A diferença essencial entre a comunicação e a publicidade

Pedro do Coutto

Reportagem publicada na edição de quarta-feira da Folha de São Paulo destacou os gastos com publicidade realizados pelas empresas estatais no período de 2000 a 2013, frisando que atingiram o valor de 15,6 bilhões de reais, o que significou um aumento real da ordem de 65%. Ou seja: esses desembolsos superaram em 65% as taxas inflacionárias acumuladas no período em foco. A matéria, em si, coloca em discussão o que é publicidade e o que vem a ser comunicação.

São coisas distintas, que às vezes convergem, mas nem sempre isso ocorre. É claro que a publicidade se integra no mundo da comunicação, caso contrário ela não teria efeito. Estou me referindo, sob este aspecto, à publicidade comercial voltada, é claro, para a venda de produtos no mercado. Está evidentemente sujeita aos preços dos espaços comercializados. Suas técnicas são muito sofisticadas, como a atividade exige. Seus efeitos são passageiros, daí porque a existência de processos permanentes de renovação. As exceções confirmam a regra.

A comunicação política e administrativa é diferente. Nesse campo a mensagem publicitária não funciona. Trata-se de comunicação jornalística, não remunerada, canal permanente de integração entre os governos e a sociedade, entre o Poder Executivo, seja ele federal, estadual ou municipal, e a opinião pública. Os apelos publicitários, propriamente ditos, funcionam pouco nesse campo de percepção. É indispensável a veiculação de fatos concretos que respondam aos anseios e necessidades da população. A qualidade da informação transmitida, seu grau de interesse público, é que vai assegurar o espaço e o destaque das matérias produzidas e injetadas na consciência coletiva.

CONCEITO DOS GOVERNOS

Uma ponderável parcela da sociedade, da opinião pública, portanto, ignora essa diferença fundamental. A publicidade comercial volta-se para um efeito imediato, enquanto a comunicação política ou administrativa desenrola-se por etapas, os conceitos que gera, se for verdadeira e bem feita, acumula-se na consciência coletiva e de tal acumulação formam-se os conceitos dos governos. Não existe outro caminho efetivo na busca do conceito almejado. Para que seja positivo, tem que surgir naturalmente, a partir da clareza dos textos redigidos e das ideias transmitidas. Não adianta fantasiar. Pois a fantasia pertence ao sonho, que se ajusta, por certo, à publicidade comercial gerando seus efeitos. Mas não se coaduna com a comunicação política.

Esta não pode apenas apresentar – tem que apresentar e convencer. E para convencer exigirá sempre a veiculação de informações corretas e concretas. Não é uma questão de investimento financeiro com uso da técnica. Necessita , acima de tudo, clareza, verdade, proporcionando consequências. A sociedade como um todo encontra-se sempre à espera de notícias positivas. Principalmente neste momento da vida nacional em que informações negativas não faltam e, por isso, ao invés de entusiasmar, entristecem. A todos.

One thought on “A diferença essencial entre a comunicação e a publicidade

  1. Acompanho o Pedro do Coutto desde os tempos em que ele era comentarista da antiga e falecida Rádio Jornal do Brasil AM. Assunto pertinente: a revista Língua Portuguesa, set/2014, informa que “um plano de governo” está no âmbito da “Literatura (também) é política”. Ora… está explicado porque os candidatos falam/escrevem muito e realizam pouco… os candidatos-escritores fazem malabarismos impressos ou verbais e assim podemos considerar “um plano de governo ou plataforma/programa/propostas” como Literatura de Ficção/Imaginação/Fantasia/Novela/Romance… deduzimos que o Congresso Nacional, Executivos Estaduais, Municipais e Federais merecem a ABL – Academia Brasileira de Letras…

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