A favela Dilma

Os moradores recolheram a placa que homenageava a presidente Dilma na entrada da favela

Enquanto não escolhem o nome, as placas de Dilma são retiradas

Carlos Chagas

De quando em quando descobre-se gente em ocupação, empenhada em sufocar a memória nacional. Imaginam mudar o passado de acordo com as contingências do presente. Mais ou menos como denunciou o magistral George Orwell no inesquecível “1984”, escrito em 1937, quando três grandes nações fictícias viviam ora em guerra, ora em paz. O personagem principal era encarregado, de acordo com as informações do dia, de mudar as páginas de edições antigas do “Times”, noticiando amizade milenar e perpétua entre dois governos contra o terceiro, variando sempre a ação os contendores.

No Brasil, de vez em quando essas coisas acontecem. No Rio, com a República, o Largo do Rocio foi transformado em Praça Tiradentes. Mais tarde tentou-se até mudar o nome da Avenida Presidente Vargas, depois da morte do venerando líder, para Avenida Castro Alves.

Ainda agora, em Brasília, buscou-se rebatizar a Ponte Costa e Silva, assim como em São Paulo um grupo pretendeu trocar o nome da Rodovia Castello Branco para Estrada Leonel Brizola.

São características do radicalismo e da paixão, felizmente sem germinar na maioria dos casos. O passado é o passado, merece ser respeitado, mesmo quando o lamentamos, criticamos e apontamos suas mazelas. Fora daí será submeter cidades, ruas, praças e instituições a uma baderna sem limites.

UMA FAVELA CARIOCA

Pois não é que na antiga capital, entre muitos aglomerados de pobreza e de miséria, um deles foi denominado de Favela Dilma, talvez porque Madame, nos seus tempos de ventura, investiu e inaugurou o conjunto. Agora que a presidente anda mal de governo e de popularidade, chegando às raias da rejeição nacional, um grupo de líderes da comunidade pretende arrancar placas e sinalizações com o nome dela, não se sabe exatamente para trocar por quem. Por certo não será Favela Aécio Neves, que poderá ficar para depois de 2018.

A infantilidade dessas iniciativas seria cômica se não fosse trágica, digna de alimentar as ditaduras. Petrogrado já foi Leningrado, como Stalingrado virou Volvogrado. Como o mundo gira, sempre de forma surpreendente, vamos esperar que não sobrevenha um regime disposto a alterar as homenagens que o Brasil prestou a Juscelino Kubitschek e a Tancredo Neves, patronos dos aeroportos de Brasília e Belo Horizonte. Deixem a Favela Dilma como está e onde está…

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