A corrupção e as relações de poder: é preciso desprivatizar o Estado

Roberto Barbosa

O ex-presidente Fernando Collor de Mello tinha um tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, que obtinha dinheiro de fornecedores para pagar despesas pessoais do chefe. O governador do Rio, Sérgio Cabral, tem um empreiteiro amigo, Fernando Cavendish, com inúmeros contratos milionários no Estado, alguns com dispensa de licitação. O dois têm o costume de viajar para se reunir em jantares no exterior e, antes do caso vir à tona, mantinham relações que atingiam cumplicidades inimagináveis.

Esta promiscuidade explica um vício do Brasil republicano que tem origem no Brasil colônia. O patrimônio público no país continua sendo confundido com o privado, ao ponto de empreiteiros viverem custeando jantares e despesas em troca de obras públicas. A lei 8.666, que deveria disciplinar as licitações públicas, é um faz de conta. Aliás, o custo real dos jantares é muito mais salgado do que o preço de um rega bofe em Paris.

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DIGITAIS DA CORRUPÇÃO

Não é tão difícil identificar corruptos na administração pública. Basta analisar a evolução patrimonial, mesmo que os bens estejam em nome de laranjas. É saudável que numa democracia a imprensa tenha liberdade e as redes sociais funcionem como receptoras de denúncias, porque são os canais que mobilizam a opinião pública contra as relações da coxia.

A promiscuidade lastreou-se por todos os níveis, de forma que se tornou comum alguns governantes pagarem aquisições de patrimônio pessoais com dinheiro público sem fazer qualquer baldeação. Em Cambuci, cidade do Noroeste Fluminense, a história do ex-prefeito Pedro Mendes (PP), ganhou destaque no anedotário político regional.

Ao ser procurado em seu gabinete por um credor que lhe vendera uma fazenda para receber em parcelas, Mendes justificou o atraso do pagamento das prestações afirmando que prefeitura ainda não havia recebido dinheiro dos royalties. O município, um dos mais pobres do Noroeste, está situado na faixa de limítrofe.

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PARIS É UMA FESTA

Em Quissamã-RJ, cidade do Norte Fluminense, a justiça bloqueou parte dos bens do prefeito Armando Carneiro (PSC) e da primeira dama, Alexandra Moreira. Em 2008, juntamente com alguns secretários da prefeitura, o casal foi comemorar a reeleição em Paris. As despesas, conforme denunciou o Ministério Público, foram custeadas com dinheiro da prefeitura. Como se vê, parece que a capital francesa exerce um fascínio sobre a sarjeta que chega ao poder.

Na cidade de São Francisco de Itabapoana, que tem o menor IDH do Estado do Rio, o prefeito Beto Azevedo (PMDB), um ex-pedreiro que exerceu apenas um mandato de vereador antes da ganhar a prefeitura, tornou-se um homem próspero nos últimos quatro anos. Tem hábitos dispendiosos, como finais de semana no balneário de Búzios, passeios de lancha e adquiriu até um helicóptero para se locomover.

Recentemente foi preso numa operação da Polícia Federal sob acusação de desviar recursos do Sistema Único de Saúde por meio de contrato com uma clínica privada. O contrato permitia a realização de exames nos pacientes da rede pública, mas o número de beneficiados ultrapassou a população da cidade.

A corrupção evolui como uma doença degenerativa na administração pública. O Estado se tornou uma possessão de quadrilhas organizadas, o que torna o poder público uma propriedade de poucos. Chegou o memento em que a sociedade precisa lutar pela desprivatização do Estado. As máfias brasileiras, que se  servem do que é publico, deixam as máfias italianas no chinelo. É agora ou nunca: estanca-se a corrupção ou ela vai acabar o país.

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