A crise e a disputa entre os principais agentes econômicos

Carlos Frederico Alverga

O que está acontecendo, em nível nacional, é uma briga de agentes econômicos importantes pelos recursos do orçamento público. Identifico quatro agentes principais:

1) os rentistas, que vivem do rendimento dos títulos da dívida pública mobiliária federal, entre os quais se situam os bancos e as instituições do mercado financeiro, que defendem a taxa de juros Selic elevada e um robusto superávit primário;

2) o setor produtivo brasileiro, receptor dos financiamentos do BNDES, única instituição financeira brasileira que fornece financiamento de médio e longo prazo para as empresas no Brasil a 5,5% ao ano (os bancos privados nacionais não financiam porcaria nenhuma, só auferem os lucros financeiros de aplicar em títulos da dívida pública federal remunerados pela taxa Selic);

3) os beneficiários das políticas sociais do governo, que recebem o Bolsa Família, são beneficiário do “Minha Casa Minha Vida”, da Caixa Econômica Federal, do FIES (crédito educativo do Banco do Brasil), do “Mais Médicos” etc.

4) a burocracia pública brasileira, valorizada pelos governos do PT de 2003 a 2014.

DESCONTENTAMENTO

A principal razão do descontentamento da elite financeira e midiática que promove a campanha política de desestabilização do governo é o fato de que os recursos que antes eram destinados ao pagamento do serviço da dívida pública, juros e amortizações, proporcionados por altas taxas de juros, deixaram de ser utilizados na remuneração do sistema financeiro e da alta classe média, e passou a ser usado para financiar o investimento do setor empresarial produtivo nacional, por intermédio do BNDES, para custear as políticas sociais de redistribuição da renda, além de estarem sendo usados para valorização da burocracia pública federal.

Devido a isso, a direita neoliberal derrotada nas urnas quer desestabilizar o governo e vencer o pleito no espúrio terceiro turno, além de tutelar a política econômica do partido vencedor da reeleição.

A matriz econômica do primeiro governo Dilma, de juros baixos, câmbio desvalorizado, superávit primário menor e redução do custo da energia, além da desoneração tributária seletiva, não deu os resultados esperados. Mas é só o governo federal voltar a fazer um robusto superávit primário, com juros altíssimos para restabelecer o rendimento dos setores sociais cujos interesses foram contrariados, e este mesmo governo voltará a ser elogiado pela grande imprensa nacional e internacional. Os setores que vão sair perdendo, infelizmente, são o empresariado produtivo brasileiro, o povo pobre, beneficiário das políticas sociais, e a burocracia pública federal.

17 thoughts on “A crise e a disputa entre os principais agentes econômicos

  1. Excelente artigo do Sr. CARLOS FREDERICO ALVERGA, muito bem escrito. Só que, se o Programa da Matriz Econômica do Governo DILMA I, ( Juros Básicos baixos, Câmbio sobre-valorizado, Superavit Primário menor, redução dos Custos de Energia, desonerações Tributárias seletivas) não deram bom resultado, o crescimento Econômico foi pífio e as Contas Nacionais se deterioraram bastante, não tinha o que fazer, se não agora, MUDAR o Programa em DILMA II, sob o Comando do Min. Faz. Sr. JOAQUIM LEVY. Independente de quais Agentes Econômicos perdem ou ganham, não tinha alternativa.
    Mas a Matriz Econômica do Gov. DILMA I, foi suficiente para manter a Demanda Pública e Privada em leve alta, manter o DESEMPREGO baixo, a INFLAÇÃO dentro do teto da Meta, e assim ganhar as Eleições.

  2. Excelente análise dos impasses (e briga de cachorro grande) a que chegou a condução de política econômica do governo Dilma; o texto com fundamentos da “teoria do conflito distributivo” de extração cepalina é conciso e luminoso. Espero que “reacionários” habituais desse blog e viúvas da ditadura militar leiam esse “post” e meditem. Também espero que o autor, retome sua análise, de uma perspectiva histórica recente, da economia brasileira e dar-se conta que o “conflito distributivo” “atual” que esgarça o Orçamento público é desdobramento “natural” da “teoria delfiniana” de “esperar bolo crescer para depois distribuir”. Os planos de estabilização econômica fracassados da década 1980 jogam mais combustível no conflito distributivo… Hoje, entretanto, dada a fragilidade política da presidente Dilma e seu patético ministro Mantega, vê-se que os “atores sociais” citados no texto não tem paciência histórica, querem se abocanhar o quanto antes de parcelas expressivas da Renda Nacional, através da exasperação das Contas Públicas, porém a “fome” de todos é maior que o bolo (Renda Nacional)…

  3. Quando você encontra no texto a palavra “robusto”, certamente é análise de petista.
    Em relação ao conteúdo:
    Queria saber por que a indústria PRODUTIVA nacional está à míngua, se foi investido tanto neste setor, segundo o articulista.
    E como uma máquina pública tão ineficiente e corrupta vai auxiliar o crescimento econômico (que não está existindo), também segundo a sua cartilha de desenvolvimento.
    Existem outros furos na análise, mas é perda de tempo apontar todos.
    O que fica patente é que ele encontra um nexo casual em 4 agentes que não significam crescimento por si só.
    É apenas um manifesto político.

    • Está correta a análise do Sr. Aranha.

      Não adianta o governo continuar com a linha de repasses via BNDES na tentativa de fomentar o investimento privado. Essa política já restou comprovadamente derrotada. Sucumbiu o país a uma armadilha de estagflação. O relaxamento da austeridade da política fiscal em que o governo passou a aumentar seus gastos correntes e transferências de recursos ao setor privado promoveu excesso de liquidez no mercado (excesso de dinheiro em circulação) o que induziu a inflação, forçando o Banco Central a aumentar a taxa básica de juros – a SELIC – que induziu, no mesmo sentido, as taxas de juros interbancárias.

      O resultado é que com as taxas de desconto interbancário infladas pela taxa SELIC, os papéis e títulos de renda fixa ficaram mais atrativos que a maioria dos investimentos produtivos.

      Assim, quem pegou empréstimos no BNDES com os juros subsidiados de 5% ao ano (hoje está em 5,5%), pôde aplicar em títulos DI com rendimentos reais de de 10,53% ao ano, por exemplo, utilizando-se dos próprios empréstimos do BNDES, tomados a 5% ao ano e obter taxa de retorno de 5,3% em cima dos recursos tomados nababescamente.

      Está mais do que comprovado que, se os repasses do BNDES nos últimos 4 anos aumentaram em 2,7%, os investimentos das empresas do setor privado diminuíram exatos 2,7%. Isto é, apesar o governo aumentar os repasses ao setor privado o setor privado respondeu com desinvestimentos. E para onde, então, foram estes recursos?

      Ou foram utilizados pelas empresas como capital de giro, ou foram direcionados, por estes tomadores de empréstimos, ao setor financeiro.

      Diante desta causalidade, esta conjuntura, não adianta o governo continuar levantando a dívida pública e acrescendo a ela este juro absurdo que já chegou a R$260,0 bilhões por ano (taxa implícita de 16,9% ao ano) para repassar às empresas com o Banco Central sendo forçado a aumentar, cada vez mais, a taxa SELIC, e dando ampla vantagem às aplicações financeiras.

      Para retomar o incentivo eficiente e eficaz ao investimento privado a SELIC, que puxa todo o restante dos juros bancários, tem de voltar para uma casa decimal e ir ao encontro, novamente, da menor taxa básica real (descontada a inflação) do mercado.

      E é por isso que se está dando uma ênfase tão grande na retomada do superávit fiscal. Não é simplesmente para garantir o pagamento dos agentes financeiros compradores de títulos públicos. Mas, para que o governo volte a gastar menos do que aquilo que arrecada, tenha a condição de pagar todo o juros da dívida, reduza o montante da dívida pública (não só a dívida mobiliaria federal, mas, a consolidada), enxugue o excesso de liquidez da praça reduzindo as pressões inflacionarias e abrindo espaço para que o Banco Central retome a diminuição da taxa básica de juros, incentivando, então, o investimento do setor privado.

      São condições necessárias à retomada do crescimento da economia nacional.

      Nas palavras do senhor Fuchs: se isso não for feito, “não corremos o risco de melhorar”.

    • Exatamente Axis, simplório é elogio para o texto. Um mínimo, mas um mínimo mesmo, de economia as pessoas poderiam aprender, antes de escrever o que não conhecem ou que teorizam como ideal. O que importa é a prática, a realidade.

  4. Vejo que o texto Carlos Frederico Alverga deixou em desassossego a meia duzia de reacionários, que se pudem, em suas sandices faria o fim da história… Espero que não “morram” de tédio ou raiva pois o Brasil caminha, a despeito da roubalheiras e hipocrisia da direita bestial que tem num Lobão seu “animador” de passeatas na Avenida Paulista, para a democracia social.

    • Realmente, quando faltam argumentos os militantes de aluguel iniciam as agressões taxando (como o PT gosta disso…) as pessoas de reacionárias, fascistas e vai por aí.
      Katia Abreu, Eliseu Padilha, Armando Monteiro, Edinho Araújo, além dos cativos collor, sarney, renan, lobão e a lista é gigantesca.
      Fiquem com seu neo-coronelismo e aprendam a pensar e não apenas papagaiar palavras de ordem.
      O 247 e o DCM está aí ao lado. Basta uma clicada do mouse.

  5. Prezado Sr. CÉSAR ROCHA, Saudações.
    O senhor escreve muito bem, tem muita TEORIA baseada em muita Leitura, mas isso não lhe dá o direito de classificar a maioria dos senhores Comentaristas de de nosso bom T I onLine de Reacionários, viúvas da Ditadura Militar, etc, Direitistas…… sem dizer o PORQUE, em relação ao excelente artigo do Autor, Sr. CARLOS FREDERICO ALVERGA.
    O Autor elencou 4 Agentes Econômicos e concluiu que a Matriz Econômica do Governo DILMA I não deu os resultados esperados, se vê obrigada a mudar de Ministro da Fazenda e voltar ao Tripé Estabilizador, preparando o caminho do crescimento, com isso ganhando um Agente Econômico ( Banqueiros e Poupadores), e perdendo os outros três.
    Comentaristas deram sua opinião, especialmente os brilhantes Srs. JOSÉ AUGUSTO ARANHA e WAGNER PIRES, e o senhor não CONTRA-ARGUMENTOU em nada, mesmo sendo possuidor de tamanha CULTURA.Assim não vale.

  6. Sr. Wagner Pires, parabéns pela sua excelente argumentação. É realmente provável que tenha ocorrido desvio de finalidade nos financiamentos subsidiados do BNDES; em vez de utilizar os recursos baratos da TJLP no investimento produtivo, os beneficiários podem ter tido lucro nas aplicações financeiras indevidas. Quem vai fiscalizar? Para o Caio Efrom vai sugestão de outro artigo simplório: http://jus.com.br/artigos/17920/a-intervencao-do-estado-na-economia-por-meio-das-politicasfiscal-e-monetaria-uma-abordagem-keynesiana

    • Os empréstimos do BNDES serviram, entretanto, para um fator importante e que o governo utilizou incansavelmente em sua propaganda política: para manter estável o número de postos de trabalho do mercado de trabalho brasileiro.

      As contas são do próprio banco de fomento, para quem a cada um milhão de reais emprestados, mantiveram-se 22 postos de trabalho de maneira direta, indireta ou por efeito renda.

      Grande abraço!

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