A floresta e as rvores

Carlos Chagas

As campanhas presidenciais s vo esquentar depois de encerrada a copa do mundo de futebol. Registre-se que at agora os candidatos tem desenvolvido, no mximo, consideraes sobre esta ou aquela qualidade de rvore. Nem Serra, nem Dilma, nem Marina, muito menos os demais, empenham-se em analisar a floresta. Traduzindo: nenhum deles apresentou o que pretendem para a nao, o estado ou o governo. Falam dos juros, das hidreltricas, do bolsa-famlia, da agro-indstria e do meio ambiente, mas nada de concepes fundamentais para o Brasil como um todo.

D saudade dos tempos em que Juscelino Kubitschek disputou e ganhou a presidncia da Repblica. Sua campanha revelava mais do que um programa administrativo. Privilegiava a concepo de futuro, com linhas-base a seguir no rumo do desenvolvimento integrado atravs de energia, transporte e alimentao. A industrializao estava no cerne de sua mensagem, qual acrescentou a marcha para o Oeste por meio da construo de Braslia. At em termos de poltica externa, deixava entrever o que seria a Operao Pan-americana.

Em suma, esto os candidatos devendo sua viso da floresta. Deixaro frustrados os eleitores se ficarem apenas anunciando coqueiros e bananeiras…

Massa de manobra

Greve se faz contra patro, seja ele privado ou pblico, isto , empresrio ou estado. Trata-se do ltimo recurso do trabalhador, muitas vezes vlido, outras nem tanto, pois exageradas. Existem razes reivindicatrias e razes polticas para as greves, igualmente aceitveis em muitos casos e apesar dos prejuzos e transtornos que causam.

S que tem uma premissa fundamental: greve no se faz contra o povo. Tome-se os servios essenciais como transporte, fornecimento de energia, sade, segurana e congneres.

Braslia est a um passo de assistir a montona e abominvel repetio de mais uma greve de nibus. Marcada para segunda-feira, a paralisao atingir as camadas menos favorecidas. Quem tem carro dar de ombros, mesmo sem dar carona.

Motoristas e trocadores tm direito de reivindicar melhores salrios e condies de trabalho. Cruzando os braos, porm, eles estaro prejudicando os assalariados de menor renda. Costumam ser utilizados como inocentes teis, massa de manobra de empresas interessadas em obter aumento no preo das passagens. Seria bom que prestassem ateno.

Exemplo a seguir

Viveu a Comisso de Relaes Exteriores do Senado, esta semana, um de seus altos momentos quando sabatinou e aprovou por unanimidade o embaixador Rubem Barbosa o bom para nosso representante na Austrlia. Tratou-se de uma lio a respeito de como uma nao encontrou slidos caminhos para o desenvolvimento, mesmo enfrentando uma natureza hostil e uma localizao afastada dos chamados centros decisrios do mundo.

Com uma populao de pouco mais de vinte milhes de habitantes, a Austrlia j conquistou dez Prmios Nobel em setores variados. Abriga nada menos do que vinte mil estudantes do mundo inteiro, preparados em universidades-modelo, inclusive grande nmero de brasileiros. Em pesquisa cientfica, nada fica a dever Europa. Mesmo em termos militares, possui foras armadas de comprovada eficincia, tendo participado das duas guerras mundiais e da guerra da Coria, fornecendo tambm contingentes para quantas foras de paz se tenham constitudo de l para c. Sua Marinha dispe de seis submarinos de ltima gerao. Sua Fora Area to numerosa quanto todas da Amrica do Sul, somadas. Tudo, vale repetir, com pouco mais de vinte milhes de habitantes e um territrio equivalente ao brasileiro.

Os males do alinhamento

Sem exceo os jornales e seus correspondentes eletrnicos caram de tacape e borduna no lombo do governo, por conta do voto de discordncia com novas sanes contra o Ir, no Conselho de Segurana das Naes Unidas. No perdoaram a posio de independncia do Brasil diante da imposio dos Estados Unidos e penduricalhos, estranhamente com o apoio da Rssia e da China. Permanece, a maior parte de nossa mdia, atrelada aos tempos do alinhamento automtico e obrigatrio.

Se h um aspecto a elogiar na poltica externa do presidente Lula sua opo pelo dilogo e o entendimento, mesmo sem concordar com as intenes de alguns aiatols aloprados para construir a bomba atmica.

As sanes aprovadas s faro aumentar as agruras da populao iraniana. Em nada ajudar a causa da paz proibir investimentos internacionais naquele pas, autorizar a interceptao de embarcaes destinadas ou sadas de seus portos, reter cargas para l enviadas, congelar bens de suas empresas e at de pessoas, bloquear transaes financeiras, negar licena para a instalao de seus bancos ser que tudo isso e muito mais no ir at aumentar a abominvel tentativa nuclear?

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