A China de Humberto Braga

Sebastião Nery

RIO – Leopoldo Braga foi um grande poeta baiano. Humberto Braga, seu filho, fecundo intelectual baiano. Professor de Filosofia e Direito, foi secretário e principal cabeça do governo Negrão de Lima, na antiga Guanabara. Depois, ministro e presidente do Tribunal de Contas do Rio.

“Um imenso mural”

Mas foi sobretudo um homem de cultura. Em 1976, quando a China ainda não havia invadido o Ocidente com sua milenar sabedoria e capacidade de trabalho, produção e criatividade, e era apenas um distante, longínquo e misterioso dragão do Oriente, Humberto Braga esteve lá e previu o que só agora, décadas depois, estamos vendo e sabendo.

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“ORIENTE VERMELHO”

Na volta, publicou denso e primoroso livro de viagem, editado pela Civilização Brasileira: “ O Oriente é Vermelho”. Os livros de viagens vadias costumam ser vadios, às vezes supérfluos, muitas vezes inúteis. O de Humberto era um modelar roteiro sobre a China, que calorosamente saudei aqui, 30 anos atrás, porque, tendo lá estado anos antes, não havia percebido detalhes fundamentais nem os encontrara em outros livros.

Luis Alberto Bahia, tambem sábio, em prefácio definiu bem o livro:

– “É um imenso mural sobre a China”.

Para entender os mistérios daquela terra e gente que a cada geração surpreende e espanta o mundo, inclusive agora, com uma estranhíssima e alucinada política econômica e internacional inteiramente contrária a tudo que se sabia da China, é preciso sobretudo buscar desvendar seus segredos em seus clássicos, de Confúcio a Lao Tsé, Chuang Tsé, Sun Ya Tsen e Mao Tsé Tung. E. Humberto Braga nos deu um painel admirável da velha e nova sabedoria chinesa,que reli agora ruma reedição do “Circulo do Livro”:

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SABEDORIAS

1. – “Quem escuta os dois lados terá o espírito esclarecido. Quem só escuta um permanecerá nas trevas”. (Wei Tcheng, para os militares não quererem ficar sabendo apenas das próprias versões de suas violências).

2- “As palavras corretas nem sempre são agradáveis. As palavras agradáveis nem sempre são corretas”. (Lao Tsé, para nós todos jornalistas).

3.-“O homem de sabedoria foge ao primeiro sinal de governo, vivendo o mais afastado possível dos filósofos e dos reis”. (Chuang Tsé, para a Universidade brasileira, excessivamente elitista e governamental).

4.-“Não é por receber o inimigo que se começa a adotar sua linha”. (Mao Tsé Tung, para os que criticam os encontros de Eduardo Campos).

5.-“Com os anos, a não ser a China, tudo passa”. (Eça de Queiroz).

Mais espaço houvera, mais a China eu citaria.

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“A NUVEM”

Dias atrás, recebi um afetuoso e gratificante bilhete de Humberto: :

– “Meu caro Nery,

Graças à minha condição de aposentado, pude, em 72 horas, altear-me nas 600 paginas de seu “A Nuvem – O Que Ficou do Que Passou”. Como crônica política da segunda metade do século 20 no Brasil, não conheço nada mais brilhante e absorvente. Numa tímida tentativa de retribuir ao prazer que me deu, estou lhe enviando os textos em anexo:

1 – “Um depoimento pessoal sobre a cassação de Juscelino

(“Juscelino e a Revolução de 64”), que incluí nesse livro “Juízo e Circunstância” (Editora Civilização Brasileira, 1988), onde também, entre outros, publiquei estudos como “Diagnóstico da Direita”, “Gandhi e a Não Violência”, “Bolívar e o Destino da América Latina”, “Alceu Amoroso Lima Homem Símbolo”, etc.

2 – “Quatro Grandes Mitos Humanos: Prometeu, Dom Quixote, Fausto e Carlitos o Vagabundo”.

Com o afetuoso abraço do Humberto Braga”.

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ADEUS

Cada encontro com Humberto Braga, sobretudo nos jantares da “Forneria”, na Lagoa, era uma alegria e uma aula de sua incansável cultura.

Na última sexta-feira, cheguei do Nordeste e recebi a notícia de que meu dileto amigo viajara, e para sempre, na minha ausência. 85 anos.

sebastiaonery@ig.com.br

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