A “Geração 68” e o surgimento dos espíritos livres, que melhoram o mundo

Confrontos entre estudantes e policiais em maio de 68 em Paris

Esta imagem simbolizou maio de 1968 em Paris

Maurício Dias David  

Aquela geração de homens e mulheres, que passou para a para a história como a Geração 68, demarcou uma das vezes em que os espíritos livres surgiram em grandes grupos na face da Terra. E entender-nos significa, ao mesmo tempo, compreender os enigmas do presente!

Por um homem que já ultrapassou a marca dos setenta, pertenço à era do pós-guerra do século vinte, uma daquelas que nos tempos modernos mais intensamente estimulou experiências radicais, que formatou pessoas que
ousavam mudar o mundo, onde se quebraram tabus como nunca antes na história, quando se sofreu e praticou violências, quando a vivência do humanismo abarcou suas mais diferentes fontes, que, enfim, para o bem ou para o mal, foi o tempo da existência da geração incubadora do mundo em que se vive hoje.

ESPÍRITOS LIBERTOS – Se é verdade que a dinâmica humana engendra a formação de espíritos livres, também é verdade que eles se tornam realmente libertos apenas em
determinados momentos históricos; estes momentos são tão tumultuosos que toda a natureza se agita, a terra põe-se a tremer sofrendo de convulsões que abalam até sua ígnea matéria; os mares se elevam sob os influxos lunares; os céus são cortados por raios e estrondos, como se as portas de comunicação que unem nosso mundo com o celestial e o subterrâneo de repente se abrissem de para em par.

E estas aberturas propiciam a coexistência do divino e maravilhoso, com o pérfido e o demoníaco, do criativo com o conservador, do revolucionário com a reação às previsíveis mudanças.

UM SOLO INCERTO – Então, o solo social sob o qual sempre o homem pisou de modo tão seguro, agora se afigura incerto, e gretas e chamas dele se erguem e tudo prenuncia o surgimento do novo.

O tempo de surgimentos dos espíritos livres é quando os grilhões que acorrentavam, aparentemente, para sempre os espíritos uns aos outros, à rotina sempre vivida, aos preconceitos, às infindáveis culpas e ao pecado, rompem-se com estrondo e os espíritos, tornando-se livres das amarras, começam aqui e ali a surgirem, a contaminarem
outros acorrentados, a incentivarem o rompimento de outras amarras.

E a Gaia Terra, que estremece, sabe que jamais voltará a ser a mesma, após estes sublimes momentos históricos de arrebatamento, de ruptura, de coragem, de dor e de criação inauditos.

FASES ENGRANDECEDORAS – São momentos históricos como os de 1968 que tornam a presença do homem sobre
a terra justificável, que empurram o niilismo para trás da cortina da vida, que transformam um mundo sem sentido em um universo em si e para si.

Pois somente os espíritos que ousaram em determinados momentos se libertarem é que assumiram a responsabilidade de mudar o mundo. Sob sua ação nada mais permaneceu como era antes.

Nem mesmo importa que muito dos sentidos destas mudanças hajam se perdido ou desvirtuado, que os ideais revolucionários tenham sido substituídos pelo bem-estar pessoal ou pelo espírito dos burocratas: O mais importante, o que definitivamente conta é que os espíritos livres fizeram a História da Humanidade e nela escreveram as linhas mais belas, mais Humanas, demasiadamente Humanas.

RASGAR O VÉU DA ROTINA – Quando a jovem alma se liberta ela rasga o véu nauseante da rotina, arrebata e é ao mesmo tempo arrebatada e, talvez seja por isso que ela mesma não compreenda muito bem toda a extensão do que se passa.

Um impulso num ímpeto se torna senhor de sua ação, despertando um desejo de ir avante, seja para onde for a qualquer preço; uma jamais suspeitada, mas impetuosa e perigosa curiosidade, uma busca por um mundo  inexplorado se inflama e crepita em todos os sentidos.
“Antes a morte que a vida mesquinha de antes”- assim soa a voz imperiosa da sedução a negar tudo o que se havia amado até então!

Entroniza-se nos espíritos, um súbito pavor e premonição contra o que antes era o antigo e como num relampejar surge o desprezo por tudo aquilo que os espíritos ainda agrilhoados consideravam “ser” e “dever”

FONTE DA CRIATIVIDADE – O espírito liberto sorve, então, da fonte preciosa de uma nova criatividade antes insuspeitada; sente nas entranhas um desejo tumultuoso, arbitrário mesmo, vulcânico de andança e de negação de tudo que não acompanhe sua própria mutação.

Seu ódio a tudo o que represente o antigo transforma-o em um iconoclasta e ele caminha destruindo até mesmo os seus próprios mitos e imagens. Neste momento, então, aqueles que ousaram e tiveram a ventura de serem penetrados pela liberdade do espírito, puderam sentir um regozijo, um arrepio de bêbado apaixonado pelo perigo. E do perigo retirou o orgasmo que lhe deu toda uma nova vida e o prenúncio de vitória sobre uma sociedade esclerosada e dormente com seus ópios e opróbios!

Então, o espírito livre sorri, mas este sorriso não tem nada de angelical, pois ao libertar-se, o halo de inocência caíra no pó de um tempo que já era passado. O sorriso do espírito livre tem um misto de maldade e malícia, e será a sorrir que ele irá revirar tudo o que estava encoberto e,
desnudando-se, principia o grande ensaio de entender como seriam todos os conceitos da vida virados ao avesso.

AOS MAIORES PROGRESSOS – Os espíritos fortes e libertos foram os que obrigaram a natureza humana aos
maiores progressos, reascenderam paixões adormecidas –  aquelas mesmas que as sociedades policialescas as fazem esquecer.

Despertaram as contradições, o gosto pelo risco, pelo inusitado. Para muitos, criaram o mal, mas de qualquer forma, o novo é sempre visto como o mal, pois é o que quer conquistar, o que quer destruir antigas crenças. Para espíritos agrilhoados só o antigo, o velho, o conhecido é o
bem.

Já os “homens de bem” de todos os tempos nada criaram, apenas aprofundam velhas ideias. A natureza de todos os “homens de bem” é vulgar, pois nunca perde de vista o seu benefício próprio, que na velha sociedade capitalista chama-se lucro.

UMA NOVA MORAL – Mas os espíritos libertos instituem seu próprio e único árbitro – não mais aceitam nenhum valor, nenhuma moral que lhes seja imposta – e sua curiosidade esgueira-se para tudo o que sempre fora um dogma, para tudo o que antes lhe era proibido.

Mas no fundo de sua agitação, o espírito livre é um errante, um ser intranquilo, que, por ser indomável, não segue um rumo pré-determinado. A história, ele a quer toda reescrever a seu modo.

Mas depois de libertar-se de suas amarras, surge um momento crucial: é quando o espírito se pergunta se, no fundo, todos os valores da sociedade em que vive não seriam todos falsos. Agora, não lhe basta mais questionar os valores da antiga sociedade, ele vai além e coloca em xeque até mesmo os novos valores adquiridos. E isto ele o faz dialogicamente, numa sequência de negar, negar a negativa, buscar uma síntese que, por sua vez, também será questionada.

ENGANADORES – E neste eterno questionar, os espíritos se perguntam: se todos temos sido sempre enganados, por que um dia não nos tornaremos também enganadores de outros espíritos que desejarão se libertarem?

Os espíritos, por serem livres, conseguem intuir até mesmo sua própria esclerose e morte futura, pois sabem que, ao seu tempo, ela ocorrerá para a grande maioria daqueles que se rebelaram.

Até mesmo, naquele momento, este conceito sacrifical de seu próprio eu não lhe parece impossível e se ele se questiona é tão somente porque ainda possui o bálsamo da virtude daqueles que se banharam nas águas da liberdade.

50 ANOS DEPOIS – Ainda hoje, passados mais de 50 anos, quando fecho os olhos vejo aqueles espíritos livres surgirem nos momentos de explosão da rua Maria Antônia, pressinto-os ao meu lado, como se das batalhas de rua dos Champs Élysées eles ressurgissem; reconheço-os nos Panteras Negras americanos, farejo-os na resistência à Guerra do Vietnã, nos movimentos hippies, nas inúmeras reuniões no CRUSP, na marcha dos 100 mil da Cinelândia, nas dezenas de organizações de contestação social – armadas ou não – que surgiram nos anos 1960, frutos dos mais saborosos e fecundos atuarem dos espíritos que se tornaram livres!

Eu também os encontro em todos os porões da Ditadura Militar pelos quais perambulei em tão maravilhosa companhia, por tantos anos. Aqueles que nos insurgimos, que buscávamos destruir os grilhões que ontem e sempre aprisionam os espíritos, nós fomos, é verdade, esmagados pela reação.

GRITOS DE VITÓRIA – Formou-se uma geração de perseguidos, torturados, aprisionados, os melhores dentre nós assassinados. Foi quando os esbirros dos porões da ditadura entoaram seus gritos de vitória.

Mas enganaram-se a cada alma nobre que julgavam assassinar, porque, nós, os espíritos livres de toda uma época, não fomos derrotados.

Nós existimos, pautamos parcela da história da humanidade, deixamos nosso exemplo de rebeldia, sacudimos os preconceitos, descortinamos os caminhos
para o retorno à democracia, denunciamos e continuaremos a denunciar como crime aqueles que usurpam o poder que só pertence ao povo.

O MUNDO MUDA – Acontece que a cada o surgimento dos espíritos livres, jamais o mundo permanece o mesmo; e a história, que não se duvide, num futuro, que também ninguém sabe quando se dará, voltará a engravidar-se de novos e pungentes espíritos, daqueles que farão novamente a alma humana pulsar pela liberdade e rasgar as túnicas prostituídas de um passado medíocre, corrupto e corruptor.

E assim segue a história da humanidade, pontilhada de espíritos que fazem com que o mundo e a vida, que de outra forma nada mais seria que uma eterna luta animalesca pela exclusiva sobrevivência, ganhe sentido, torne-se, enfim, humana.

(artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

11 thoughts on “A “Geração 68” e o surgimento dos espíritos livres, que melhoram o mundo

  1. Sensacional !!!
    Que fascinante, este texto !
    Parabéns muitas vezes, Maurício Dias David e Mário Assis Causanilhas !
    Amazing !!!

  2. Leio sempre, porém com uma certa preocupação, textos que enaltecem pessoas de uma época, que lutaram bravamente para que as demais aproveitassem as vitórias obtidas com destemor e sacrifício humano!

    O articulista escreveu uma crônica romântica, onde fala dos espíritos notáveis de 68, e daqueles que estiveram presos nos porões da ditadura.
    Na sua ótica, heróis que estremeceram a terra, que valorizaram a humanidade.

    Há controvérsias.

    Lamento profundamente quando um bom artigo é desperdiçado porque foi exclusivo para um tipo de pessoa, de gente que se considera superior, que lutou, perdeu, que se reergueu, que foi uma geração do pós-guerra, e blá blá blá.

    O esquecimento dos verdadeiros heróis sempre é a tônica de crônicas que prestigiam quem foi para as ruas; quem enfrentou a polícia; quem “combateu” a ditadura; quem se “sacrificou” pelo próximo.
    Há mais lenda que verdade nessas palavras.

    Se quisermos homenagear os legítimos heróis, os de verdade, jamais poderiam ser esses “guerreiros”, que mais procuravam encrenca e movimento, que buscar melhores condições para o ser humano.
    Refiro-me ao povo!

    Calado, cônscio de seus deveres, responsável pelo seu emprego, família, sustentar os filhos – pois enquanto essa turma de cavaleiros errantes berrava, vociferava, protestava, jogava pedras, destruía vitrines e arrebentava portas de lojas, havia quem estivesse cozinhando, dirigindo ônibus, táxi, trabalhando em bancos, supermercados, hospitais, postos de saúde, cuidando da segurança, lecionando, cuidando dos filhos dos outros nas creches!

    Desse pessoal ninguém comenta;
    Desses heróis anônimos ninguém se lembra;
    Dessas pessoas que levaram o Brasil nas costas, enquanto vivia um regime de exceção, elas são simplesmente deixadas de lado.

    Então me aparece o David, contando as suas proezas, mencionando seu espírito rebelde, apresentando-se como avalista da humanidade porque, na sua concepção, ser humano é luta, combate, insatisfação, rebeldia … menos agir com responsabilidade e trabalhar!

    Não preciso relembrar os guerrilheiros de 68.
    Roubos a bancos, sequestros, apedrejamentos, reuniões secretas, emboscadas, assassinatos, atentados …
    No Brasil não houve luta alguma pela democracia, pelo contrário, a intenção era implantar uma ditadura do proletariado.

    O País era comandado pelas FFAA. O grupo armado, que se julgava guerrilheiros do bem mas, o comportamento era de vândalos, ladrões, terroristas; tempos depois quis atribuir a si mesmo uma aura de heróis, de espíritos livres, que fizeram história … mas que tipo de história?

    Bom exemplos não deixaram;
    Conduta avessa às leis não pode servir de modelo para ser copiada;
    Agir da mesma forma violenta do usurpador, muito menos.

    Heróis, espíritos livres, então o meu reconhecimento e homenagem aos que demonstraram que a verdadeira liberdade não é fazer o que se quer, MAS O QUE SE DEVE!
    O trabalhador, que não permitiu que o Brasil parasse, enquanto sonhadores e românticos encasquetavam se digladiar com as autoridades e até com eles mesmos, meu mais efusivo aplauso, agradecimento, minha solidariedade.

    Pessoas como o David, que se sentiram úteis apenas para si mesmos e para seus movimentos “anarco-político-social-ideológico”, não foram além de experiências. Umas profundas, outras superficiais. Agora, não me venham convencer do seu heroísmo e espírito livre porque mero conto de fadas, as indiscutíveis lendas urbanas.

    Por outro lado, esta geração de 68, incomparável para o autor do artigo em tela, foi parar aonde?
    Todos morreram?
    Desligaram-se da política?
    A ideologia de antes mostrou-se tendenciosa e enganadora?

    No caso nosso, do Brasil, Dilma foi presidente, e a suas administrações restaram no quê?
    Zé Dirceu foi para o exílio. Ao voltar, ficou escondido por longos anos. Como membro do PT, sabemos como foi a sua atuação no poder, onde a corrupção é a sua marca registrada.
    E vários outros “heróis e espíritos livres” também seguiram a mesma trajetória de roubos, desonestidade e corrupção, jamais vistas na História do Brasil!

    Em outras palavras:
    Somente para o grupo que o David pertence é que se julga superior às demais pessoas.
    No entanto, para a maioria absoluta e excluídas deste rótulo heroico e de liberdade, a geração de 68 nada tem de concreto para caracterizar seus feitos.

    Se queria mudar o mundo, deveria começar consigo mesma, para depois lançar-se no imenso espaço que havia para mudanças que, de fato, contribuíssem para o bem de todos, menos para alguns descontentes.

    O artigo é bom, bem escrito, concatenado, mas um romance de um passado ainda recente.
    Porém, sem qualquer colaboração inquestionável da geração de 68, para que as gerações de 78, 88, 98, 2008, 2018, possam prestar-lhe os títulos autoconcedidos pelo David, de heróis e espíritos livres!

    Menos, David, menos.

  3. Não embarquei nessa onda, da qual sinto saudades, talvez, porque não a tenha vivenciado o seu limiar.
    Depois fui crescendo, ouvindo o meu genitor e um seu colega de caserna fazerem algumas narrações acerca.
    Mais tarde conheci, Riba, cunhado da minha tia que combateu no Araguaia, assim como meu confabulante, Sérgio Nogueira. Este último falava-me dalguns personagens do teatro de guerrilha: Osvaldão, Júlio Santana, Hugo Abreu, José Genoino etc.
    Aqueles contos beligerantes, narrados com um misto de melancólicos e epopéicos, fizeram-me agarrar nas fiações que me conectassem, mais tarde, em um guerrilheiro. O tempo passava, e aquele contexto belicoso ia esmaecendo; à medida que os primeiros lampejos da democracia já riscavam no horizonte.
    Contudo, ainda assim, busquei prenoções ou aprofundamento em eletrônica e química aplicadas, com produção de artefatos, estudo das línguas russa, espanhola, francês, inglês, tupi-guarani e outras. Filiei-me a um partido afeto à luta armada, mergulhei na literatura revolucionária e cultivei muitos contactos quentes, com simpatizantes da causa, na Rússia, França, Cuba, Peru, Colômbia, Angola……Todas as minhas correspondências eram inspecionadas por um serviço de “arapogagem” da ditadura militar, sediado em Recife. Mas eu tinha outros canais de comunição que driblavam o monitoramento oficial.
    Por que desisti de seguir adiante? Por causa da mentira do Capo, o qual era o caudilho do meu partido. Prometeu que me enviaria à Rússia, onde passaria por um treinamento tático de guerrilha. E ficava adiando a “viagem dos que não foram”; quando, alfim, descobri se tratar duma manobra para me manter servindo a sigla, aqui mesmo. Aí, não me restava outra saída, senão a própria saída!
    A vida é um eterno aprendizado. Quem pensar que já se acha pronto e acabado. Coitado, começou e terminou acabado!
    Minha decepcionante experiência: se o assunto for recrutar, aprendi que não existem melhor ímã como o impingimento; e que, alavanca para subjugar, nenhuma supera a eliminação física.
    -Embora se dizem todos ateístas, mas os partisans recorriam, insubstituivelmente, o mesmo método que o deus bíblico usava para dominar: morticínios, pilhagens, sub-reptícios, torturas, “justiçamento” e tantas outras crueldades.
    Antes que a morte a encerre, já que ela está internada com câncer, eu mesmo encerro com ela, Rita Lee: LIVRE OUTRA VEZ, NO XADREX.

  4. Por que desisti de seguir adiante? Por causa da mentira do Capo,.

    Sr. Paulo.

    Mentir é uma das virtudes dessa turminha.
    Vivem de mentiras, em mentiras tem alguns “Capos” que são a propria mentira em pessoa.

  5. Faltou Freud ao Marx Por isso temos libertários bandidos e criminosos como Lula, família Castro e outros gângsteres travestidos de esquerda. Lula é um office-boy da burguesia criminosa e patrimonialista.

    De 68, não sobra nada na pseudo-esquerda contemporânea, Se já podemos chamar bandidos de esquerda.

  6. O vendaval dos ideais de liberdade de 1968 que assolou o planeta vai muito além do estereótipo da luta “armada”. Muito além.

    E nem precisarei citar a questão Estética, decorrência daquele vendaval.

    Lembrei de Vandré, antes de sofrer “lobotomia psicológica”:

    “Você que não me entendeu, não perde por esperar.”

  7. Lamento Barista Filho, quando não entendes que uma ou outra observação minha com relação aos teus comentários não são críticas, mas interesse no debate.

    Não entendi a tua colocação:
    “E nem precisarei citar a questão Estética, decorrência daquele vendaval.”

    Estética?!

    Viste beleza aonde, nos protestos que a Europa desencadeou?
    Enxergaste perfeição aonde, nos acontecimentos brasileiros naquele ano?

    Olha, ideias jamais moveram o mundo, Batista.
    O que faz a humanidade seguir em frente são as atitudes, as medidas levadas a efeito, as iniciativas, as realizações.

    Observa:
    Afora o auxílio imenso prestado pelos filósofos ao conhecimento humano, nenhuma das grandes invenções, descobertas, criações, tiveram algum filósofo por trás!

    Agora, médicos, engenheiros, professores, comerciantes, industriais, pilotos de avião, comandantes de navios, motoristas de caminhão, ônibus, táxi, eletricista, mecânicos, garçons, enfermeiras, lavadeiras, cozinheiras, diaristas, pedreiros, carpinteiros, serventes, serralheiros, construtores, técnicos diversos, lavoureiros, pessoas humildes, que jamais tiveram tempo para pensar ou saber que seus espíritos eram livres (?!), pois esta gente é que devemos agradecimentos e reconhecimentos.

    O desenvolvimento humano também preconiza que devemos deixar de lado certos mitos, pois podem se transformar em más influências comportamentais.
    O romantismo de uma geração que “mudou o mundo”, mas desde quando??!!

    Que bobagem é essa de espíritos livres, como se fosse possível prendê-los numa prisão?!

    A fuga da realidade por um bom número de pessoas preocupa.
    Elas querem que as suas ideias façam o mundo vivê-las, porém jamais aceitam a verdade que as rodeia.

    Se espírito livre quer dizer sonhar, imaginar, fantasiar, tudo bem – volta e meia me pego fazendo planos, se eu ganhasse a mega sena.
    Agora, no mundo de hoje com tanta miséria, pobreza, fome, doenças, carências, bilhões de desvalidos, de desempregados, sem perspectiva de vida, a não ser subsistir, por favor, a geração de 68 não difere em nada das demais que lhes sucederam!

    O mal de alguns é sonhar em demasia.
    Romancear a sua vida, a ponto de desconhecer quem ele é, pois adora projetar a sua existência porque desse modo foge da realidade.

    Espíritos livres … perguntemos aos necessitados se sabem o significado desta expressão?
    Ao desempregado; ao pobre e miserável.

    Por outro lado, algum herói surgiu desta tão propalada “geração de 68”?
    O célebre mês de maio de 68 trouxe algum feito à humanidade?

    Curioso …
    Depois do fim da Segunda Guerra, em 45, o mundo se viu diante da maior população de jovens na sua história, ávidos por novidades, de falarem de si mesmos, de haver uma espécie de contracultura daquela imposta pela geração responsável pelo maior conflito da humanidade!

    No entanto, o “estilo”, que deves estar te referindo, Batista, a Europa muito se utilizou dos americanos na música, e no chapéu de Mao!
    O maior movimento de jovens no mundo inteiro foi o rock, um aperfeiçoamento da criativa música negra dos Estados Unidos.

    Quanto as letras, convenhamos, a ingenuidade era até mesmo torturante.
    Os Beatles que o digam, pois até apelidados de Reis do Iê, Iê, Iê!

    Nesse meio tempo, a década de sessenta ainda continha poderosas heranças da escravidão no País do Tio Sam;
    O atraso americano com relação aos direitos dos negros foi algo bestial, criminoso.
    Na Áustria, ouvir canções de outros países ou vestir-se de acordo era criticado, pois não tinha sido orientação de Hitler (lembro que o Cabo era austríaco).

    Preconceito, segregação – Biafra, lembra da guerra com a África do Sul, pela sua independência?
    Durante o ano de 48 até 93, o mundo assistiu OMISSO E CALADO, inclusive a geração de 68, ao Apartheid.

    Ora, lamentavelmente a África do Sul não tinha o glamour parisiense, londrino, romano, então que os segregados e apartados que se virassem!!

    Repudio esse romantismo que se quer dar a um certo período porque mais de insatisfações pessoais e sintomas claro de juventude rebelde, que haver um vínculo político para mudar mesmo o mundo!

    Há muito de falso heroísmo, que nos empurram goela abaixo, para que tenhamos bilhões de pessoas carentes, desvalidas, pobres e miseráveis atualmente.

    Ah, antes que eu esqueça, em 68 houve a famosa Ofensiva do Tet,
    As tropas militares do Vietcongue e do Vietnã do Norte empreenderam uma violenta ação militar com o objetivo de tomar conta de todo o Vietnã. Entre outras cidades, Saigon, Hué e Khe Sahn foram tomadas por diferentes tropas comunistas.

    A ação militar dos vietcongues ganhou os noticiários do mundo inteiro com a reprodução do conflito em tempo real. Entre as mais famosas imagens da guerra está a do assassinato de um suposto vietcongue com um tiro na cabeça.

    Aonde estava a geração de 68??!!

    Quanto a Vandré … Vandré … alguém lembra dele??
    Agora, da mesma época tivemos Chico Buarque, Caetano, Gilberto Gil, o romântico movimento denominado de A Jovem Guarda …
    Afora nos divertirem e nos fazerem dançar, colaboraram com o País sair da ditadura ou correram para o autoexílio?

    Quais teriam sido os maiores eventos na turbulenta década de sessenta do milênio e século passado?
    A meu ver, claro:
    O assassinato de Kennedy;
    A crise dos mísseis entre a União Soviética e Estados Unidos;
    O ápice da Guerra do Vietnã;
    O assassinato de Robert Kennedy;
    O assassinato de Martin Luther King;
    A Guerra de Biafra;
    O primeiro transplante de coração do mundo, por Christian Barnard;
    O homem ter descido na lua.

    Que tanto valor se deve dar à geração de 68, se de nada adiantaram os protestos, as ideias, e os espíritos livres para melhorar a humanidade??!!

    Enfim, eis o contraponto do teu comentário, Batista.
    Não estou dizendo que estás errado, mas existem controvérsias a respeito deste enaltecimento frágil e sem alicerce para se manter em pé, além do momento onde se realizou.

  8. Nos anos 60 e início dos 70 surgiram os movimentos contra os costumes conservadores.
    A minissaia, os Beatles, cabelos compridos, movimentos contra a guerra do Vietnã, revolta dos estudantes na França, Festival de Woodstook, a Jovem Guarda e o tropicalismo, Festival da MPB no Brasil, calças Lee, calças boca de sino, foram exemplos.

    Assim, foi uma década que buscou romper valores. Acho injusto colocar o ano de 68 como marco dessas transformações. Claro, o avanço da tecnologia faz parte desse processo.

    Não diria que foram espíritos transformadores, como Platão retratou na Alegoria da Caverna, mas reconheço que nesses anos, houve uma mudança bastante grande na mentalidade reinante. Coisas que transformaram o mundo.

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