A guerra do Loucão

Sebastião Nery

José Prata Braga era funcionário dos Correios em Fortaleza. Queria sair de lá, pediu transferência para outro Estado. Chegou o telegrama:

“Apresentar-se em Maracaju”.

Não sabia onde ficava Maracaju. Procurou no mapa. Era muito longe, no sul de Mato Grosso, nas fraldas da serra de Maracaju, bem além de Campo Grande, lá para as bandas das fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. Arrumou suas coisas, deixou seu Ceará e foi para Maracaju.

Lá, descobriu o engano. O telegrama estava errado. Era para apresentar-se em Aracaju, ali perto, no Nordeste. Mas já estava em Mato Grosso, pediu para ficar lá em Maracaju, deixaram. Era um despachado. Camisa aberta no peito, não usava paletó, em pouco tempo virou figura popular na cidade.

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MARACAJU

Vieram as eleições de 1976 para prefeito, Prata Braga queria ser candidato. As legendas e sublegendas da Arena e do MDB já estavam ocupadas pelos candidatos tradicionais da cidade. Insistiu, arranjou a segunda sublegenda da Arena, “para ajudar o partido”. Derrotou todo mundo.

Eleito prefeito, implantou seu estilo. O caminhão do município, a caçamba de carregar terra, o jipe do prefeito, os papéis da prefeitura, tudo passou a ter seu slogan: “É tempo de loucura”. Faixas nas ruas, cartazes nas portas das escolas, em todo canto estava seu slogan: “Tempo de Loucura”.

E construiu o estádio municipal, até hoje lá. Nome: “O Loucão”.

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COSTA E SILVA

Em 6 de janeiro de 1966, o general Costa e Silva ministro do Exército de Castelo Branco e candidato a substituí-lo, foi à Europa e desafiou:

– Vou ministro e volto ministro.

Voltou, seguiu direto para o palácio das Laranjeiras. Na entrada, um grupo de jornalistas. Pôs a mão no ombro de nosso colega Orion Neves: – O que é que há de novo, seu Orion?

– A candidatura do ministro Juracy Magalhães a presidente da República. Acaba de entrar aí. Está disputando com o senhor.

– Esse eu como no café da manhã.

E comeu. Juracy não era Loucão. Tinha juízo e desistiu rapidamente.

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JURACY

Dois meses antes, Juracy tinha largado a embaixada do Brasil em Washington e vindo, todo serelepe, ser ministro da Justiça de Castelo Branco, substituindo Milton Campos, que saiu de nojo, porque não aguentou as imposturas de Castelo, que falava em legalidade e fazia ditadura.

Juracy imaginou que era o momento certo para limpar o terreno para sua candidatura à sucessão de Castelo. Chegou, chamou o jurista udenista Nehemias Gueiros e fizeram o Ato Institucional nº 2 e o Complementar nº1: – acabava com as eleições diretas para presidente da República (enterrando definitivamente a candidatura de Lacerda), com os partidos políticos (Juracy foi presidente da UDN), com o resto de independência do Supremo Tribunal, aumentando o número de ministros de 11 para 16; – retomava as cassações; permitia decretar Estado de Sítio sem ouvir o Congresso, pôr o Congresso em recesso, fazer intervenção nos Estados e demitir qualquer funcionário, civil ou militar, “incompatível com a revolução”; – considerava “crime qualquer atividade ou manifestação política dos cassados”, e por isso os jornalistas cassados não podíamos escrever.

O AI-2 era a gamela ditatorial de Juracy, que Costa e Silva comeu.

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