A crise trará mudanças na economia mundial

Paulo Peres

Há três anos alguns bancos americanos foram à falência, com o início da crise do Subprime e, consequentemente, o mundo passou a viver cheio de incertezas.

No Brasil, o pré-sal e o agronegócio se colocam como boas oportunidades para o desenvolvimento do país, surgem como possiblidades positivas na economia. Na Europa, países como a Grécia ainda sofrem para controlar as contas nacionais e aliviar o déficit na economia.

A única certeza é a de que o mundo não será mais o mesmo, afirma o economista Fernando Sarti, diretor da Escola de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), “tendo em vistas que as relações comerciais e econômicas que aconteceram nos últimos 30 anos foram determinantes para uma mudança estrutural no planeta”.

Para Sarti, “independentemente da crise, os países emergentes passaram a ser também protagonistas nas relações mundiais, e isso não mudará mais. A crise é parte desta mudança, assim como uma evidência clara de que ela aconteceu. Países como a Coreia e outros asiáticos já vinham desempenhando um papel importante nas relações econômicas, como produtores que ofereciam condições competitivas para as grandes multinacionais”.

As empresas norte-americanas, então, migraram para estes locais mais ‘periféricos’. Porém, o produto final voltava para os centros urbanos dos desenvolvidos, que eram os grandes consumidores, explica o economista.

“A transferência dessas multinacionais para os emergentes determinou a entrada, principalmente da China, na cadeia econômica mundial. Com isso, a periferia também passou a consumir”.

Segundo Fernando Sarti, não foi apenas um consumo das famílias, mas uma demanda por investimento e capital também, um consumo geral. “Essa mudança condicionou uma nova dinâmica no mercado e as consequências dessa crise ainda são difíceis de prever. O que é certo é que tanto a Europa quanto os Estados Unidos sairão mais injustos e desiguais do que entraram”.

O sonho de um “padrão europeu” para todos deve ser esquecido, salienta Sarti, “porque a União Europeia já enfrenta as diferenças estruturais de cada país membro e se a infra-estrutura dos países já era desigual, agora essas diferenças ficarão mais claras. Além disso, fica evidente que a rede de proteção social destes países será fragilizada”.

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ALEMANHA É EXCEÇÃO

Com o corte de gastos acontecendo na Grécia, Portugal e Espanha para conter o déficit nas contas públicas, a estrutura social será muito afetada e os países sairão da crise menos iguais, analisa o economista. “Com uma economia dinâmica, um forte mercado interno, uma indústria de alta competitividade e demanda para a exportação, a Alemanha é a única exceção do bloco e deverá continuar firme e forte”.

No Brasil, as possibilidades são quase tão grandes quanto as incertezas, na medida que o pré-sal e o agronegócio se colocam como boas oportunidades para o crescimento e desenvolvimento do país. “Entretanto, a oportunidade só será ótima se soubermos aproveitar a demanda que a exploração deste petróleo vai trazer”, sustenta Sarti.

Na opinião de Fernando Sarti, “não adianta ter demanda para consumir máquinas, se não consumirmos dentro do país, gerando competitividade e desenvolvimento no Brasil. Tanto o agronegócio quanto o pré-sal demandam uma cadeia de fornecimento e consumo que podem ser grandes oportunidades”.

Para o professor, é preciso que as políticas industriais, tecnológicas e de produção foquem na construção de uma economia abrangente e dinâmica e não se prendam completamente a questões financeiras e de pressão inflacionária, por exemplo. “Temos excelentes chances a nossa frente, mas depende de como vamos agir em relação a elas. Vamos capturar as oportunidades que surgirem? É uma pergunta para reflexão”.

No que concerne aos Estados Unidos, começam a engatinhar rumo a uma recuperação econômica. Porém, a nova estrutura do mundo não permitirá que o país recupere a força que um dia já tevem adverte Sarti.

“Com certeza, eles saíram muito mais desiguais e injustos do que quando entraram na crise. Apesar do dinamismo e da força que a economia americana ainda sustenta, com grande capacidade de inovação, falta ao país um setor para liderar a geração de empregos”.

O problema da desigualdade social e de renda se agrava com a falta de uma rede de proteção social para as camadas mais vulneráveis da população. “E tem uma questão cultural também, imposta, em que eles ignoram as diferenças de oportunidades da camada mais excluída da população, que não terá a mesma força de competição dos demais”, analisa Fernando Sarti.

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