A existência através dos que não existem

Carlos Chagas

Estabeleceu o Alcorão valer  uma espada  mais do que dez mil palavras, contrariando o Novo Testamento, segundo o qual o amor move montanhas. Tantos séculos depois, nesses tempos bicudos em que em vez de arrefecer, o choque de religiões só faz acirrar os sentimentos, com todo respeito valeria apelar para elas como a derradeira hipótese de preservação da existência através dos que não existem.

Que tal, para começar, a co-habitação entre o Padre Eterno,  seu Filho e o Espírito Santo,  de um lado,   Alah do outro,  abrindo-se  vaga também  para Jeová?  Sem esquecer  os espaços  ocupados no passado ou no presente  pelos  plácidos  Buda e Confúcio, os gelados Odim e Thor, mais    o ambientalista Tupã,  lembrando  ainda  os irascíveis  Júpiter e  Zeus,  além de Zaratustra, Isis e Osíris, entre tantas  outras divindades.

Está na hora desse conjunto  de seres superiores que Spinosa reduziu à própria natureza realizarem uma espécie de congresso planetário. Unirem-se, já que sem a força do conjunto para  dominar a fraqueza das partes  logo sobrevirá o  pior. No caso, a supressão  das platéias de  onde os deuses tiram sua condição de encenar tantas  comédias divinas.

Importa menos saber onde se acenderá  o estopim da hecatombe universal. Pode ser nas planícies do Armagedon, já que Israel possui a bomba atômica e o  Irã, quase. Quem sabe na fronteira da Índia com o Paquistão?  Nas geleiras da Sibéria ou no meio-oeste americano, voltadas que estão essas duas  regiões,  uma contra a   outra,  apesar da falácia de que a Guerra Fria terminou. Aceitaria a China abandonar a nuclear  Coréia do Norte à sanha da suposta superpotência que deixou de ser única?

Pelo equilíbrio instável entre as nações conclui-se que um dia, cada vez mais próximo, cumprir-se-á o vaticínio de Albert Einstein, que reconheceu não saber precisamente como se daria a Terceira Guerra Mundial, mas podia prever  com clareza a Quarta, a ser travada entre paus e pedras.

Já  que os esforços das Nações  Unidas redundam em nada, que  os cinco  continentes armam-se cada vez mais através da sofisticação, saída mesmo só existe uma: apelar para a união dos deuses de ontem e de hoje. E se Eles não puderem vir, que se organizem seus representantes, mas despojados de qualquer sentimento de superioridade ou de domínio da verdade absoluta. Por mais estranha que  possa ser  a conclusão, será através daqueles que não existem o caminho para perpetuar a existência…  

Hoje tem comício

Caso o presidente Lula não volte atrás,  como fez esta semana em Brasília, faltando ao comício de inauguração do comitê central da campanha de Dilma Rousseff, hoje à noite os cariocas assistirão a candidata e seu mentor dividirem o  palanque armado na Candelária  pelo governador Sérgio Cabral.

Uma saraivada de críticas e até alguns possíveis recursos à Justiça Eleitoral serão disparados pelos tucanos e penduricalhos, sob a acusação de propaganda desmedida. Só que não vai adiantar nada. No máximo, o presidente Lula poderá ser multado outra  vez pelo Tribunal Superior Eleitoral, provavelmente a sétima, mas nada vai mudar. Na verdade, se não tiverem  sido utilizados recursos públicos na manifestação, a presença do chefe do governo deve ser considerada normal,  mesmo contra a lei.

Esse conflito entre a natureza das coisas e a legislação soa como ridículo. Deve-se atentar para o espírito da mini-reforma eleitoral aprovada em dezembro do ano passado pelo Congresso. Sua intenção foi evitar desmandos e mau uso da coisa pública, jamais cercear o direito de qualquer cidadão manifestar-se política e eleitoralmente. Proibir o presidente da República de opinar equivale a regredir institucionalmente.  Se em 2002 Fernando Henrique, então no poder, manteve-se de braços cruzados diante  de sua sucessão, foi por outros motivos.  No caso, a idiossincrasia ostensiva para com  Serra, seu ex-ministro rebelde e competidor nas tertúlias verificadas dentro do ninho. Se as oposições perdessem parte do complexo de inferioridade, estariam programando comício ainda maior e mais vibrante que o de hoje, na antiga capital.

Charutos de debates

Michel Temer anda tão feliz com sua candidatura a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff  que na madrugada de ontem, depois de lauto jantar com  a candidata e perto de 200 deputados, deu-se ao luxo de  comparecer ao bar de um afamado restaurante de Brasília, a pretexto de fumar charutos. Estava feito pinto no lixo, agora que foi aceito sem contestações pelo PT. Admitiu comparecer a um debate com os demais candidatos a vice, caso alguma emissora de televisão se interesse em promovê-lo. Deve cuidar-se, caso a hipótese se concretize, pois os demais postulantes a inquilinos do palácio do Jaburu só teriam um objetivo:  agredi-lo de todas as formas possíveis, credenciando-se, assim, a quinze minutos de exposição nas telinhas.

Melhor faria o ainda presidente da Câmara se aceitasse posicionar-se à sombra de Dilma, acompanhando-a na campanha por todo o país e falando o mínimo possível. Depois, se eleita a candidata, trataria de coordenar a política do novo  governo com o Congresso.

Falta de terra

Em 1960, perdeu-se nos céus de Mato Grosso o  avião em que viajavam Jânio Quadros e Milton Campos, em campanha pela presidência e vice-presidência da República. O piloto suava frio, o combustível se  esgotava  e nada de aparecer algum  município ou aeroporto oportuno.  O dr. Milton tinha problemas de pressão arterial  e logo as atenções  voltaram-se para ele, com a célebre pergunta sobre se estava com falta de ar. O magistral mineiro não perdeu a oportunidade e respondeu: “falta de ar, propriamente, não. Estou mesmo é com falta de terra…”

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