A FOLHA ENSANDECEU DE VEZ

Helio Fernandes

A Folha de S. Paulo, que comeu o po que o diabo amassou para sobreviver, crescer e dizer a que veio, tem histria bastante controvertida. Vende cerca de 350 mil exemplares diariamente e cerca de 450mil aos domingos e, inexplicavelmente, como um carro desgovernado, abriu um de seus mais nobres espaos para que, num artigo de pgina inteira, seu colunista Csar Benjamin, narrasse o passado de militante contra a ditadura e, finalmente, pudesse contar um suposto fato duvidoso da vida do atual presidente.

Segundo ele, durante a campanha presidencial de 1994 (na qual Csar trabalhou como petista e assessor), Lula, em reunio descontrada, teria afirmado que, quando preso no distante 1980, teria assediado um outro prisioneiro. Sua investida foi infrutfera porque a possvel vtima resistiu. A curiosa situao foi negada por todos os participantes do mencionado encontro.

Irresponsavelmente, talvez com inteno ao que parece dolosa (destruir a imagem de outrem), a Folha de S. Paulo ofereceu uma pgina inteira para que o colunista, cuja existncia ignorada por 99,99% dos brasileiros, pudesse ressuscitar uma confidncia-brincalhona feita por amigo, em conversa sem compromisso e assim, quem sabe, mostrar ao mundo, que o presidente Lula, que est sendo festejado e bem recebido em muitos pases, no merece toda essa reverncia, respeito e homenagem. Isso porque teria assediado um companheiro de priso em momento de descontrole emocional ou de quase delrio h TRINTA ANOS.

Por essa razo, o articulista aproveitou para dizer que no pretendia assistir ao filme O filho do Brasil, que tenta reviver a trajetria seguida pelo atual presidente, desde seu nascimento at sua chegada Presidncia da Repblica. Ele assegurou que quando preso, no Rio de Janeiro, no sofreu ameaas por parte de nenhum dos mais famosos e temidos criminosos e com os quais chegou a ter relacionamento cordial. Estaria insinuando que sua sorte poderia ter sido diferente, se tivesse sido preso tambm em 1980, no DOPS de So Paulo?

Sem dvida, este foi o MAIS INDECENTE FURO JORNALSTICO dos ltimos tempos, que diminui a imprensa, a grandeza do Estado Democrtico de Direito e que, desgraadamente, pe novamente em discusso os limites do direito de os veculos de imprensa informarem, de destrurem honras alheias, famlias inteiras, atentarem contra a dignidade alheia e a auto-estima de um povo, que se imagina governado por gente honesta, equilibrada.

A desastrada e encomendada matria, com espao to farto e privilegiado, exala um mau cheiro insuportvel, forando a mudana do slogan da Folha de S. Paulo, de UM JORNAL A SERVIO DO BRASIL para UM JORNAL QUE NO RESPEITA O LEITOR.

Votei no Lula em 2002 e logo depois passei a critic-lo por discordar de caminhos que adotou, traindo seu passado de lutas e o prprio programa de governo que prometeu e nem chegou a montar. Meu jornal, Tribuna da Imprensa, com 60 anos, foi uma das maiores vtimas dos truculentos governantes revolucionrios e por no transigir, foi tambm castigado pelos governantes ditos democratas, inclusive o Lula, que proibiram as estatais de nele anunciar, assim, afastando tambm os anunciantes privados.

A Folha de S. Paulo, diferentemente, foi um jornal a servio da ditadura e que cresceu sua sombra. Sua covardia e colaboracionismo com os mandantes militares eram to acentuados queasedies do jornal saram vriosanos sem editorial. O jornal nem tinha opinio.

Economicamente deficitrio, sobreviveu, entre meados de 1960 e incio de 1980, graas utilizao irregular de um valorizadssimo espao pblico no bairro de Campos Elseos, em So Paulo, onde montou a sua Rodoviria e para onde todos os nibus que chegavam a So Paulo tinham que se dirigir. Essa centralizao provocou durante dcadas prejuzos incomensurveis cidade de So Paulo, que tinha seu trnsito totalmente congestionado, e populao, que tinha sua sade afetada pelo excesso de poluio despejada no entorno da Rodoviria, uma gigantesca armao de ferro empastilhada e de um mau gosto mpar.

No governo de Abreu Sodr, o coronel Fontenelle, diretor de trnsito de So Paulo, ameaou deslocar a Rodoviria, descentralizando-a. A Folha ameaou no dar sossego s autoridades de ento se isto fosse efetivado. Nada aconteceu a no ser a morte do desautorizado coronel. Isto, sem falar na famosa histria das ASSINATURAS PERPTUAS. (O senhor Otvio Frias exigiu a sada de Fontenelle. Demitido, no mesmo dia quando dava entrevista, morreu em frente s cmeras de televiso).

Como mostram alguns informes inseridos em diversos sites, se os inimigos da combativa Folha de S. Paulo dispusessem de uma pgina inteira para contar pormenores de seu surgimento, crescimento e consolidao como empresa jornalstica, certamente, muitos casos inconvenientes poderiam surgir e que no deveriam assim mesmo ser publicados porque nada acrescentam ao dia-a-dia do leitor, como a absurda histria, inescrupulosamente, publicada com a assinatura do colunista Benjamin, com o pleno conhecimento dos editores da mesma Folha.

No d para acreditar que a Folha de S. Paulo, que, competentemente, produz artigos e comentrios fundamentados sobre os mais variados temas (jornal de maior circulao), tenha permitido que tamanho e to comprometedor disparate tenha sido inserido em suas pginas.

Somente uma mente doentia e abominvel poderia concordar com tal maldade, pois, goste-se ou no de Lula, a criminosa e intempestiva histria atinge um cidado que preside a Repblica Federativa do Brasil h 7 anos e com aprovao de 70% de sua populao, sem falar no prestgio que vem desfrutando no Exterior.

A matria no jornalstica, no se justifica e foi mal montada. Seus escusos objetivos no foram bem dissimulados, o que s agrava a responsabilidade de quem autorizou sua edio e veiculao. Por muito menos, o conceituado jornal O Estado de S. Paulo vem sofrendo inaceitvel censura prvia. O irresponsvel artigo s faz crescer a convico dos inimigos da liberdade de imprensa e que clamam por censura prvia mais ampla, indistintamente.

O comando editorial da Folha de S. Paulo tem a obrigao de, em primeira pgina, desculpar-se junto aos seus leitores, aos brasileiros em geral e aos eleitores de Lula e aos seus familiares por terem prestado to srdido desservio ao pas. Isso no e nunca foi exerccio democrtico e nem uso responsvel da liberdade de imprensa.

Otvio Frias, o pai de tudo, deve estar decepcionado com a falta de critrio e de rumo de seus descendentes no comando do jornal Folha de S. Paulo.

A mente que produz e a que acolhe to medonha criao no pode estar frente de uma empresa de comunicao, que se quer responsvel, criteriosa e comprometida com os interesses dos cidados brasileiros e do Pas. Basta. Meu estmago no de ferro. Nem o dos 300 mil leitores que a prpria Folha apregoa.

No mais, pacfica a responsabilidade civil da empresa jornalstica quando o autor da publicao tenha desejado ou assumido o risco de produzir o resultado lesivo, ou ainda, embora no o desejando, TENHA LHE DADO CAUSA POR IMPRUDNCIA, NEGLIGNCIA OU IMPERCIA. O fato de a Folha estar amparada pelo direito de liberdade de expresso no a isenta da responsabilidade pela prtica de ato ilcito e, no caso, repugnante contra a figura de um Chefe de Estado e de Governo.

Assim, o direito da liberdade de informar no deve ser tolhido, mas exercido com responsabilidade sem lesionar os direitos individuais dos cidados. Em sntese, sem tirar nem por, com a extempornea revelao, a Folha de S. Paulo abusou de seu direito de liberdade de expresso, o que resultou na violao da honra objetiva do cidado Luiz Incio Lula da Silva, presidente da Repblica Federativa do Brasil, em mbito nacional e internacional.

* * *

PS- Essa Folha de hoje que agride a si mesma e a seus leitores, tentando agredir o presidente da Repblica de forma repugnante, a mesma que servia de forma subserviente ditadura. E que usava os carros (kombis) de transporte do jornal, e levava prisioneiros para as sesses amaldioadas nos pores da OBAN. (O correspondente ao Doi-Codi no Rio).

Alm do mais, no h nem comprovao do fato noticiado e que teria SUPOSTAMENTE ocorrido em 1980, portanto h 29 anos. Lula realmente esteve preso, e nesse perodo sua me morreu, permitiram que ele fosse ao enterro. Era o mnimo que poderiam conceder.

PS2- A Folha nunca se mostrou o melhor exemplo da LIBERDADE DE IMPRENSA. Mas agora, vergonhosa e traumaticamente, o jornal mostra que capaz de ser sempre e cada vez mais, saudosista da ditadura. E pode ser o jornal-arauto do regime que j identificam em alguns pasecos da Amrica Central, (e no apenas a) como DEMOCRACIA AUTORITRIA.

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