A Grécia é aqui

Carlos Chagas                                                                  

A polícia não está na rua batendo em populares, nem estes estão enfrentando a polícia, mas, tirando o sangue quente dos gregos,  o Brasil vai sendo transformado numa imensa Grécia. Fala-se da fórmula ditada pelo FMI e os banqueiros internacionais para enfrentar crises econômicas, ditas “medidas de austeridade”,  ainda que  devam ser chamadas de medidas anti-povo. Em Atenas o parlamento examina a proposta, de uma só vez,  de aumentar impostos, reduzir salários, pensões e aposentadorias,  promover demissões em massa, multiplicar o desemprego, cortar investimentos sociais e usar empréstimos externos para pagar dívidas externas, com juros, além de   alimentar  a especulação e financiar  os negócios das grandes empresas.
                                                                 
Em Brasília, faz tempo que essas  maldades vem acontecendo aos poucos. Anuncia-se mais uma “reforma” na Previdência Social, reduzindo para 70% as pensões das viúvas e  suprimindo o benefício para pessoas  com menos de 35 anos. No primeiro caso, simplesmente vão cortar 30% de quem recebe 524 reais de salário mínimo para sobreviver. No outro, condena-se pessoas à fome apenas por não serem velhos. Isso depois de nivelarem pensões e aposentadorias por baixo, aproximando-se todas do salário mínimo, além da criação do deletério fator previdenciário.  

Ao mesmo tempo, arquiva-se a PEC que faria justiça salarial a bombeiros e policiais militares,  sob o pretexto de onerar os estados em 46 bilhões de reais. Importa  menos se essas categorias recebem   migalhas para arriscar diariamente a vida. 

Anuncia-se, em paralelo,  a liberação de 4 bilhões do BNDES para financiar a fusão entre dois supermercados. Governo e elites  não estão nem aí para o fato desse casamento gerar milhares de demissões e engessar os consumidores, tudo  com dinheiro público, proveniente de elevados  impostos que todos recolhem.  É o que vem se verificando desde que aberta a temporada das privatizações. 
                                                      
Outras “medidas de austeridade” estão em pauta, como cobrar imposto de renda de miseráveis que não podem pagar, aliviar a carga fiscal dos potentados, promover cortes em programas sociais, aumentar juros para enriquecer banqueiros e especuladores, entregar mais  patrimônio público à iniciativa privada, com financiamentos públicos, congelar reajustes salariais e muito mais coisa.

A diferença entre nós e a Grécia, vale repetir,  é que lá pretendem impor todas essas medidas de uma só vez, enquanto aqui as maldades vem sendo praticadas a conta-gotas. Dá no mesmo, ainda que por enquanto, entre nós,  sem os conflitos e confrontos verificados do outro lado do  mundo. Até quando?

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ULTIMATO REDOBRADO
                                                        
Há dias vimos alertando para a iminência do choque,  agora caracterizou-se. PMDB e PT renovaram o ultimato a  Dilma Rousseff, via Ideli Salvatti: ou o governo prorroga o decreto que libera 4,6 bilhões para pagamento das emendas individuais ao orçamento ou nenhum projeto de interesse do palácio do Planalto será votado no Congresso.
       
 A presidente mostra-se disposta a resistir, faltam poucos dias para o congelamento dos recursos destinados às emendas parlamentares. Se puder manter a determinação, a hora será do enfrentamento entre Executivo e Legislativo. 

O que espanta todo  mundo é a desfaçatez com que a dita base de apoio ao governo abre a goela. A fisiologia ocupa todos os espaços.

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DEVIAM FICAR NOS BUEIROS
                                                       
Anos atrás, na febre privatizante do governo Fernando Henrique Cardoso, a Light  foi doada a uma empresa francesa a preço de banana podre. Os novos donos demitiram em massa, prometendo mas não cumprindo a implantação de melhorias no serviço de abastecimento de energia no Rio e adjacências. 

São mais de 50 os bueiros que vem explodindo na antiga capital, em muitos casos com vítimas. Nenhuma explicação convincente é dada. Seria fascinante  pegar todos esses  franceses e confiná-los nos bueiros,  até que resolvessem a questão.

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O TROCO COM JUROS
                                                        
Repercute ainda hoje no Senado a intervenção de Francisco Dornelles durante exposição feita pelo ministro Aloísio  Mercadante na Comissão de Economia.  Ressalvando ser contra a criação de uma CPI e até sustentando que o caso deve ficar com a polícia  e o Ministério Público, ao abordar o escândalo dos aloprados,  o representante fluminense cobrou do depoente a prática de agir baseado em  notícias de jornal. Anos atrás, como líder do PT, Mercadante exigiu da tribuna a cassação de José Sarney e de Renan Calheiros, acusados de irregularidades. Apurada a acusação, nada se provou.  Agora, pelo menos, conforme Dornelles, o Senado  não  incorrerá no mesmo abuso, preferindo aguardar a ação de quem de direito.  O ministro não respondeu. Ficou de queixo caído. 
 
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ILUSÃO OU FANTASIA?
                                                        
Ontem, em Assunção, na presença da presidente Dilma Rousseff, o ministro Guido Mantega, da Fazenda, voltou a defender que os   países do Mercosul negociem  entre si, repelindo a invasão de  produtos chineses, americanos e europeus. Pode ter querido prestar uma homenagem a Solano Lopes,  que tentou, sem conseguir, manter o Paraguai isolado da Inglaterra e do resto do mundo.

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