A crise e a esperança, que precisa continuar existindo

Sandra Starling

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos, no dia 15 último, o pesquisador Pablo Ortellado faz a mais brilhante análise que pude ler sobre a crise brasileira. Ao contrário de alguns, que preferem manter o foco na crise mundial, Ortellado ilumina o que há de mais significativo no caso brasileiro. Segundo ele, nos anos 80 do século passado, a formação do Partido dos Trabalhadores conseguiu fazer convergir para essa sigla personalidades, movimentos sociais, inclusive o sindical, a Igreja Católica, com sua belíssima experiência com as comunidades eclesiais de base, e praticamente todas as organizações marxistas de variada tendência que lutavam contra a ditadura militar.

Intelectuais do porte de Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Hollanda, Antonio Candido, Marilena Chauí, para citar apenas esses, contribuíram com a força de suas mentes privilegiadas, somando esses conhecimentos com a democracia de base, em que os “de baixo” efetivamente tinham sempre a última palavra. Havia líderes de trabalhadores rurais, ambientalistas como Chico Mendes, sindicalistas como Lula, João Paulo Pires Vasconcelos e Olívio Dutra. Antigos militantes, como Apolônio de Carvalho e José Ibrahim. Estrelas que despontavam nos movimentos de favela, como Benedita da Silva. Vítimas da ditadura militar, como Manoel da Conceição, de Pernambuco, nossa inesquecível d. Helena Grecco e milhares de anônimos militantes, barulhentos em suas manifestações e entusiasmados com a maneira distinta de fazer política.

NÃO HAVIA CHEFES

Eu vi tudo isso acontecer. Não havia chefes que impusessem suas vontades à vontade de viver uma experiência nova de produzir novos caminhos na política brasileira. José Dirceu, Vladimir Palmeira, Luiz Gushiken… todos tinham a mesma força e convenciam ou não os delegados em encontros memoráveis.

Aí residiram a força e a beleza daquele partido.

A institucionalidade a tudo isso absorveu. Até que, diante da “Carta aos Brasileiros”, de 2002, com que Lula logrou vencer o medo e fazer-se presidente do Brasil, esse documento, por muitos tido como manobra tática, acabou por acabar com o sonho de todos os que lá se agrupavam. Pouco a pouco foram aparecendo os melhores, os que sabiam mais que outros, os que mandavam mais que todos.

Ortellado faz uma previsão sombria: serão necessários mais 20 ou 30 anos até que surja algo assim. E aposta que uma sociedade civil organizada, mas não subjugada a partidos, governos ou líderes carismáticos, possa fazer abreviar esse parto.

TODOS SE PERDERAM

De minha parte, eu apenas acrescentaria que não foi só o PT que se perdeu. Também o PSDB, que surgiu lutando contra o fisiologismo que começava a se instalar no antigo MDB. E, mesmo nas fileiras desse PMDB, quem não se recorda de nomes combativos que davam a tônica também representando outros excluídos?

Diante dos arremedos de partido que hoje vemos atuar nos espaços institucionais ou no que resta de movimento social organizado, a saudade bate forte. Mas a esperança precisa continuar existindo.

3 thoughts on “A crise e a esperança, que precisa continuar existindo

  1. o problema é justamente esse: sempre estivemos subjugados, roubados, vilipendiados, mas sempre havia a esperança da prevalência da cordialidade (de que nos falava Sérgio Buarque), da mudança de forma pacífica. Para nós, que lutamos tanto pela democracia e também para o surgimento de um partido que faria política de forma democrática, diferente, que seria o PT, ou pelo menos eu, não perdoo justamente esse fato: agora continuamos, e cada vez mais, já que a dívida pública já é claramente impagável, bem lascados, mas nos roubaram o que havia de mais precioso, o direito ao sonho, em relação ao País do futuro de que nos falou Zweig.

    • Sílvio, existe uma má interpretação, recorrente, da expressão de que “o brasileiro é cordial”. Sérgio Buarque de Hollanda quis dizer exatamento o contrário da interpretação que muita gente dá, que o brasileiro seria polido, de boa índole. O que ele queria dizer é que o brasileiro age pelo coração em vez de pela razão, coração aí no sentido de emoções, sejam elas de qualquer tipo. Isso inclui a violência, a desconsideração, o agir sem pensar, a irracionalidade. Uma boa explicação deste engano e do que Sérgio queria dizer está neste artigo:
      http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_jeitinho_do_homem_cordial.html

  2. Concordo plenamente Silvio. Ingenuamente tb sonhei com o bom PT, que a meu ver, se tornou o mau PT. Quanto ao país do futuro do escritor austrìaco Stephan (talvez esteja errada a grafia) Zweig, pode ser um péssimo futuro …

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