A fúria de Requião e o surpreendente silêncio da ABI

Pedro do Coutto

No episódio em que, tomado de fúria irracional, arrebatou o gravador das mãos do repórter Vitor Boyadijan, da Rádio Bandeirantes, o senador Roberto Requião revelou sua face de intolerância antidemocrática e seu impulso de somente aceitar o debate e responder perguntas quando lhe convém. Quando estas o incomodam e expõem contradições suas, como a de receber pensão mensal de 24 mil reais como ex-governador, embora ao longo de sua carreira política cobrasse dos outros a ética que afasta ao se tratar dele mesmo, ele se revolta, enfurece, parte para a agressão.

No fundo, um moralista quando expõe os tropeços dos adversários. Para ele, os seus próprios tropeços são imunes a quaisquer críticas. Aliás, o repórter da Bandeirantes não fez qualquer crítica ou provocação. Apenas perguntou como o senador se colocava diante do recurso à Justiça contra tais privilégios (não somente dele) encaminhado pelo atual chefe do executivo do Paraná Beto Richa.

Requião, como todos os grandes jornais publicaram, arrebatou o gravador das mãos de Boyadijan e sequestrou o instrumento de trabalho profissional. Praticou assim um crime. Não tinha absolutamente o direito de se apoderar de algo que não lhe pertence. Mas não foi só. Destruiu o material gravado e com isso tornou-se duplamente responsável pelos danos que causou ao repórter e à emissora. Mas, ironia amarga do destino, com o ato impensado causou muito maiores prejuízos a si próprio. Denegriu sua própria imagem. Vai custar a se recuperar perante a opinião pública.

Nas edições de quarta-feira 27, O Globo e a Folha de São Paulo publicaram os protestos veementes do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Brasília, Lincoln Maia, do presidente da Associação Brasileira de Rádio e Televisão, Emanuel Soares Carneiro, do presidente da Associação Nacional dos Jornais, Francisco Mesquita Neto. Entre os justos e indignados protestos, surpreendentemente não se encontra o da Associação Brasileira de Imprensa. A ABI, que em passado recente, lutou pela redemocratização de 85, pelas eleições diretas, contra a ditadura militar e as torturas. Fez história. Ao lado da OAB, subscreveu o processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor. O notável jornalista Barbosa Lima Sobrinho, na presidência da ABI, retornou em 92 à tribuna da Câmara que dignificou da Constituinte de 46 a 1962, para, em seu nome e em nome de Lavanere Vanderlei, presidente da Ordem dos Advogados, desfechar a peça de acusação a  um curto período negro da vida nacional.

A Associação Brasileira de Imprensa estava – e está – investida da obrigação de manifestar seu repúdio a atitude de Roberto Requião. Da mesma forma o Sindicato de Jornalistas do Rio de Janeiro, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, os sindicatos de jornalistas e radialistas de todo o país. Fica assinalada a triste lacuna.

A Folha de São Paulo e O Globo, também no dia 27, publicaram o pronunciamento de Roberto Requião, terça-feira no Senado, quando apresentou projeto de lei capaz de assegurar o direito de resposta. Ele sustentou que, depois que o STF revogou grande parte da Lei de Imprensa, este direito desapareceu. Uma farsa. Total. Em primeiro lugar, no episódio ocorrido ele se apoderou do gravador do repórter e não procurou exercer direito de resposta algum. Em segundo lugar, apagou a gravação. Como poderia desejar responder ao que ele mesmo destruiu? Terceiro ponto: demonstrou desconhecer o item 5 do artigo 5º da Constituição Federal que assegura taxativamente o direito de resposta. Este dispositivo constitucional, de uma linha, não precisa de lei complementar: é autoaplicável.

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