A flor do ódio

Sebastião Nery

BUENOS AIRES – Nestor Rocha, conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio, e sua bela mulher Liliana Rodrigues, vieram, tempos atrás, passar o fim-de-semana aqui em Buenos Aires. Talvez de emoção por este encanto de cidade, uma Paris falando espanhol, ou por conta dos cansaços brasileiros, teve um enfarte, acudido a tempo.

No Rio de Janeiro, seu fraterno amigo Murilo Barbosa Lima foi avisado, pegou rápido um avião e desceu em Buenos Aires para ver como estavam as coisas. Passou no hotel. Nestor havia saído de lá para o hospital e não voltara. E deram o nome do hospital.

Murilo correu para o hospital. Lá, o susto:

– O Dr. Nestor esteve aqui com um enfarte grave, mas já não está mais. – Foi para onde?

– Para o Cemitério da Recoleta.

– Quem autorizou a saída dele daqui para o cemitério?

– A mulher dele, que o estava acompanhando.

***
EVITA

Murilo saiu desesperado para o Cemitério da Recoleta. Foi à portaria, não havia registro nenhum. Ficou andando e suando pelas alamedas pensando como é que o Nestor poderia ter sido enterrado em Buenos Aires se o normal é que o corpo fosse levado para o Rio.

No portão solene do túmulo de Evita Peron, lá vinha Nestor, pálido, cabeça baixa, olhar triste, acabando de visitar sua heroína Evita .

Murilo deu-lhe um abraço e uma bronca:

– Você não tinha lugar melhor para vir do que um cemitério e logo para visitar esta mulher? Quem é que pôs a Evita na sua cabeça?

– Foi o Brizola. Ele adorava ela.

O hospital é aqui perto. Murilo ficou com raiva da Evita Peron até hoje. O argentino é mesmo uma mistura de Catalunha, Sicilia e os Andes: tem o fascínio da morte.

Foi Evita, foi Peron, agora é Nestor Kirchner. Três mitos.

***
CRISTINA

A caminho do hotel, com a cidade vazia de carnaval e cheia de brasileiros, converso com o motorista, um jovem cabeludo, elegante, terno e gravata, bem falante como um baiano de Salvador:

– Que tal sua presidente, a Cristina Kirchner?

– Senhor, não temos só uma presidente. Temos uma flor. Toda manhã, abro a janela e agradeço a Deus por ter me dado uma flor que cuida de meu país e de mim. A presidente Cristina não é só uma mulher. É uma flor.vBasta querer, vai ser reeleita. Ainda não sabemos se ela será candidata.

O marido morreu, ela está de luto até hoje. Mas derrota os outros todos. Desço no hotel, vou à banca pegar os jornais, bem em frente do hotel Alvear.

O jornaleiro, também jovem, também cabeludo, também bem falante, fica irritado quando lhe pergunto quem vai ganhar as presidenciais de outubro:

– Essa Cristina Kirchner é que não pode ser. Tem que ser qualquer um menos ela. Chega de Kirchner. Ela vai querer se reeleger com o cadáver dele.

***
OPOSIÇÃO

Abro o jornal, ainda ali na banca. O ‘El Clarin’, um dos dois mais furiosos contra a Presidente (mais irado só ‘La Nación”, irmão da ‘Veja’, um jornal escrito em inglês de Nova Iorque e traduzido em espanhol), publicava a primeira rodada das pesquisas para presidente da República, feitas pelo CEOP (Centro de Estudos de Opinião Pública).

Cenário 1: Cristina Kirchner: 44%.Maurício Macri (prefeito de Buenos Aires): 12,3%, Ricardo Alfonsín (líder da UCR, União Cívica Radical, principal partido da oposição): 10,4%. Eduardo Duhalde (ex-presidente, líder de uma dissidência do peronismo): 6,8%. Fernando Solanas (líder de um pequeno partido da oposição); 4%. Elisa Carrió (também líder de um pequeno partido da oposição): 2,7%. Indecisos: 11,4%.

Cenário 2: Cristina: 43,3%. Macri: 11,8%. Júlio Cobos (vice-presidente da república e presidente do Senado, eleito com a Cristina e depois rompido) 7,8%. Duhalde: 7%. Carrió: 4,3%. Solanas: 4,2%. Indecisos: 12,2%. Cenário 3: Cristina: 43,6%. Macri: 12,1%. Ernesto Sanz (disputa com Alfonsin a indicação da UCR, União Cívica Radical): 6,8%. Duhalde: 6,6%. Carrió: 4,4%. Solanas: 4%. Indecisos: 13%.

A campanha eleitoral começa em agosto. Ainda há muito chão.

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