A crise não passou nem passará tão cedo

Carlos Chagas

Saímos da crise econômica? Nem pensar, mesmo entre celebrações e manifestações de otimismo do presidente Lula e dos ministros do Banco Central, da Fazenda e do  Planejamento, entre outros. Afinal, a produção industrial não se recuperou. Pela queda do dólar, ficou mais barato comprar carros importados do México do que os  fabricados aqui.

Vale o mesmo para os produtos eletro-eletrônicos. A agricultura não se recuperou, agravadas suas dificuldades pela queda no preço das commodities.  A própria exportação de produtos primários entrou na baixa, com o  minério de ferro à frente.

Os salários  continuam comprimidos, como vem sendo desde o governo Fernando Henrique Cardoso. A carga fiscal não pára de crescer, anunciando-se ainda agora a volta da CPMF, com outro nome. Escolas, hospitais, estradas e portos mantém a condição de penúria registrada faz tempo.

Registra-se uma causa fundamental:  a macro-economia permanece controlada pelo capital financeiro,  comandada pelo Banco Central. Em outras palavras,  a produção perde de goleada para a especulação. Como esse setor controla a mídia, pouco se ouve ou se lê a respeito. Engana-se o  presidente  Lula se imagina que a aventura do pré-sal constituirá solução, pois além de necessitar de vultosos investimentos, que não possuímos, só conseguirá gerar frutos daqui a quinze ou vinte anos.

Numa palavra, o país continua à mercê de fatores  controlados de fora.  O governo não dá o menor sinal  de pretender mudar o modelo que nos assola. E quanto a esperar alterações no projeto nacional de desenvolvimento,  será sonho de noite de verão neste fim de inverno. Nem Dilma, nem Serra nem Aécio,  sequer Marina, Ciro ou Heloísa,   dispõem de projetos específicos. Não disseram a que vem, até agora, senão ocupar o poder pelo poder.

Sendo assim, é bom tomar cuidado. Qualquer nova oscilação de temperatura, no Hemisfério Norte, refletirá não apenas na nossa economia, mas na vida de cada um. Menos, é claro, nas elites financeiras. A crise não passou nem passará tão cedo.

Anel de ambições

Com todo o respeito, mas o governo do presidente Lula encontra-se cercado por  um anel de perigosas ambições. Venezuela e Colômbia encontram-se a um passo da guerra, mas tanto os presidentes Hugo Chavez quando Álvaro Uribe dão-se as mãos no estupro da vontade popular, assegurando-se ambos de um  terceiro mandato, quem sabe do quarto e outros posteriores.  No Equador  e na Bolívia,  a mesma coisa. Na Argentina, a alternância é entre marido e mulher.

Como ficamos, diante dessa óbvia distorção da democracia entre nossos hermanos? Até agora o presidente Lula desmente quaisquer pruridos de continuísmo. Lançou Dilma Rousseff e aposta suas fichas na eleição da companheira. Dentro das regras constitucionais, não há mais tempo para mudança nas regras do jogo.

O diabo é que no reverso da medalha surge o fantasma da derrota.  A premissa é de que os programas do governo precisam continuar. A popularidade do presidente Lula  não deixa dúvidas a respeito da aceitação do modelo em curso. Entregaria o ouro ao bandido, no caso do fracasso da candidatura da chefe da Casa Civil? Aposta nela, mas na hipótese de que não decole, reconheceria a débacle?  Ou cederia ao apelo das forças que o apóiam, no sentido de que,  para preservar o poder, vale tudo? Que  tal o exemplo de nossos vizinhos?

As elites privilegiadas, aquelas   da prevalência do capital financeiro sobre a produção,  ficariam felizes se nada mudasse. As massas, também. Conseguiria a classe média opor-se à corrente? Ou, também ela,  ou parte dela,  cederia ao que  já se chama de “o império das  circunstâncias”? Se a frio não dá mais, por que não a quente?

De golpes nossa História anda repleta. “Lembrai-vos de 37” ainda assusta, mas muito maior medo  vem, de episódios posteriores. Getúlio foi levado ao suicídio, Juscelino quase não tomou posse, Jânio renunciou, Jango foi deposto, Castello prorrogou seu mandato, Médici usurpou o poder, Geisel ganhou um ano a mais, Figueiredo, dois, Collor foi catapultado e Fernando Henrique comprou o segundo mandato.

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