A falência da Universidade brasileira

Mário Assis

Há muito tempo eu não lia algo assim, com este alto grau de assertividade e verdade. Confiram essas palavras de Luiz Costa Lima, pernambucano, crítico e professor emérito da PUC-Rio, 76 anos. Entrevista publicada no Caderno Prosa & Verso, no Globo, sábado 08/11/2013. Recebeu há poucos dias o Prêmio Jabuti de Teoria e Crítica Literária.

###

NÃO HÁ DEBATE INTELECTUAL

Luiz Costa Lima 

“O Brasil não tem tradição forte de debate intelectual, por vários motivos. Uma razão é que a universidade como grande centro de reflexão, uma tradição no Ocidente, é muito recente entre nós. Uma segunda razão é o analfabetismo generalizado. Fui posto para fora da universidade (Universidade do Recife, em 1964) pela ditadura porque trabalhava com o serviço de alfabetização de Paulo Friere, que, alías, sofria oposição tanto da direita quanto do Partido Comunista. Penso que o problema hoje se alastrou, em vez de ter diminuído como apresentam as cifras oficiais, porque temos um analfabetismo alfabetizado, o que chamam de ‘analfabetismo funcional”. É um problema mais amplo do que se imagina, atinge até professores universitários. Uma terceira razão é que dentro da própria universidade há um círculo vicioso de banalização: o professor, que já chega mal preparado, sofre pressões para entregar uma informação simplificada ao aluno, que só quer um diploma para ter um emprego no qual o seu analfabetismo funcional funcione. Um quarto motivo é nosso compadrio. que se estende ao meio acadêmico e prejudica o debate público, os concursos e o ensino”.

 

 

3 thoughts on “A falência da Universidade brasileira

  1. Na universidade brasileira há, de fato, um processo de maquiagem, muito mal feito por sinal.

    Nas universidade públicas, ainda caindo aos pedaços, acadêmicos de medicina fazem provinhas de múltipla escolha, com questões repetidas e decoradas, falta material para aulas práticas e os hospitais e laboratórios pedem socorro enquanto fecham.

    Os concursos públicos são escassos e as contratações precárias e indicadas prevalecem.

    Nas faculdades particulares, predomina a pressão para que os professores não desagradem os consumidores-alunos que devem fingir que aprendem, enquanto os humilhados professores fingem que ensinam.

    O foco são os números, as aparências, para obter graduados, especialistas, mestres e doutores, a qualquer preço, com diplomas, com tanto reflexo nas suas habilitações prátias quanto um currículo manipulado e divergente das reais competências desenvolvidas, falhas facilmente verificáveis pelo mercado de trabalho. Isso sem mencionar as atualizações técnicas e das ementas, a necessidade, não atendida, de formação integral e humanística.

    Eis aí uma das principais razões para a nossa reduzida eficiência e para a nossa ínfima competitividade.

  2. Diz a lenda que na universidade da Basiléia havia um dístico no pórtico, indicando as três vias de acesso à universidade: per bucam, per anum, per vaginam. Lenda ou não, o dístico é emblemático. A universidade brasileira, particularmente, é visceralmente endogâmica. Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos e para estes sempre se encontra um jeito de integrá-los a universidade. A maior parte dos concursos são farsas com cartas marcadas. Pelo menos na área humanística. As exceções ocorrem na área tecnológica, onde muitas vezes a guilda não tem um membro com capacitação mínima para proteger. Contou-me uma professora da Universidade de Brasília: “eu tive muita sorte, os dez pontos da prova oral coincidiam com os dez capítulos de minha tese”. O marido dela era um dos componentes da banca. A ingênua atroz – ou talvez cínica – falava de coincidência.

    Na universidade brasileira, nem um Cervantes seria aceito como professor de Letras, afinal só teria em seu currículo o ofício de soldado e coletor de impostos. Um Platão seria barrado no magistério de Filosofia e um Albert Camus jamais teria acesso a um curso de Jornalismo. No fundo, a universidade ainda vive no tempo das guildas medievais, que cercavam as profissões como quem cerca um couto de caça privado. Na Espanha e na França, desde há muito se discute publicamente a endogamia universitária. Aqui, nem um pio sobre o assunto. E ainda há quem se queixe quando os melhores cérebros nacionais buscam reconhecimento no Exterior.
    (Janer Cristaldo)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *