A Guerra do Rio: rastro de chamas e pânico nas ruas

Pedro do Coutto

O título deste artigo inspira-se – é claro – no filme famoso de Elia Kazan e, a meu ver, é a expressão síntese de temor e perplexidade que envolve o Rio de Janeiro tragado pela violência e pelas ações sem paralelo de bandos organizados que, em represália às Unidades Pacificadoras instituídas pelo governador Sergio Cabral, decidiram enfrentar, mais que isso, atacar o aparelho policial numa sanha destruidora. Com isso, explodiram e incendiaram viaturas oficiais e carros particulares, encurralando a população civil.

O Globo de ontem apresentou como manchete principal cenas da cidade em chamas e o rastro do terror com base em excelente conjunto de reportagens assinadas por Ana Cláudia Costa, Fábio Fabrini, Sérgio Ramalho e Gustavo Goulart. Mas o incêndio não terminou na noite de segunda-feira. Prosseguiu na manhã de ontem, terça, com uma série de novos atentados e a forte reação da PM que invadiu dezesseis favelas cariocas. No Complexo do Alemão, início da tarde, desenrolava-se forte tiroteio. O RJ-TV da Globo reproduzia a arriscada sequência com sérios riscos para repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Assim é a situação da capital do estado. A população não sabe o que fazer. E, às vezes, não sabe sequer para onde ir, pois em lugar algum existe a sensação plena de segurança.

O problema, em sua história, vem se agravando ano a ano. Começou no governo Leonel Brizola, em 83, com a ordem para que a Polícia não subisse as favelas onde, à revelia dos moradores, residem os redutos armados do terror estabelecendo fronteiras entre o mundo legal e o ilegal, entre a ordem e a desordem. Entre o tráfico de drogas e os consumidores que o alimentam. Um desafio enorme, como se vê. Problema extremamente complexo, não apenas estadual, mas nacional, e até universal. Os tóxicos e entorpecentes encontram-se sordidamente em todos os países.

No caso do Rio de janeiro, o governador Sergio Cabral criou as UPPS. Deu certo. Os efeitos se fizeram sentir, inclusive nas urnas de outubro. A insegurança diminuiu, porém o consumo de drogas nem tanto. As contradições são muitas. O magistral “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, é um documento fantástico ao lado de seu valor artístico.

As Unidades de Polícia Pacificadora representam , como era de esperar, uma tentativa válida de solução, porém provisória. Estava claro que a luta pelas maiores faixas de venda e consumo não se tornariam limites geográficos sólidos. O Tratado Urbano de Tordesilhas, como o assinado pelo Papa Alexandre VI na segunda metade do século 15, repetido em 1962 entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, que culminou com a retirada dos mísseis russos de Cuba, não poderia funcionar nos morros cariocas em caráter permanente. A cobiça avassaladora dos criminosos, que ignoram limites, era um fator de risco a ser levado em conta. Reapareceu agora com rara intensidade.

Uma tragédia. Que começa com a subida de drogas e armas nos morros, através de uma trilha chamada omissão, já que teria pelo menos que haver um cerco com esse propósito de bloqueio ao reabastecimento. Não existe. Que envolve a compra de armas modernas. Como pode ser isso? Que inclui a descida do produto das vendas de madrugada ladeira abaixo. Ninguém vê. E que finalmente abrange treinamento especializado no uso do armamento. Porque ninguém pode utilizar armas e lanças bombas sem estar preparado. Manipular armas é como dirigir automóveis. Exige capacitação. Não se descobre os centros de preparação. Onde ficam? A tragédia do Rio – chamas, mortes e pânico – tem raízes extremamente profundas e complexas. É uma história de muitos capítulos e para se obter uma solução definitiva dentro da lei, do progresso e da ordem. Espera-se.

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