Absurdo, labirinto e angústia na ficção de Jorge Luis Borges

oficioPedro Beja Aguiar

Com o intuito de analisar a natureza da experiência estética na literatura das primeiras décadas do século XX, a partir da investigação dos mecanismos formais de que o escritor Jorge Luis Borges lança mão em sua ficção, escrevi “Esse ofício da ficção”, que vem para compor uma vasta e já consolidada historiografia que se dedica a pensar o ato da escrita e os limites entre a ficção e o relato histórico.

Há muito tempo já existe no interior do universo literário, principalmente nos círculos acadêmicos, uma vasta discussão entre as diferenças e validades do discurso histórico e do discurso poético. Os debates sobre a aproximação e os distanciamentos entre estes dois tipos de narrativa são tão antigos quanto às diferenças que foram criadas, ao longo do tempo, entre os gêneros da arte.

A distinção entre os discursos ficcional e historiográfico surge na Grécia clássica com o aparecimento da própria historiografia, que procura diferenciar a si mesma da poesia. Desde Aristóteles, que destaca como uma das diferenças entre os discursos o fato de que “um narra os acontecimentos [histórico] e o outro, os fatos que pode­riam acontecer [poético]”, até os ficcionistas modernos, como Henry James, Machado de Assis, Joseph Conrad, entre outros, o ato de escrever sempre proporcionou dúvidas e certezas ao longo dos anos, principalmente com a paulatina valorização do conceito de verdade factual em detrimento da verossimilhança.

HÁ MUITA DIFERENÇA 

Enquanto a atividade dos historiadores se destaca através do processo que procura transformar os indícios do passado, ainda vigentes no presente, em materiais organizados intersubjetivamente, compondo uma historiografia, os escritores de ficção não possuem uma relação criteriosa de lealdade com o mais próximo de uma verdade factual, podendo subverter a ordem e o tempo da narrativa.

É justamente com essa longa tradição de diferenciação entre ficção e história, desde os gregos clássicos até as grandes mudanças ocorridas nos oitocentos, que Jorge Luis Borges se destaca e dialoga. A dicotomia entre o cientificismo da História e o papel central que o imaginário desempenha na literatura de ficção sempre gerou polêmica e reverberou nas dúvidas sobre o verdadeiro papel das artes e até onde seria possível afirmar uma verdade nos relatos históricos. A ficção de Borges busca exatamente a subversão da realidade contemporânea e redefine os lugares na relação entre ficção e um possível real, embaralhando elementos que, sozinhos, já proporcionavam diversas dúvidas.

BORGES E SEU ESTILO

Através deste livro, procurei analisar a natureza da experiência estética ficcional em Jorge Luis Borges a partir da desconstrução do enredo e da reestruturação do sentido do mundo literário que o escritor argentino desempenha em sua poética. As noções de “absurdo”, “labirinto” e “angústia”, são trabalhados exaustivamente na escrita ficcional de Borges, para compreender a reestruturação do sentido no mundo literário e da subversão do princípio da verossimilhança.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Historiador, professor, escritor e nosso colaborador Pedro Beja Aguiar estará lançando no próximo dia 4 de agosto, na editora Multifoco (Av. Mem de Sá, 126, Lapa, Rio), a partir das 18 horas, seu livro “Esse ofício da ficção: absurdo, labirinto e angústia na prosa de Jorge Luis Borges”.  Estão todos convidados. O livro já está sendo vendido no site da Editora Multifoco (http://editoramultifoco.com.br/).

4 thoughts on “Absurdo, labirinto e angústia na ficção de Jorge Luis Borges

  1. Parabéns, Pedro. Parabéns a seus pais, seu tio Marco Antonio e sua avó, Irineia.
    Pedro, tão jovem, 23 anos de idade, já formado em História pela UFRJ, e mestrando em Letras pela Puc-Rio. Quando você era ainda pequeno, 4,5…anos, todos diziam “O Pedro é um talento”. O tempo passou e todos acertaram. Viva muito, Pedro. Ensine, ensine sempre, principalmente aos menos favorecidos. Você é o instrumento para formar novas gerações de brasileiros do saber, da honestidade, da ética, das ciências…. À Tribuna da Internet toda a nossa família agradece o apoio a este jovem professor, que está só no começo e precisa de todos nós, que começamos décadas e décadas atrás e cumprimos com nossas obrigações. Deus nos conserve, a todos.
    Jorge

  2. É com grande honra e prazer que escrevo para o jornal online Tribuna da Internet. Só tenho a agradecer muito o apoio do Tribuna, jornal respeitadíssimo e muito importante para a história do Brasil, e ao meu primo, Jorge Béja, pessoa que me abriu esta porta e tem me ensinado muito.
    Um agradecimento que ainda preciso fazer e que já devo há algum tempo é ao ilustre jornalista Carlos Newton, figura também muito importante para a história do jornalismo brasileiro e que engrandece o jornal com sua motivação e talento. Infelizmente, ainda não o conheço pessoalmente, mas torço para que este dia logo chegue e eu possa agradecê-lo da forma como é conveniente.
    Tenho muito respeito e carinho por este jornal e todos que aqui escrevem. Para cada texto meu que é colocado próximo aos textos de mestres, como: Jorge Béja, Carlos Newton, Leonardo Boff, Sebastião Nery, Pedro do Coutto, Mauro Santayana, Percival Puggina e Carlos Chagas, me estremeço de orgulho e medo; principalmente medo, por saber que divido espaço com parte brilhante da intelectualidade brasileira e que, com isso, tenho de honrar o espaço que ocupo.
    Muito obrigado, Carlos Newton. Muito obrigado, Tribuna da Internet.

  3. Eu quero ser otimista, mas estamos no meio de uma revolução tecnológica, especialmente na área de comunicação, e a tendência parece encaminhar-se para mudanças radicais na forma de difusão da criação literária. A meu ver a literatura não acabará, porque narrar faz parte do processo de constituição da identidade humana e a poesia é a forma mais refinada de mergulharmos na dor e na alegria, coisas que dificilmente acabarão. Já o livro em papel sobreviverá talvez como certas artes menores, cunhagem de moedas, a tapeçaria, a gravura. A literatura mantém o homem permanentemente em questão, porque ele é o único ser cuja essência é a questão do seu ser – somos todos inacabados, incompletos e não é o Prozac que dará jeito nisso. Logo as coisas sérias transitarão por uma grande literatura minoritária, para poucos, como é o caso do surpreendente As Benevolentes, do franco-americano Jonathan Littell. Quando se falava na morte da arte de escrever pelo mercado de porcarias sub-literárias, surge um romance como este, de 900 páginas, em que um carrasco nazista bissexual dá sua visão da matança nos campos de batalha e de extermínio na Segunda Guerra Mundial. O poder hoje está com as neurociências, a biotecnologia e a hipercomputação e suas maravilhas, mas elas não são nada sem as palavras e a palavra é a nossa única possibilidade, como a flor que fura o asfalto, de transcendência na pura imanência tecnológica.

  4. Parabéns Escritor Prof. PEDRO BEJA AGUIAR pelo lançamento do Livro “Esse Ofício da Ficção, absurdo, labirinto e angústia, na prosa de JORGE LUIS BORGES”.
    Gostando de Literatura, ainda jovem voltei os olhos para o Sul da Província Cisplatina, e tomei contacto com JOSÉ INGENIEROS ( O Homem Medíocre ), JOSÉ HERNANDES ( Martim Fierro ), e meu preferido FAUSTO DOMINGO SARMIENTO ( Civilização & Barbárie; Facundo ). Tentei ler JORGE LUIS BORGES, mas achei-o muito denso, pesado, muitas vezes incompreensível, não prossegui. Parabéns, ABRS.

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