, a convite do SPD, o partido social-democrata do heroico primeiro-ministro Willy Brandt.

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MANFREDO

Manfredo não era contra os bêbados e as putas. Era contra o passado. Pouco valeram os anos vividos em Paris, o curso em Lisboa, as viagens pelo mundo. Em matéria de Hitler, Manfredo era um radical. Nasceu no ano em que Hitler chegava ao poder. Quando os campos de concentração engoliam gente como esgotos de gás, Manfredo tinha 10 anos e viu sua Munique, sua Baviera, sua Alemanha estuprando a humanidade.

Para Manfredo, a sua geração tinha uma missão sagrada : fazer a Alemanha esquecer Hitler e fazer o mundo esquecer a Alemanha nazista.

Já em 73 a metade da população alemã era de gente como Manfredo, e mais jovens do que ele, que nenhum contato tiveram com o nazismo. A Alemanha se vê diante do passado nazista como depois de um sonho mau.

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PASSADO

Os mais velhos são “lulistas” : é como se não morassem ali, não tivessem sabido de nada: – “Não sei, não vi, não tomei conhecimento”. E no entanto mais de 80% apoiaram Hitler calorosamente, política e militarmente. O então prefeito de Frankfurt, eleito pela CDU (direita), Wilhem Fay, com seus cabelos brancos e rosto aberto, levou um susto e ficou todo encabulado e ainda mais vermelho, quando lhe perguntei, no almoço que tão gentilmente me ofereceu, onde estava durante a guerra :

– Saí vivo, por isso estou aqui. Era presidente de um banco, a Marinha me mandou lutar na Grécia, nos Bálcãs, até a guerra acabar. Depois, me liguei aos ingleses. (A Marinha era a de Hitler).

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GUNTER GRASS

A Alemanha estremeceu, como em um terremoto, com o belo, audacioso e honrado livro de memórias de Gunter Grass (“Nas Peles da Cebola”,Ed. Record), o consagrado premio Nobel de Literatura, autor de “O Tambor”, “Um Campo Vasto”, “Meu Século” e outras obras primas.

Eu o conheci em outubro de 80, acompanhando as três ultimas semanas da campanha eleitoral para escolher o novo governo, mais uma vez a convite do SPD social-democrata, já então liderado por Helmult Schmidt. Eramos uma comissão de representantes de partidos brasileiros: Ulysses Guimarães (PMDB), José Aparecido (PP), Jacó Bittar (PT) e eu (PDT). E mais o saudoso jornalista mineiro-paulista Miguel Bodea, tradutor

Em um almoço, Gunter Grass nos deu seu depoimento sobre a guerra, sempre lembrando que era apenas um jovem entre 15 e 18 anos, convocado para treinar na Força Aérea. Entrava e logo pulava fóra do assunto.

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NAZISMO

Agora, Gunter Grass cumpriu seu dever de intelectual. Contou tudo :

1. “Me deixei seduzir pelo nazismo. Não é desculpa ou pretexto e sim uma explicação. A juventude hitlerista exercia uma atração tremenda e um poder de sedução impressionante. E nós nos deixamos fascinar sem fazer perguntas. Esta é a explicação que posso dar hoje”.

2. “Eu fui, sim, na condição de jovem hitlerista, um nazista jovem. Crente até o fim. Não exatamente um fanático da vanguarda, mas como olhar voltado para a bandeira, da qual se dizia que era “mais do que a morte”.

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“DEPOIS É ANTES”

3. “O fuhrer no qual acreditávamos, não, no qual eu acreditei de um modo inquestionável e sem duvidas, até que tudo, conforme a canção sabia de antemão, “caiu em cacos”. A fim de atenuar o que os jovens fizeram e, portanto, o que eu fiz, não pode nem mesmo ser dito : nós fomos seduzidos! Não, nós nos deixamos, eu me deixei seduzir”.

4. “Depois é sempre antes…Os moradores (acabada a guerra) faziam de conta que não existiam, como se jamais tivessem existido… Sua grandeza (de Hitler) tantas vezes invocada e jamais posta em duvida, se diluía… Ele (Hitler) havia desaparecido como se jamais tivesse existido, como se jamais tivesse sido real, de fato”.

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AMORIM

Querem fazer de conta que Hitler nunca existiu, como fazem judeus fanatizados ou idiotas abestalhados. O passado não é bolha de sabão, que sopra e acaba. A historia tem que ser lembrada, relembrada, revirada, cobrada.

Quiseram crucificar o ministro Celso Amorim porque citou Goebbels (“a mentira mil vezes repetida vira verdade”), como se isso ajudasse a ressuscitar Hitler. Se alguém no Brasil sempre teve autoridade para falar de nazismo foi o venerando Paulo Ronai, exilado de sua pátria pelo nazismo.

E no seu “Dicionario Universal de Citações” cita não Goebbels mas Hitler:
“As grandes massas do povo são mais facilmente vitimadas por uma mentira grande do que por uma mentira pequena” (“Minha Luta”).

(Artigo republicado por sugestão do comentarista Christian Cardoso)

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